29 Novembro 2025
"Minha fé me dá a confiança para me dedicar à ciência. E a ciência me fornece as ferramentas para compreender minha fé."
Em entrevista ao katholisch.de, o astrônomo e jesuíta Guy Consolmagno explica como ciência e fé podem coexistir e por que a possibilidade de outras formas de vida além da Terra permanece em aberto. Publicado no blog da Editrice Queriniana Teologi@Internet (1º de setembro de 2025).
A entrevista é de Mario Trifunovic, publicada por Settimana News, 27-11-2025.
Eis a entrevista.
Como jesuíta, o senhor não é apenas um homem de fé, mas também um cientista. Explorar a imensidão do universo mudou sua visão da criação? Como o senhor consegue conciliar ciência e fé, e onde esses dois mundos se cruzam para o senhor?
Minha fé me dá a confiança para seguir a ciência. E a ciência me fornece as ferramentas para compreender minha fé. Elas não se substituem, nem cumprem o mesmo propósito, mas ambas me ajudam a aprender onde procurar a verdade e como reconhecê-la quando a encontro.
Quando realizo pesquisas científicas, por exemplo, parto do princípio de que o universo de fato segue leis e que sou capaz de compreendê-las, e parto do pressuposto de que o próprio universo é digno de ser explorado, simplesmente por si só. A coragem para acreditar nessas coisas vem da minha fé, da convicção de que Deus criou o universo intencionalmente como um ato de amor. Por outro lado, minha ciência me permite ler Gênesis como um livro de teologia, não como um livro de ciência, algo que Santo Agostinho enfatizou há 1.700 anos. E quanto mais minha ciência me revela como este universo incrível funciona, mais posso admirar o maravilhoso Criador que o criou.
O senhor vê Deus como parte deste universo ou como algo que existe além do espaço e do tempo?
Ambas as perspectivas, é claro. No primeiro versículo do Gênesis, Deus já está presente antes da criação. Deus é sobrenatural, transcende a natureza, existe além do espaço e do tempo. Mas então, por razões que jamais compreenderemos completamente, mas que têm a ver com o amor, Deus decide criar o espaço e o tempo. E como a criação ocorre fora do espaço e do tempo, isso significa que todo o espaço e o tempo ainda estão em processo de criação. Isso é algo que São Tomás de Aquino compreendeu muito bem.
E então, de uma forma ainda mais misteriosa, Deus decide se fazer carne, encarnando-se em um lugar e tempo específicos. Dessa forma, o universo foi "purificado e vivificado", para usar as palavras de Santo Atanásio. E essa encarnação continua na celebração da Eucaristia.
Assim, Deus, que está fora do universo (e, portanto, pode atribuir-lhe um significado que ele próprio não pode atribuir-lhe), está, ao mesmo tempo, intimamente presente no universo.
Qual a sua posição sobre a possibilidade de vida extraterrestre? Tem alguma ideia concreta sobre isso, ou ainda é uma questão em aberto para o senhor?
Não sabemos. Nem sequer sabemos o suficiente para fazer uma estimativa fundamentada! Por exemplo, a famosa equação de Drake mostrou todas as diferentes variáveis que precisariam ser definidas para calcular a probabilidade de encontrarmos uma civilização extraterrestre.
Mas é óbvio que alguns fatores nessa equação, como a relativa raridade do surgimento de vida em um planeta ou a probabilidade de a vida desenvolver inteligência, são completamente desconhecidos. O universo pode estar repleto de vida, mas também podemos estar sozinhos.
E como concilia essa possibilidade com a sua fé?
É importante lembrar que nada em nossa fé ou nas Escrituras contradiz a existência de outras criaturas em relação com Deus. Nossa tradição de anjos é meramente um exemplo de vida não humana. Em outros trechos, os Salmos e outros livros das Escrituras, como Jó e o profeta Baruque, falam das próprias estrelas louvando o Criador com seu cântico. Será que eu realmente acredito que as estrelas cantam? Não importa. O que importa é que a imagem poética pressupõe que os humanos não são as únicas criaturas criadas por Deus. A ideia de que o homem é único no universo não vem das Escrituras; é uma das muitas ideias ingênuas promovidas por filósofos do Renascimento.
Que papel desempenham para o senhor os anjos e demônios da tradição cristã, que supostamente habitam "outras esferas"?
Esses conceitos são imagens poéticas que descrevem realidades difíceis de expressar de qualquer outra forma.
Em minha vida, percebo que sou constantemente assolado por tentações e medos sem sentido; mas também experimento impulsos positivos que parecem surgir do nada, porém me confortam e me dão força. Interpretar essas experiências como vozes espirituais sussurrando em meu ouvido me dá a capacidade de compreendê-las e enfrentá-las.
E, de fato, mesmo em meu trabalho científico, costumo usar imagens simples, porém úteis, como essas. Por exemplo, quando ensino aos alunos o que é um elétron, explico que a verdadeira natureza dos elétrons é quase impossível de compreender.
Mas se você tentar pensar na eletricidade em um fio, pode imaginar os elétrons como pequenas bolas de prata, talvez com sinais de menos pintados nelas, ricocheteando entre os átomos do fio! Essa imagem é simples e boba, mas transmite uma certa compreensão do que acontece no fenômeno da eletricidade.
Vamos agora falar sobre o Observatório do Vaticano. Por que a Igreja ainda o administra hoje em dia?
A versão moderna do Observatório foi fundada pelo Papa Leão XIII em 1891 para mostrar ao mundo que a Igreja apoiava a ciência. Isso era importante na época porque, no final do século XIX, as pessoas começaram a afirmar que religião e ciência eram inimigas. Imagino que uma das razões para isso tenha sido o fato de a Igreja ter reconhecido a maldade da eugenia — uma tendência disseminada na época — antes que sua consequência lógica se manifestasse nos campos de extermínio nazistas.
Muito antes disso, em 1582, a Igreja contratou astrônomos para ajudar a reformar o calendário gregoriano. E, claro, na era das grandes descobertas, a astronomia também era útil para a medição do tempo e a navegação. De fato, já na Idade Média, a astronomia era uma das quatro disciplinas do "quadrivium" nas primeiras universidades fundadas pela Igreja.
O que era ensinado correspondia, em linhas gerais, ao que hoje chamaríamos de cosmologia: como o universo é formado e como ele se comporta. Grande parte disso era baseado nas ideias da física aristotélica, a melhor ciência de sua época, que durou 1.500 anos.
Mas?
Essa física era útil, mas não era ensinada por si só. Era ensinada porque compreender a criação de Deus é uma maneira magnífica de conhecer o Criador. Isso reflete o que São Paulo escreveu no primeiro capítulo de sua Carta aos Romanos: desde o princípio dos tempos, Deus se revela nas coisas que criou.
Todas essas razões para se dedicar à astronomia são tão válidas hoje quanto eram naquela época. Há muitas aplicações práticas do conhecimento que adquirimos por meio da astronomia, mas a verdadeira motivação é simplesmente o prazer de contemplar a criação de Deus. E o envolvimento da Igreja nos mais altos níveis de uma ciência como a astronomia continua a desmentir o mito de que Igreja e ciência são incompatíveis.
Como a Igreja é vista pela comunidade científica?
Os doze jesuítas que atualmente trabalham como cientistas na Specola vêm de todo o mundo: da Ásia e da África, bem como da Europa e da América. Todos nós obtivemos doutorado nas mesmas universidades que nossos colegas cientistas, publicamos ao lado deles nos mesmos periódicos especializados e participamos ativamente das mesmas organizações científicas. Atuamos como revisores para todos os principais periódicos científicos e em comitês que auxiliam instituições governamentais como a Esa e a Nasa na seleção de projetos de pesquisa. Ocupamos cargos na União Astronômica Internacional (da qual o Vaticano é membro, juntamente com outras nações ao redor do mundo) e em outras organizações científicas, como a Sociedade Astronômica Americana.
E a próxima geração? Onde os jesuítas encontram tantos astrofísicos?
Graças a essa rede, também somos bem conhecidos entre os jovens cientistas. Alguns deles acabam ingressando na Ordem Jesuíta. Atualmente, há meia dúzia de jovens jesuítas em formação que poderão um dia se juntar ao Observatório ou lecionar em universidades e escolas jesuítas em seus países de origem.
A presença desses jovens, a maioria dos quais trabalhou conosco durante o verão ou outros períodos de sua formação, atesta a reputação do observatório astronômico dentro da Igreja e da Ordem Jesuíta. E talvez seja também um sinal do apoio do Espírito Santo!
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