29 Mai 2025
Kuein Manhaai Nhaguakã Xetá, conhecido como Kuen Xetá, encantou na quinta-feira (22); Kuen era o mais velho entre os oito sobreviventes do genocídio perpetrado contra o povo Xetá no Paraná.
A nota é publicada por Cimi, 27-05-2025.
Eis a nota.
É com pesar que o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Sul, recebe a notícia do falecimento de Kuein Manhaai Nhaguakã Xetá, conhecido como Kuen Xetá, ocorrido no dia 22 de maio de 2025.
Kuen Xetá era o mais velho entre os oito sobreviventes do genocídio perpetrado contra o povo Xetá no estado do Paraná, com a conivência do Estado brasileiro. Ele, junto de seus irmãos e parentes – Tucanambá José Paraná (falecido), José Luciano da Silva – Tikuein (falecido), Tiqüein Xetá (falecido), Maria Rosa à Xetá, Maria Rosa Tiguá Brasil, Ana Maria (Tiguá) e Rondon Xetá – foram sequestrados, por servidores do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), de seu território tradicional, ainda na infância e separados de seu povo, reencontrando seus familiares apenas cerca de quatro décadas depois.
Até a década de 1940, o povo Xetá vivia livre e soberano em seu território, na região noroeste do estado do Paraná. Foi então que suas terras foram arbitrariamente repassadas pelo governo à empresa Suemitsu Miyamura & Cia Ltda, e posteriormente à Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (COBRIMCO), ligada ao grupo Bradesco. Esse processo resultou na destruição sistemática de sua cultura, território e modo de vida.
A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Estadual da Verdade do Paraná reconheceram formalmente o genocídio contra o povo Xetá. No entanto, nenhuma de suas recomendações foi implementada.
Em 2009 a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) iniciou os estudos de identificação e delimitação da Terra Indígena Herarekã Xetá, inicialmente reconhecendo 12.433 hectares. Porém, sob forte pressão política, o estudo foi reduzido para apenas 2.868 hectares. Em 2012, a empresa Santa Maria Agropecuária Ltda, administrada por Rubens Aguiar Alvarez, neto do fundador do Bradesco, ingressou com ação judicial pedindo a anulação do estudo. O pedido foi acolhido pela Justiça Federal de Umuarama, em nome da tese do marco temporal, em detrimento dos direitos originários do povo Xetá.
O falecimento de Kuen Xetá representa não apenas a perda de um ancião e guardião da memória, mas também evidencia o sofrimento contínuo de um povo que segue impedido de retornar às suas terras originárias. Sua morte ocorreu sem que seus parentes pudessem prestar-lhe as últimas homenagens, pois vivem hoje dispersos em diferentes terras indígenas nos estados do Paraná e Santa Catarina. Seus parentes apenas souberam do falecimento após seu sepultamento, ocorrido na Terra Indígena Marrecas, em Guarapuava (PR).
O genocídio contra o povo Xetá não pertence apenas ao passado — ele continua. A história de Kuen Xetá é a história da luta por memória, justiça e reparação.
Nossos sentimentos à família e ao povo Xetá.
Que sua memória permaneça viva como uma semente de resistência.
Chapecó (SC), 26 de maio de 2026.
Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – Regional Sul
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