Romênia-Ortodoxia: bispo e monge abusadores

Foto: Pixabay

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20 Agosto 2025

O silêncio das fontes informativas ortodoxas não conseguiu impedir que um portal de informação como o Courrier des Balkans, em 9 de agosto, relatasse a primeira condenação de um bispo (e de um monge) na Romênia por acusações de reiterados abusos sexuais contra seminaristas.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimanna News, 18-08-2025.

Com base em informações de sites especializados (neste caso, Sã fie lumina – Que haja luz), registra-se pela primeira vez a condenação de um bispo abusador serial a 8 anos de prisão (Corneliu Onilã, diocese de Huşi), enquanto o monge, primeiro cúmplice e depois chantagista, foi condenado a 15 anos (Sebastian Jitaru). A diocese e o seminário deverão pagar 170 mil euros às vítimas.

A narrativa pode começar a partir da reunião do Santo Sínodo da Igreja Romena em 25 de fevereiro de 2016. Ao final da longa lista da ordem do dia estava a proposta de dom Corneliu Onilã para uma importante promoção de Sebastian Jitaru a um alto grau monástico, o de arquimandrita. A decisão, submetida a uma rápida verificação, leva a assinatura do patriarca Daniel, a mais alta autoridade da Igreja. Ninguém questiona por que um obscuro monge deveria receber tal reconhecimento.

No ano seguinte, o bispo Onilã apresenta denúncia à Direção Nacional Anticorrupção contra a publicação de uma série de vídeos comprometedores em que aparece em atos sexuais com seminaristas nas capelas da catedral de Huşi. Os vídeos vinham do monge Jitaru e de seus confrades.

Explode o escândalo. O monge é condenado por extorsão, mas a violência sexual é ignorada. Descobre-se que Jitaru, também ele abusador serial, mantinha o bispo sob chantagem e o havia obrigado a propor ao sínodo sua promoção a arquimandrita.

Onilã pede para ser dispensado das funções pastorais. É colocado em retiro em um mosteiro feminino, mantendo o título e o salário de bispo (pago pelo Estado).

As condenações Somente o jornalismo investigativo de Sã fie lumina obriga a reabrir o lado dos abusos que, nos anos investigados (2016-2017), acumularam cerca de uma centena de vítimas entre os seminaristas.

O silêncio das instituições eclesiásticas e a cobertura dos partidos e da administração pública dificultam o processo judicial. Muitos entre as dezenas de testemunhas reduzem o peso de suas denúncias.

Na tradição jurídica local, se os rapazes não falam imediatamente com os pais, não oferecem resistência física, não são forçados a determinadas posições, não recebem atenção nem credibilidade.

Mas o tribunal de Galați, em 27 de junho de 2024, condena formalmente os dois acusados. O recurso posterior à Alta Corte de Justiça não resulta em nada além da confirmação da condenação a 8 anos para o bispo e 15 anos para o monge (30 de abril de 2025).

A reação do mundo ortodoxo romeno ignora o peso da decisão judicial, considerando dom Onilã fora de qualquer função eclesiástica e o monge já excluído de toda pertença. Manifesta surpresa e irritação pela ordem da sentença de pagar, como indenização às vítimas, 170 mil euros. A diocese e o seminário se recusam a fazê-lo.

A remoção do problema

Até 2016, o bispo Onilã gozava de grande prestígio, inclusive entre os altos escalões da Igreja. Seu brilhante percurso acadêmico (licenciatura e doutorado em Marburgo, Alemanha) lhe permitiu ensinar no Instituto Teológico de Bucareste e, em 1999, ser eleito bispo, primeiro auxiliar pelas mãos do patriarca Daniel e depois, em pleno direito, em Huşi.

Foi delegado do Patriarcado em várias ocasiões de diálogo e em grupos de estudo no exterior (Alemanha, Itália, Suécia, Bélgica, Polônia etc.), tornando-se autor respeitado nas principais publicações teológicas do país.

A reação dos ambientes ortodoxos romenos parece ignorar os elementos sistêmicos visíveis na situação. Há um controle quase total do bispo que, com suas cartas de consentimento ou não, permite a entrada no seminário, a continuidade dos estudos, a possibilidade de assumir um papel pastoral (voluntário ou remunerado), a continuação dos estudos de especialização e a eventual carreira eclesiástica.

O funil dos abundantes repasses estatais e administrativos para a Igreja é rigidamente controlado por poucos responsáveis e a corrupção é generalizada.

A mídia tem revelado nos últimos anos vários casos escandalosos envolvendo o bispo Viarion Bãltat, o padre Petrica Leascu, o bispo Teodosio de Tomis, o sacerdote Visarion Alexa etc. A ponto de induzir a secretaria do sínodo a publicar uma declaração (fim de 2023) de condenação à simonia. “A simonia é um ato pelo qual, em troca de dinheiro ou valores (por amizade, nepotismo, influências políticas ou de outra natureza), obtém-se a ordenação, uma sede diocesana, uma paróquia, um diploma ou uma promoção acadêmica (pré-universitária, universitária e pós-universitária)”.

Na Romênia há suficiente liberdade de imprensa para expor os escândalos mais evidentes, mas em muitas outras Igrejas ortodoxas, da russa às das áreas ex-soviéticas, a questão dos abusos é removida e a corrupção frequentemente acobertada.

Uma temporada de amplo consenso e de poder crescente expõe as Igrejas ortodoxas nacionais a crescentes tentações e as sujeita a graves contradições.

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