A política brasileira no palco do teatro grego. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: Mateus Dias | IHU

Por: Cristina Guerini e Lucas Shcardong | 30 Agosto 2025

Tal como no teatro grego, tragédia é o que nos reservará o futuro do Brasil. Após a condenação e prisão de Bolsonaro, teremos o pleito de 2026 possivelmente com Lula e Tarcísio de Freitas na disputa real. Em meio a tudo isso, um cenário turvo que indica que poderemos ter uma "nova versão das tragédias gregas", ao mesmo tempo mais precária e obscura, com a exploração das tensões reprimidas da sociedade, causando terror e compaixão, mas com protagonistas fadados a destinos de glória e desventura.

Cenários

A ideia foi posta pelo sociólogo Rudá Ricci, em um fio do X em que analisa as possíveis consequências da condenação de Jair Bolsonaro e projeta cenários políticos futuros. Ricci fala sobre as eleições de 2026 para o lulismo e a direita. Para a esquerda, a única opção é a reeleição de Lula, que enfrentaria lutas e ataques constantes. A direita, por sua vez, enfrenta cenários mais complicados, com o pior deles sendo a derrota de Tarcísio de Freitas na eleição presidencial. A vitória de Tarcísio seria o cenário mais favorável para a direita, exigindo uma campanha avassaladora e bem financiada, algo que o sociólogo coloca como muito difícil de acontecer. E pontua, que isso poderá, em certa medida, deter o avanço dos reacionários. “Sem a Presidência e sem o comando do principal governo estadual do país, nem os cavalos brancos de Goiás, nem os ratinhos do Paraná salvarão a terra arrasada da extrema-direita ou a direita que gostaria de ser mais extremista. O bolsonarismo fez todo campo político brasileiro se tornar inseguro e desestruturado. Fez de Lula um líder cauteloso. O Centrão, até então fiel da balança, passou a correr de um lado para outro e revelou muitas de suas fragilidades”.

Ruptura

José de Souza Martins também vê um cenário incerto para o futuro do país. "Estamos numa fase de crise de ruptura do pacto subjacente ao fim da ditadura militar com a eleição indireta de Tancredo para a Presidência em 1985. Estamos vivendo o fim da era de transição. Ou o país dá um passo à frente, impossível na permanência da polarização pendular entre direita e esquerda, ou o país recua no que será uma derrota da luta democrática no país. Nesse caso, uma outra era está começando. Uma era de recuos e incertezas num país que não está preparado para enfrentá-los", analisa.

Crime organizado

"A maior operação policial da história contra o crime organizado" tomou das manchetes do país nos últimos dias. O alvo, um esquema do Primeiro Comando da Capital – PCC, que lavou bilhões de reais em postos de gasolina, transportadoras, fazendas, fintechs e na Faria Lima. E aquela fake news que fez campanha contra a fiscalização do pix, elaborada por um deputado federal, colaborou com a corrupção da quadrilha.

Crime na Faria Lima

Na lista dos investigados, figurões do mercado financeiro. Entre eles, João Carlos Mansur, dono da Reag Investimentos, empresa acusada de lavar dinheiro do PCC, que tem diversas parcerias com clubes de futebol e já estruturou 200 fundos de investimentos. Segundo Tarso Genro, é “muito importante que este inquérito policial também esclareça se ocorreram conexões deste esquema criminoso com processos eleitorais nos Estados e com o financiamento da tentativa de Golpe de Estado. 'Siga o dinheiro'. São bilhões movidos pela bandidagem em todos os níveis”.

Guinada autoritária

O poder e a força da arrogância continuam dando a direção do governo Donald Trump, que acelera rumo ao autoritarismo. Após mobilizar a Guarda Nacional e militarizar Whashington, Trump afirma que fará mudanças para que o Ministério Público sempre busque a pena de morte para homicídios na cidade. Além disso, a Casa Branca anunciou que assumiu o controle da estação ferroviária central da capital.

Demissões

Em uma semana de demonstração de força e poder, o presidente americano ainda demitiu Susan Monarez, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, que se recusou a aceitar o plano negacionista na saúde. E, também, Lisa Cook, diretora no FED, o Banco Central dos Estados Unidos, o que indica uma campanha presidencial para assumir o controle do órgão. As medidas são mais uma manobra de Trump para desafiar os limites de sua autoridade.

Curtis Yarvin

Ava Kofman faz uma análise de “como Curtis Yarvin passou da marginalidade do mundo da chamada ‘Ilustração Sombria’ para atrair o interesse de políticos republicanos de primeiro escalão. Para Ava, “os cidadãos americanos vivem hoje sob um governo que se arroga o direito de fazê-los desaparecer sem devido processo: como Trump disse ao presidente salvadorenho Nayib Bukele em uma reunião na Casa Branca, 'os locais são os próximos. Sem um sistema vigoroso de freios e contrapesos, ideias malucas de um indivíduo – como iniciar uma guerra comercial incoerente que virou a economia mundial de cabeça para baixo – não têm nada que as filtre. Tornam-se políticas públicas com as quais sua família e aliados se enriquecem”.

The Economist

Com a capa retratando Bolsonaro com o rosto pintado com as cores do Brasil e com um chapéu como chifres, como usava um dos invasores do Capitólio, e o editorial "Brasil oferece aos Estados Unidos uma lição de maturidade democrática", a revista britânica The Economist é incisiva ao afirmar que as instituições brasileiras foram resilientes na atuação da defesa da democracia. A publicação ainda fala como há uma inversão de papeis entre Estados Unidos e Brasil, afirmando como a América está se tornando mais corrupta, protecionista e autoritária com Donald Trump.

Resort em Gaza

"Um 'acordo temporário' para interromper o genocídio em Gaza, enquanto se aguarda um plano de longo prazo para estabilizar toda a região. Esses foram os dois tópicos centrais da cúpula da Casa Branca que aconteceu essa semana. Segundo o Times of Israel, o presidente Trump não disse que se opunha às operações lançadas pelo primeiro-ministro Netanyahu, mas o instou a concluí-las rapidamente”. No encontro, estavam Steve Witkoff, genro de Trump, Jared Kushner e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. No encontro, Blair apresentou a Trump o projeto para a criação de “um centro comercial para o Oriente Médio e um resort de férias para o mundo”. Este é, em resumo, o plano de transformação de Gaza após o fim da guerra, que ignora e desumaniza ainda mais os palestinos. 

Limpeza étnica

Os planos nefastos para a palestina, capitaneados por Donald TrumpBenjamin Netanyahu e agora Tony Blair, continuam varrendo a população mapa. O grave quadro de fome e desnutrição deve piorar ainda mais nos próximos dias, após Israel anunciar nesta sexta, 30 de agosto, o fechamento do corredor humanitário na cidade de Gaza, que já havia recebido ordem de evacuação total. No oriente médio, os crimes contra a humidade não cessam e como disse Philippe Lazzarini, comissário-geral da agência da ONU na Palestina, "Gaza está se tornando um cemitério do direito internacional humanitário". 

Crimes de guerra

Cinco jornalistas foram assassinados no ataque de segunda-feira, 25 de agosto, ao Hospital Nasser, em Gaza, que deixou um total de 20 mortos. Os jornalistas mortos são Hossam Al Masri (da Reuters), Mohamed Salama (da Al Jazeera), Mariam Abu Daqqa (freelancer da agência de notícias AP), Moaz Abu Taha e Ahmad Abu Aziz. Infringindo, mais uma vez o direito internacional, as forças israelenses atacaram um hospital e quando as vítimas dos primeiro bombardeio recebiam ajuda, foram assassinados pelo exército, que atirou de novo.

Resistência cristã

A declaração conjunta do Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém e do Patriarcado Latino de Jerusalém reafirma as palavras do padre Romanelli: "não nos renderemos, não iremos embora". O texto diz, com veemência, que "os religiosos, o clero e as freiras que pertencem ao complexo greco-ortodoxo de São Porfírio e ao complexo da Igreja Católica da Sagrada Família, onde atuam as Irmãs Missionárias da Caridade de Madre Teresa, decidiram permanecer na Cidade de Gaza e continuar a cuidar de todos aqueles que ali encontraram refúgio".

Flotilha Global Sumud

A partir de domingo, 31 de agosto, acompanharemos a Flotilha Global Sumud, que é a "maior missão cívica naval de todos os tempos" para tentar furar o bloqueio de Israel em Gaza. São ativistas de mais de 44 países a bordo de dezenas de barcos para cruzar o Mediterrâneo, na tentativa de abrir um canal humanitário permanente.

Esses e outros assuntos nos Destaques da Semana. 

Clique na imagem abaixo e ouça o podcast na íntegra para ficar por dentro dos principais acontecimentos da semana.

Os programas do IHU estão disponíveis nas plataformas Anchor e Spotify e podem ser ouvidos on-line ou baixados para o seu celular. Ouça outros episódios clicando aqui