12 Janeiro 2026
Entrevista com o professor da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, que era responsável pela coordenação do subgrupo de teólogos especialistas.
A reflexão sinodal sobre a missão da Igreja no ambiente digital, realizada pelo Grupo 3 do Sínodo, não se baseou apenas numa perspectiva pastoral ou na escuta de experiências concretas. Um componente crucial desta reflexão contínua foi a contribuição de acadêmicos e especialistas que, de diferentes áreas do conhecimento, ajudaram a oferecer quadros conceptuais, critérios de discernimento e fundamentos teológicos para a compreensão da cultura digital como um verdadeiro espaço missionário.
Após conversar com Kim Daniels, coordenadora do Grupo de Estudos 3, a conversa se voltou para outra área de atuação do grupo: a de acadêmicos e especialistas. Nesse contexto, conversei com Paul Soukup, SJ, jesuíta, professor da Universidade de Santa Clara (Califórnia) e pesquisador em comunicação e tecnologia, com vasta experiência no estudo da comunicação religiosa. Soukup participou como coordenador do subgrupo de acadêmicos e especialistas, um fórum fundamental para a articulação do pensamento teológico e da análise cultural.
A partir da perspectiva deles, é possível vislumbrar os processos de consenso, os desafios estruturais colocados pela missão digital e como a Igreja pode integrar — sem ingenuidade ou medo — essa nova esfera em sua vida cotidiana.
A entrevista é de Marco Enrique Salas Laure, publicada por Religión Digital, 11-01-2026.
Eis a entrevista.
A experiência de coordenar acadêmicos e especialistas
Na sua posição de coordenador do subgrupo de acadêmicos e especialistas, como descreve a experiência de participar desse processo sinodal e trabalhar com pessoas de origens tão diversas?
Coordenar o grupo de trabalho de acadêmicos e especialistas para o processo sinodal foi uma experiência fascinante para mim. Envolveu ouvir pessoas de todo o mundo, algumas das quais eu já conhecia e com quem já havia trabalhado, mas muitas outras eram novos interlocutores. Foi uma experiência muito valiosa da universalidade da Igreja e da prática de pensar juntos sobre uma questão verdadeiramente importante.
Metodologia sinodal e a construção do discernimento
Para além do conteúdo, de que forma a metodologia sinodal influenciou especificamente a forma de trabalhar, deliberar e construir contribuições dentro do subgrupo?
Acredito que a principal contribuição da metodologia residiu na seleção dos participantes e na nossa intenção comum de oferecer à Igreja uma ampla gama de informações. Seguimos uma dinâmica de escuta-comentário-escrita-comentário-escuta novamente-revisão, o que permitiu que as pessoas influenciassem e refletissem sobre os materiais que cada uma contribuiu. Em um nível pessoal, isso me proporcionou uma compreensão mais clara da missão no ambiente digital como um esforço essencialmente colaborativo.
Fundamentos eclesiais da missão digital
Do ponto de vista teológico e comunicacional, quais elementos do processo sinodal você considera mais decisivos para fundamentar a missão digital na vida da Igreja?
Creio que o elemento fundamental do trabalho do Sínodo que impacta a missão digital é a ênfase sinodal nos discípulos missionários. Esse desenvolvimento de temas já presentes — desde o Concílio Vaticano II e em diversos documentos papais — oferece um fundamento eclesiológico e teológico para o que hoje chamamos de missionários digitais e influenciadores católicos. O Sínodo tornou esses temas mais centrais para a vida da Igreja e legitimou o trabalho dos leigos nesse tipo de atividade missionária.
Integração pastoral e desafios culturais
Ao analisar o relatório do Grupo 3, quais questões você considera mais urgentes para garantir que a missão digital não seja deixada de fora da vida eclesial?
Os temas mais relevantes sobre a missão digital, conforme apresentados no relatório do Grupo 3, parecem-me ser o apoio àqueles que já se dedicam ao trabalho missionário digital e a integração desses indivíduos e do seu trabalho na vida da Igreja em todos os níveis, a começar pelas paróquias e dioceses. A Igreja poderia aprofundar a sua compreensão através de um diálogo contínuo entre os líderes da Igreja. Não creio que haja falta de vontade, mas sim falta de compreensão destas novas mídias e da cultura — muitas vezes uma cultura jovem — que as acolhe.
A lógica dos subgrupos e da escuta ampliada
O trabalho do Grupo 3 incorporou vários subgrupos e fontes de informação. Qual é a sua interpretação dessa estratégia?
O Grupo 3 era composto por vários subgrupos. Como eu não era membro desse grupo — meu papel era exclusivamente o de coordenador do subgrupo de acadêmicos e especialistas — desconheço o raciocínio por trás dessa decisão. No entanto, trabalhar com a equipe de redação do relatório final me permitiu ter acesso aos relatórios dos outros subgrupos. A composição deles sugeria uma estratégia voltada para uma ampla consulta. Alguns, como o subgrupo de acadêmicos e especialistas, foram selecionados por seu conhecimento do mundo digital. Outros contribuíram com informações que, embora não direcionadas especificamente ao projeto do Grupo 3, se mostraram igualmente úteis.
Por exemplo, os participantes do grupo de influenciadores digitais da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa (2023) responderam a questionários que foram posteriormente utilizados como dados para reflexão. Da mesma forma, o Dicastério para a Comunicação solicitou informações sobre atividades online de dioceses ao redor do mundo, principalmente de diretores de comunicação.
Tensões estruturais e direito canônico
Dentre os temas abordados, qual considera o mais complexo de implementar na prática da igreja?
Não tenho certeza de qual das cinco perguntas foi, em si, a mais difícil de discutir. Aquela que provavelmente será a mais complexa de implementar diz respeito à integração de missionários e influenciadores digitais nas estruturas do Direito Canônico, visto que esse arcabouço legal não foi concebido para esse tipo de tecnologia. O mundo online não respeita limites diocesanos nem estruturas eclesiais. Em contrapartida, as perguntas sobre o que a Igreja pode aprender com o ambiente digital ou sobre as melhores práticas se mostraram muito mais fáceis de responder.
Consenso, alertas e convergências
Você ficou surpreso com o nível de consenso alcançado em um processo tão amplo e pluralista?
De certa forma, fiquei surpreso e ao mesmo tempo satisfeito com o grau de consenso alcançado, tanto dentro do subgrupo de acadêmicos e especialistas quanto em todos os materiais de todos os grupos. Esses grupos representavam aproximadamente 1.500 pessoas; todos concordaram com a necessidade de integrar as mídias digitais. Alguns enfatizaram as ameaças que podem surgir no mundo online — privacidade, proteção infantil, desinformação ou falta de supervisão —, mas, no geral, não houve grandes divergências.
Cultura e missão digitais
No contexto do trabalho do subgrupo, como o conceito de "cultura digital" era compreendido?
Nosso grupo chegou a um consenso sobre o conceito de “cultura digital”, entendendo-o como uma esfera que inclui as mídias sociais — em todas as suas plataformas — e seus diversos formatos: texto, áudio e vídeo. Acreditamos que o uso religioso dessas mídias constitui a própria missão digital.
Quem são os sujeitos da missão digital? Nessa perspectiva, como você descreveria os sujeitos envolvidos na missão digital?
O foco da missão digital é duplo. Por um lado, estão os criadores — influenciadores católicos que se consideram missionários digitais, buscando seguidores em torno de temas religiosos e católicos — e, por outro, aqueles que consomem esse tipo de conteúdo. O público pode ter qualquer característica demográfica — gênero, idade, filiação religiosa, país, cultura — basicamente a mesma dos membros da Igreja ou daqueles que a buscam.
Diálogo entre especialistas e missionários digitais
Como aconteceu o diálogo concreto entre acadêmicos, especialistas e missionários digitais?
O diálogo permitiu que ambos os grupos conversassem e se ouvissem mutuamente, oferecendo contribuições orais e escritas. Os membros puderam ler, comentar e editar os materiais produzidos. O trabalho começou com cada uma das cinco perguntas propostas pelo Grupo 3: os comentários foram ouvidos, os resumos escritos foram revisados e discussões ocorreram até que se chegasse a um consenso, antes de passar para a próxima pergunta.
Liderança papal e horizonte futuro
Por fim, como percebe a continuidade entre o ímpeto de Francisco e o horizonte que se abre com o Papa Leão XIV?
A ênfase do Papa Francisco no discipulado missionário claramente moldou o trabalho. Minha impressão do Papa Leão XIV, com base no que li — especialmente suas palavras no Jubileu — é que continuaremos a caminhar na mesma direção.
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