19 Dezembro 2024
Fundada na segunda metade do século XVII para a evangelização de territórios missionários na Ásia, a história da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris (SMEP) está repleta de marcos apostólicos, zelo missionário, vidas entregues ao martírio, mas também de monstros que, aproveitando-se da autoridade que exerciam sobre as pessoas, cometeram abusos sexuais impunemente contra aqueles que deveriam cuidar. Esse relatório revela 63 denúncias de violência sexual perpetradas por 46 sacerdotes da congregação entre 1950 e 2024, "um número provavelmente subestimado", conforme relatam alguns meios de comunicação franceses, das quais 8 estão "comprovadas", e destaca a necessidade de adotar medidas concretas para prevenir a violência sexual.
A informação é de José Lorenzo, publicada por Religión Digital, 18-12-2024.
“Há indignação [na SMEP]. Estas são feridas nas pessoas. Nunca estamos orgulhosos de receber informações que apontem para essas questões", afirmou Vincent Sénéchal, superior geral da instituição, na quarta-feira, 10 de dezembro, após receber naquele dia as 71 páginas da auditoria externa encomendada em fevereiro de 2023 à consultoria independente GPCS.
O relatório revela 63 denúncias de violência sexual perpetradas por 46 sacerdotes da congregação entre 1950 e 2024, "um número provavelmente subestimado", conforme relatam alguns meios de comunicação franceses, das quais 8 estão "comprovadas", e destaca a necessidade de adotar medidas concretas para prevenir a violência sexual.
A maioria das vítimas, mulheres
Como aponta o Los Angeles Press, "a descoberta mais notável do relatório, que contradiz a interpretação da hierarquia católica sobre as causas dos abusos, é que a maior parte das vítimas denunciadas não são homens jovens, como era comum nas duas primeiras décadas da crise, mas mulheres". Assim, 60% das vítimas são mulheres, 37% são homens, e o restante não teve o sexo especificado.
Também não se especifica, por outro lado, a identidade dos abusadores, justificando-se que "evita detalhes pessoais específicos ou histórias individuais das vítimas para proteger sua privacidade e bem-estar". Contudo, para este meio, a razão parece ser outra: "Não é o bem-estar das vítimas que se alcança com essa abordagem na denúncia dos casos de abuso sexual. O objetivo é proteger a identidade dos predadores sexuais", afirma.
A pedestalização
Quanto às causas desses abusos — a maioria cometidos na França, Tailândia, Camboja, Filipinas, Maurício, Singapura, Vietnã, Malásia, Madagascar, Taiwan, Coreia do Sul, Índia e Japão —, eles são inseridos em "um processo mais complexo" com "um componente relevante quando se trata do abuso sexual por parte do clero, conhecido como pedestalização ou iconização".
Trata-se de "um processo que leva a colocar alguém ou algo em um pedestal, elevando-os a um nível idealizado, muitas vezes irreal, de admiração ou relevância", algo semelhante ao ocorrido no mundo hispanofalante com o caso de Marcial Maciel ou, no mundo francófono, com o Abbé Pierre.
Nesse ponto, o relatório entra em detalhes teológicos "para explicar como o abuso do conceito de in persona Christi (agir em nome de Cristo) amplifica ainda mais esse poder, o que potencialmente facilita que os abusadores manipulem e controlem as vítimas".
Junto a esse elemento, também são apontadas a falta de medidas de proteção adequadas, a histórica ausência de políticas, procedimentos e formação sólidos em matéria de proteção — "algo comum a outras ordens, segundo o relatório" —, "o que cria um ambiente onde abusos podem ocorrer sem serem denunciados ou tratados por anos".
O relatório também reconhece "a influência de atitudes sociais mais amplas em relação ao abuso sexual, particularmente no passado", como um elemento que "costumava normalizar ou minimizar o abuso e suas consequências", contribuindo para o surgimento de "uma cultura de silêncio e inação dentro dessa ordem".
Diante de tudo isso, hoje a SMEP afirmou em comunicado que "esperam firmemente que este trabalho, fundamentado no desejo de transparência, escuta e avaliação das práticas de salvaguarda passadas e atuais, permita que [as vítimas] sejam reconhecidas e obtenham uma reparação judicial e canônica, quando ainda for possível, ou que tenham acesso à justiça restaurativa caso já seja tarde demais".
Compensação econômica
"Decididos a aprender todas as lições necessárias sobre a gestão dos casos de violência sexual que chegaram ao seu conhecimento, a SMEP compromete-se a implementar as recomendações formuladas neste relatório para garantir a segurança e o bem-estar das pessoas e fortalecer sua cultura de salvaguarda". Entre as sugestões, destacam-se a compensação econômica, seja por meio de pagamentos diretos, fundos fiduciários ou reembolso de cuidados médicos e psicológicos.
Autêntica "potência" missionária em seu tempo, na década de 1960 a ordem contava com 27 casas em todo o mundo, 848 sacerdotes e 855 religiosos não ordenados. Atualmente, possui 15 casas em 14 países, com 154 sacerdotes e 170 religiosos não ordenados.
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