O Papa lamenta aos cardeais que a Igreja tenha “fechado as portas” às vítimas de abuso

Foto: Vatican Media

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12 Janeiro 2026

Leão XIV reconheceu, em uma reunião com os cardeais, que as vítimas não foram bem recebidas nem acompanhadas.

A reportagem é de Lorena Pacho, publicada por El País, 10-01-2026.

O Papa Leão XIV lamentou, em um encontro com cardeais de todo o mundo, que a Igreja “tenha fechado as portas” para as vítimas de abuso e não as tenha escutado, o que só intensificou sua dor. Embora a questão do abuso dentro da Igreja Católica não estivesse na pauta deste encontro com os cardeais, como o próprio Papa esclareceu, Leão quis “mencionar o problema”. “Embora não tenha sido um tema específico de discussão em nosso encontro, quero mencionar um problema que ainda hoje é uma verdadeira ferida na vida da Igreja em muitos lugares: a crise causada pelo abuso sexual”, afirmou o Papa.

O Papa convocou os cardeais do mundo inteiro para uma cúpula de dois dias no Vaticano, na quarta e quinta-feira passadas, com o objetivo de aconselhá-lo sobre sua governança e fortalecer a unidade da Igreja. Os cardeais decidiram discutir a sinodalidade, ou seja, a ideia de uma Igreja participativa e da evangelização. Neste sábado, a Santa Sé divulgou o discurso de encerramento que o Papa proferiu ao Colégio Cardinalício na quinta-feira. Perante os cardeais, vindos de todo o mundo, o pontífice optou por se concentrar na questão dos abusos sexuais cometidos por membros do clero e nas deficiências da resposta institucional, que tiveram um profundo impacto na Igreja Católica, tanto em termos de sua reputação quanto de sua credibilidade moral.

“O abuso em si causa uma ferida profunda que pode durar a vida inteira; mas, muitas vezes, o escândalo na Igreja decorre do fato de a porta ter sido fechada e as vítimas não terem sido acolhidas, nem acompanhadas pela proximidade de verdadeiros pastores”, lamentou Leão XIV. Ele reconheceu que “muitas vezes a dor das vítimas foi maior porque elas não foram acolhidas e ouvidas”. Por essa razão, pediu aos cardeais, a mais alta autoridade na hierarquia católica depois do Papa, que compartilhassem essa reflexão com os bispos em seus respectivos países e transmitissem uma mensagem clara: “Ouvir é profundamente importante”.

“Não podemos fechar os olhos nem o coração”, enfatizou o pontífice, recordando o testemunho de uma vítima que conheceu recentemente e que explicou que o mais doloroso para ela era que nenhum bispo queria ouvi-la.

Em seu discurso, Leão XIV também abordou o tema da formação: “Vocês falaram da importância da formação: formação para a escuta, formação para uma espiritualidade da escuta. Em particular, como vocês enfatizaram, nos seminários, mas também para os bispos!”, observou ele.

O Papa Leão XIV conseguiu reunir 170 dos 245 membros do atual Colégio Cardinalício no Vaticano para um encontro de dois dias. Entre os participantes estava o cardeal e arcebispo de Madri, José Cobo, que na sexta-feira se reuniu com outros bispos espanhóis e representantes da Secretaria de Estado do Vaticano para avançar nos preparativos para uma possível visita papal à Espanha ainda este ano.

O Papa propôs a realização de uma cúpula deste tipo com os cardeais todos os anos para dar continuidade à cooperação entre eles. A próxima será realizada em junho deste ano. Nesse primeiro encontro, ele pediu repetidamente aos cardeais que se esforçassem para manter a unidade na Igreja, ciente das divisões entre as facções reformistas e conservadoras, mesmo durante os doze anos do pontificado de Francisco.

Até o momento, Robert Prevost, desde sua época como bispo no Peru e como prefeito do Dicastério para os Bispos do Vaticano, tem demonstrado que leva a questão dos abusos a sério. Em outubro passado, ele se reuniu pela primeira vez como Papa com vítimas de abusos clericais de diversos países, que foram recebidas no Vaticano. Na ocasião, os participantes celebraram o encontro como “muito significativo” e enfatizaram que o Papa estava muito bem informado sobre o assunto. “Isso reflete um compromisso compartilhado com a justiça, a cura e a mudança real. As vítimas há muito tempo buscam um lugar à mesa, e hoje nos sentimos ouvidas”, disse Gemma Hickey, presidente do Conselho Global de Vítimas de Abuso e vítima canadense de abuso clerical, que participou do encontro.

Em novembro, o Papa realizou outro encontro “profundo e doloroso”, com duração de quase três horas, com 15 vítimas de abusos na Igreja, na Bélgica.

Em junho passado, um mês depois de se tornar Papa, ele enviou uma mensagem de apoio aos repórteres no Peru que investigavam os abusos do grupo ultraconservador Sodalitium, apelando a uma cultura de tolerância zero, que “só será genuína se resultar de vigilância ativa, processos transparentes e escuta sincera daqueles que foram prejudicados”. “Para isso, precisamos de jornalistas”, concluiu.

Durante seu período como bispo no Peru, Prevost, que também possui nacionalidade peruana, apoiou as vítimas e os jornalistas atacados pela hierarquia eclesiástica do país, que trouxeram à tona o caso Sodalitium, finalmente arquivado por Francisco em janeiro de 2025. Posteriormente, em Roma, de 2023 até sua eleição como Papa, foi prefeito do Dicastério para os Bispos, o poderoso ministério do Vaticano que governa todos os responsáveis ​​pelas dioceses em todo o mundo, e agiu com rapidez e decisão sempre que surgia um problema em qualquer país.

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