07 Janeiro 2026
O que sustenta e faz crescer a fé cristã? O que proporciona ao cristão um conhecimento penetrante e amoroso do mistério de Cristo? Há apenas uma resposta que em todos os tempos foi considerada essencial à vida da Igreja: a homilia.
O artigo é de Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, publicado por La Stampa-Tuttolibri, 03-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
A homilia, herdada dos padres judeus, está presente nas liturgias da Palavra que o povo de Deus celebra para ouvir a palavra que Deus lhes dirige e que é testemunhada nas Sagradas Escrituras. As Sagradas Escrituras, a Bíblia, não são a Palavra de Deus, mas a contêm e precisam ser lidas, proclamadas, interpretadas e analisadas para que na obra do Espírito possam ressoar como Palavra de Deus nos ouvidos daqueles que estão prontos para ouvir. A homilia é o maior ato de responsabilidade de um bispo, de um sacerdote, e, portanto, requer preparação, meditação séria sobre os textos, o esforço para tornar o que foi descoberto possível de ser transmitido, um dom para a assembleia, não importa quão pequena ou grande seja.
Infelizmente, hoje reina a "pobreza": as homilias raramente proclamam o Evangelho de Jesus Cristo; na maioria das vezes, são inspiradas por acontecimentos atuais, pela mundanidade dominante e por modismos eclesiásticos que escandalizam em vez de edificar o crente. Cheias de protagonismo, em busca de artifícios psicológicos, incluindo muitos eventos da atualidade, querem impressionar os ouvintes, mas certamente não os convertem.
Sinto falta das homilias do Papa Bento XVI! Quando proferidas nas liturgias públicas, eram mistagógicas, exigindo não apenas a escuta, mas também a releitura e o estudo, tamanha era a sua riqueza! E aquelas proferidas em particular, com o mesmo entusiasmo, a mesma força, a mesma convicção, embora mais curtas, são joias, verdadeiros alicerces para a construção da fé. Eu fui, posso dizer, amigo do Papa Bento XVI, e durante uma caminhada nos jardins do Vaticano, quando ele era Papa Emérito, ele me disse que, em sua opinião, a homilia era o maior e mais sério dever do bispo. Por essa razão, ele nunca havia aceitado ler homilias preparadas por algum redator da Secretaria de Estado. Ajudas com os documentos, sim, mas com as homilias, não. Tinha que pensá-las, rezá-las e escrevê-las ele mesmo, porque uma homilia não pode ser proferida se for um texto de outra pessoa. Que autoridade poderia ter? O Papa Bento certamente ainda fala por meio de suas homilias.
No início de dezembro, foi publicado pela Libreria Editrice Vaticana o livro "Dio è la vera realtà, Omelie inedite 2005-2017, Tempo ordinário” (Deus é a verdadeira realidade: homilias inéditas 2005-2017, Tempo comum), o segundo e último volume das homilias inéditas de Bento XVI, editado por Riccardo Bollati, Luca Caruso e Federico Lombardi, S.I. O primeiro volume, "Il Signore ci tiene per mano, Omelie inedite 2005-2017, Avvento, Quaresima, Pasqua” (O Senhor nos segura pela mão: homilias inéditas 2005-2017, Advento, Quaresma, Páscoa), foi publicado em maio passado.
Esses dois volumes reúnem todas as homilias proferidas pelo Papa Bento XVI, não durante as liturgias públicas, mas durante as liturgias "privadas", celebradas na capela particular na presença de um pequeno grupo de pessoas composto por seus secretários pessoais e pelas colaboradoras mais próximas. Essas últimas, percebendo toda sua riqueza espiritual, as registraram e transcreveram.
Essa prática continuou mesmo depois de sua renúncia ao ministério petrino, até que o Bispo Emérito de Roma teve forças e voz para tanto.
Ao contrário das homilias públicas que Bento XVI escrevia pessoalmente, suas homilias "privadas", embora preparadas com o mesmo cuidado, eram proferidas sem a leitura de um texto, com uma extraordinária linearidade e clareza de exposição. Os dois volumes contêm 135 homilias distribuídas ao longo do tempo entre 2005, ano em que começou seu pontificado, e 2017.
O valor desses textos reside no fato de abrangerem a parte final de sua longa vida: revelam imediatamente a continuidade de seu espírito e método, os temas que lhe eram caros e, sobretudo, as profundas intuições espirituais que caracterizaram toda a pregação de Bento XVI. Como escreveu o Padre Federico Lombardi, S.I., no prefácio:
"Bento XVI é geralmente considerado, com razão, um dos maiores teólogos católicos contemporâneos, mas não devemos esquecer que ele pode ser igualmente considerado um dos maiores pregadores de nosso tempo, particularmente nas esferas litúrgica e sacramental. E as duas esferas caminham juntas: ensinar e pregar a fé foi a missão de toda a sua vida."
De fato, as homilias de Bento XVI são uma obra-prima de compreensão das Sagradas Escrituras, de exegese espiritual das leituras bíblicas, de entrelaçamento com os tempos e festas litúrgicas, de relação com os sacramentos celebrados, de conhecimento e amor pelos Padres da Igreja, de transmissão do depósito da fé cristã, de interpretação da vida da Igreja e da história mundial.
Por essa razão, não apenas as homilias públicas de Bento XVI, mas também as suas homilias "privadas" são plenamente atribuíveis à tradição homilética dos Padres da Igreja, às grandes mistagogias de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo e São Máximo, o Confessor. Não hesito em afirmar que as homilias do Papa Bento XVI são comparáveis, por profundidade teológica e de fé, às do Papa Leão Magno. Também por sua pregação o Papa Bento XVI mereceria o título de Doutor da Igreja.
Dada a sua riqueza, é difícil selecionar algumas passagens dessas homilias, no entanto percebo uma característica que permeia todo esse corpus homilético: a sabedoria. Esses textos revelam não apenas o conhecimento bíblico, patrístico, litúrgico e teológico incomum de Bento XVI, mas também sua sabedoria.
Sobre o pregador recai toda a responsabilidade de exercer o ministério da Palavra com sabedoria, certamente algo a ser pedido a Deus como dom, mas sobretudo algo que deve ser assumido como um compromisso pessoal. Antes de ser pregador da Palavra de Deus, Bento XVI foi um ouvinte, através da prática assídua da lectio divina, ele se deixou tocar pela Palavra, penetrar pela Palavra, meditou sobre a Palavra e pregou a Palavra.
O pregador, escreve Santo Agostinho, "sit orator antequam dictor", primeiro deve ser orante, depois orador, pregador. Pelos escritos de Ratzinger, fica muito claro que ele sentia que a mensagem bíblica se dirigia a si mesmo antes de se dirigir aos outros; era, antes de tudo, alimento para sua vida de fé.
Isso permitiu a Bento XVI evitar o erro fácil e frequente da pregação moralista; ele não se deixou simplesmente inspirar por instâncias mundanas, acabando por comunicar sua própria experiência ou suas ideias pessoais. A riqueza espiritual dessas homilias provém da compreensão do texto bíblico inserido no contexto litúrgico.
As homilias de Bento XVI são um ato litúrgico, pois nelas ele demonstrou sua rara capacidade de ser celebrante da palavra de Deus, habitado por aquele sentido espiritual da liturgia que ele sempre amou, buscou, ensinou e testemunhou.
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