Trump, Gramsci e os outros. Artigo de Gustavo Veiga

Foto: Daniel Torok/The White House/Flickr

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05 Janeiro 2026

"Os estragos do chamado marxismo cultural, que eles demonizam e ao qual atribuem todos os males, são o fantasma que alimenta sua filosofia destrutiva: a construção de um outro a ser erradicado do planeta."

O artigo é de Gustavo Veiga, jornalista, publicado por Página|12, 05-01-2026.

Eis o artigo.

Que ordem mundial possível pode se basear na brutal motivação da força? Força empregada pela maior potência militar do planeta quando sente que perdeu sua hegemonia geopolítica. O problema nada menor para os Estados Unidos – ainda que se aceitasse que sequestraram com sucesso o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro – é que suas ingerências históricas no continente contaminam seus próprios interesses no médio e longo prazo. Não os consolidam; tornam-nos frágeis pela irracionalidade do abuso de sua posição dominante.

Os EUA poderão se apoderar do petróleo, do gás e das terras raras da Venezuela, cujo governo não lhes é dócil, mas Trump e seu círculo de falcões acabaram de dar um tiro no próprio pé, ainda que saiam ilesos, no curto prazo, do pântano em que se meteram.

O declínio da hegemonia cultural dos Estados Unidos, nos termos em que poderia explicá-la Gramsci, se aprofundará ainda mais. Sua liderança global, com moralismo incluído, a desgastada escala de valores e a visão de mundo aceita pela imposição de seu poder militar fazem água e entram em crise como o senso comum do Ocidente, descascado e decadente.

A persuasão é sutil demais para uma nação prepotente, que construiu sua própria subjetividade baseada em mentiras históricas ou em gestas nas quais os heróis e as vítimas eram sempre outros. A operação na Venezuela alimentará o anti-imperialismo que percorre a América Latina, como diz um slogan das mobilizações que repudiam, com razão, a pisada de suas botas em solo alheio.

Os Estados Unidos são uma nação cada vez menos crível por seu duplo padrão democrático, aplicável, por extensão, às categorias com que separa ditadores bons e maus: os funcionais à sua política ou os refratários às imposições que chegam de Washington. É lembrada a frase de Franklin D. Roosevelt sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza: “É um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.

O destino manifesto que os Estados Unidos atribuem a si mesmos por divina providência é um credo religioso que convoca cada vez menos fiéis. A sublimação de sua democracia transformou-se em retórica vazia, e que o diga Al Gore, a quem George W. Bush roubou a eleição de 2000. O primeiro venceu no voto popular e perdeu no colégio eleitoral. O cineasta Michael Moore chamou o republicano, que em 2004 seria reeleito, de “ocupante do Salão Oval”.

Não é necessário detalhar a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Completam-se cinco anos nesta segunda-feira. Trump incentivou os golpistas ultramontanos de seu partido e hoje governa com todo o poder de fogo à sua disposição para apoiar genocídios como o de Gaza ou sequestrar presidentes como Maduro em Caracas.

Os Estados Unidos já não dominam o mercado global nem impõem preços ou tarifas como gostariam, com bravatas inconsistentes de seu presidente. Vêm perdendo a batalha tecnológica para a China, o gigante que já os superou na fabricação de semicondutores, na expansão do 5G nas redes móveis e em outros avanços científicos.

A China lidera mundialmente a produção de conhecimento. Antecipou-se aos EUA em 57 das 64 tecnologias críticas que definirão o futuro econômico e militar global, segundo o Instituto Australiano de Política Estratégica. O dado é do ano que acaba de terminar.

São muitos os terrenos em que os Estados Unidos vêm tropeçando, e mais um é aquele em que desceram para impor a paz por meio da força. Novo ou gasto slogan que Trump tomou de algum assessor inclinado a se guiar pelas ficções de Hollywood. Uma formidável máquina de hegemonia cultural que delineou o estilo de vida americano e estereotipou negativamente cidadãos que vivem dentro e fora de suas fronteiras. Um repasso às grandes produções da Metro-Goldwyn-Mayer ao longo do século XX seria suficiente: povos originários, afro-americanos, hispânicos, árabes, chineses quase sempre ocuparam papéis de vilões ou secundários.

Essa usina de subjetividades que moldou o American way of life (o estilo de vida americano) espalhou pelo mundo valores como a meritocracia, a liberdade individual, a busca de uma felicidade idílica, a concepção, em última instância, de que os EUA são o paraíso na Terra. Uma ideia-força que já não vigora nos tempos de Trump, quando qualquer país ou cidadão do mundo que fique ao alcance de seus fuzileiros navais, suas forças Delta ou seus mísseis inteligentes é um alvo fácil.

A ainda poderosa nação que voltou a lançar seu olhar sobre o quintal dos fundos, baseada na Doutrina Monroe de 1823, tem o uniforme de gendarme planetário gasto. Por rigor histórico e justiça com Gramsci, é preciso dizer que a extrema direita dos EUA também fracassou em sua tentativa de se apropriar do conceito de hegemonia para usá-lo em sua batalha cultural desencadeada contra o resto da humanidade. Os estragos do chamado marxismo cultural, que eles demonizam e ao qual atribuem todos os males, são o fantasma que alimenta sua filosofia destrutiva: a construção de um outro a ser erradicado do planeta.

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