12 Janeiro 2026
Enquanto o presidente mente descaradamente sobre o assassinato de Renee Good por forças especiais anti-imigrantes, o vice-presidente prefere uma verdade brutal: "Ela morreu por sua ideologia".
O artigo é de Stefano Cappellini, jornalista italiano e escritor, publicado por La Repubblica, 09-01-2026.
Eis o artigo.
O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, conhecido por seu papel como a ala proletária do trumpismo — em suma, alguém que é para Trump o que a SA dos irmãos Strasser foi para Adolf Hitler — disse que Renée Good, de 37 anos, poeta e mãe de três filhos, "morreu por sua ideologia". Vance, que entrou para a política com ambições intelectuais — em suma, alguém que é para o movimento MAGA o que Goebbels foi para o Partido Nacional Socialista —, está convencido de que assumir a responsabilidade é ainda melhor do que mentir: em relação aos eventos em Minneapolis, ele não vê necessidade de negar as evidências como o presidente Trump, que é capaz de alegar que o agente do ICE que matou a vítima foi atacado e atropelado por ela, enquanto todos os vídeos mostram claramente que a mulher estava dirigindo seu carro sem ameaçar ninguém quando foi deliberadamente assassinada.
Vance, em suas próprias palavras, apoia a alegação de legítima defesa do policial: aquela mulher "morreu por sua ideologia". Entendeu? É claro que o policial foi atacado: atacado pela ideologia de Renee Good. Essa é a ameaça à qual o atirador das gangues de Trump, que vêm aterrorizando os Estados Unidos há meses, respondeu.
Pensar diferente de Trump é, em si, uma forma de agressão. Ideias diferentes das do clã de Washington representam um perigo para a nação e, de agora em diante, qualquer um que as professe merece ser morto com a bênção da Casa Branca. O governo Trump já garantiu publicamente ao assassino imunidade total e imediata, porque uma das primeiras coisas que dão errado quando pessoas que desprezam a democracia chegam ao poder é a separação entre os poderes executivo e judiciário. No panfleto em que reivindica a autoria do assassinato, o vice-presidente Vance explica que o apoio ao ICE é incondicional e que a resposta do governo àqueles que se opõem às suas políticas será "ainda mais dura" — "ainda mais dura" no original. Uma passagem perturbadora em sua brutal sinceridade: saibam, caros americanos, que o intelectual Vance já está contemplando soluções "mais duras" do que um assassinato a sangue frio. O que é "mais duro" do que um assassinato a sangue frio? Não está claro qual outro limite deve ser ultrapassado para se render à evidência de que o Estado mais poderoso e importante do mundo não opera mais dentro dos limites da democracia e do Estado de Direito.
Você se lembra de Vance intimidando Zelensky no Salão Oval — uma cena que entrará para a história, um testemunho da posição política e moral do governo em exercício — enquanto incitava seu chefe a destruí-lo, porque Trump não é do tipo que aceita ser o segundo melhor. Seria como Bob De Niro deixar Joe Pesci roubar seu papel como o chefe titular em Os Bons Companheiros. Os mafiosos de segunda categoria, nesta elegia americana, acabam como Maduro, justamente acusado de fraudar a eleição e abusar de seu poder, algo que Trump tentou em vão fazer em janeiro de 2021 com um grupo de pessoas boas no Capitólio, todas já perdoadas após o retorno do magnata à Casa Branca.
Há uma categoria de pessoas que Trump tolera ainda menos do que qualquer outra: aquelas que conseguem se sair pior do que ele. Ele disse que um dos erros de Maduro foi imitar seus passos de dança. E estava falando sério. Disse também que foi errado conceder o Prêmio Nobel da Paz a María Corina Machado, líder da oposição ao regime venezuelano. Machado, que aspira governar Caracas, respondeu em entrevista à Fox News que está pronta para oferecer oficialmente o Prêmio Nobel a Donald Trump, provando que até Trump acerta de vez em quando: o Prêmio da Paz merecia mãos melhores.
A operação policial na Venezuela revelou um panorama da situação dramática enfrentada pelos democratas em todo o mundo: presos entre os apoiadores de um tirano norte-americano, prontos para justificar cada uma de suas atrocidades, e os simpatizantes de um tirano deposto, entre os quais se encontram proeminentes esquerdistas convencidos de que a Venezuela representava uma tentativa avançada de socialismo. Estes também, embora num sentido completamente diferente do de Renée Good, estão alheios à ideologia. A única chefe de governo europeia a ter considerado a operação em Caracas "legítima" foi a ex-membro do MSI, Giorgia Meloni, cuja carreira política começou numa colina romana com um nome não coincidentemente alucinógeno.
Renee, portanto, "morreu por sua ideologia". Qual? Ser comunista? Nada se sabe. Ser democrata? Possivelmente. Ser humana? Provavelmente. Ou talvez ser lésbica, mas seu assassino não tinha como saber disso. As únicas pistas que ele tinha sobre a vida de Renee eram os bichinhos de pelúcia dos filhos dela nos bancos do carro.
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