E se a Venezuela for apenas o começo? Artigo de Francisco Peregil

Foto: RS/Fotos Públicas

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05 Janeiro 2026

O ataque de Trump pode se estender a outros países para consolidar a hegemonia dos EUA no Ocidente contra a expansão da China.

O artigo é de Francisco Peregil, editor da seção Internacional do El País, em artigo publicado por El País, 05-01-2026.

Eis o artigo.

Essa barbárie na Venezuela não dá sinais de que vai parar em território venezuelano. Trump vinha ameaçando há meses até finalmente conseguir depor Maduro de seu reduto. A primeira vítima, humilhada e pisoteada, é o direito internacional. O resto do mundo ocidental recua, paralisado, como passageiros do metrô quando um bandido ataca alguém. Ou como quando um atirador começa a causar caos em um bar ocidental. Se a operação continuar com derramamento de sangue, será ruim. Mas se ela se consolidar em uma transição semipacífica, as consequências poderão ser ainda piores.

Porque então Trump poderia ver a famosa Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente James Monroe em 1823, como mais do que justificada. O objetivo de Washington no século XIX era impedir que as potências europeias interferissem nos assuntos das Américas. E isso mais tarde justificaria o intervencionismo dos EUA no que consideravam seu quintal, seu cheque em branco para instalar o Pinochet da época. Trump carrega essa doutrina como um estandarte no documento de 33 páginas, publicado em novembro, que detalha a nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. No sábado, enquanto circulava uma foto de Maduro algemado e vendado, ele foi questionado na coletiva de imprensa:

— Senhor Presidente, os críticos dizem que isto é um retorno ao imperialismo do século XIX. O senhor está revivendo a Doutrina Monroe?

E ele respondeu:

“Estamos fazendo algo muito melhor. Eu chamo isso de Doutrina Don-Roe. Ela leva meu nome e o de Monroe, mas é muito mais forte. Significa que os Estados Unidos são os líderes deste hemisfério. Não vamos permitir que a China, a Rússia ou o Irã tenham presença em nosso quintal. Por muito tempo, deixamos que nos pisoteassem. Isso acaba hoje. Esta é a nossa região e vamos mantê-la limpa e segura. A Doutrina Monroe foi ótima, mas não tinha a força que estou dando a ela. Temos as forças armadas mais poderosas e vamos usá-las para proteger nossos interesses e nossas fronteiras.”

Se os abusos não acabarem na Venezuela, também podem não parar em Cuba. Trump alertou isso na mesma aparição:

— Acho que Cuba é um assunto sobre o qual acabaremos falando muito em breve, porque Cuba é uma nação falida no momento. Seu sistema não tem sido bom para eles. O povo vem sofrendo há muitos e muitos anos.

E isso não para na Colômbia também. Outro jornalista perguntou:

— E quanto à Colômbia? O presidente Petro condenou a operação como uma violação do direito internacional.

— Ele [Petro] está fabricando cocaína. Eles têm pelo menos três grandes laboratórios de cocaína em operação neste momento e estão enviando a droga para os Estados Unidos. Portanto, ele precisa ficar atento.

Pode ser que nem mesmo a Groenlândia, onde nomeou um enviado especial duas semanas antes de invadir a Venezuela, seja suficiente. E quem sabe se não voltará a fazer piadas sobre anexar o Canadá. Embora tudo isso possa parecer loucura, há muita lógica por trás disso. E tudo pode se resumir a uma palavra: China.

O grande duelo do século XXI está sendo travado entre os Estados Unidos e a China. Pequim não se contenta com a construção da sua Iniciativa Cinturão e Rota ou com os seus constantes exercícios militares em Taiwan; também está expandindo sua influência na América Latina. O líder chinês Xi Jinping estendeu um ramo de oliveira aos países da região em maio, apresentando-se como uma alternativa ao "unilateralismo e protecionismo" de Trump. A China se tornou o segundo maior parceiro comercial da América Latina, depois dos Estados Unidos. E para diversos países, como Brasil, Chile e Peru, já é o maior.

Em abril passado, a Embaixada da China em Buenos Aires publicou uma declaração reafirmando sua influência na América Latina diante de Washington. A declaração instou os EUA a se absterem de “obstruir ou sabotar deliberadamente” a assistência chinesa na região. “Essa atitude revela a natureza hegemônica e intimidatória de uma conduta imoral”, alertava o documento.

É possível que, mais cedo ou mais tarde, Pequim saque suas armas e atire em Taiwan. Até lá, terá a Rússia e a Coreia do Norte ao seu lado. A lógica de Trump dita que Washington deve estar preparado quando a hora chegar. E essa preparação não consiste em fortalecer as relações com a Europa, que ele humilha dizendo que seus partidos neonazistas e de extrema-direita são melhores pianistas, tocando a partitura antieuropeia que ele gosta de ouvir muito melhor… mas sim em manter o controle total sobre seu império ocidental.

Tudo isso se encaixa na lógica trumpiana de competir com a China: petróleo venezuelano, o Triângulo do Lítio (uma área do tamanho da Califórnia que abrange territórios do Chile, Argentina e Bolívia), onde se encontram 50% das reservas mundiais de lítio, minerais críticos da Ucrânia, América do Sul ou Groenlândia, o Estreito do Panamá, que ele insiste em "recuperar" ... E, também, forçar os países aliados a comprar armas dos Estados Unidos sob o pretexto de aumentar os gastos da OTAN.

O sequestro de Nicolás Maduro é, em última análise, uma mensagem codificada para Xi Jinping: o “século americano” não acabou, apenas mudou de rumo. Ao atropelar o direito internacional para “limpar a sua vizinhança”, Trump está traçando uma linha divisória. Na nova ordem, os recursos estratégicos de outros países tornam-se espólios de uma Guerra Fria que já começou a esquentar. Somente os países com armas nucleares podem se dar ao luxo da soberania nacional.

Se o ataque à Venezuela correr mal, será mau. Se correr razoavelmente bem — sem mais derramamento de sangue — será pior. Mas há uma terceira opção: que corra mal e, apesar disso, Trump continue com a sua doutrina Don Roe, afundando barcos ao largo de qualquer costa, desrespeitando o direito internacional em Cuba, na Colômbia e no resto do mundo, incluindo a Europa.

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