05 Junho 2024
Jon Fosse é o mais importante escritor norueguês vivo: autor de romances, poemas e peças de teatro, ganhou o Prêmio Nobel em 2023 pela sua capacidade de “dar voz ao indizível”, conforme declarou a Academia sueca. Em 5 de junho, ele estará na Milanesiana para apresentar Un bagliore (Um lampejo, em tradução livre, editora La Nave di Teseu). No livro, um homem se perde na floresta à noite, depois de dirigir por horas, e uma presença feita de luz lhe aparece.
Em 18 de junho será lançada a coletânea Ascolterò gli angeli arrivare pela editora Crocetti, que reúne seus poemas mais importantes.
A entrevista é de Francesca Pellas, publicada por La Stampa, 02-06-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Como foi crescer em um fiorde?
Cheio de crianças e vozes. Éramos muitos e crescemos livres: não íamos ao jardim de infância, a gente saia de barco. No verão ficávamos na água o dia todo. Tenho essa lembrança muito clara das noites de verão, ou dos primeiros dias de outono, em que o fiorde se transformava numa pintura em que a gente flutuava.
O teólogo Meister Eckhart, a quem você considera um de seus ancestrais espirituais, descreve o divino como uma luz que se encontra apenas na escuridão. Quem é a presença luminosa que aparece em Un bagliore?
Em primeiro lugar, concordo com Meister Eckhart e penso que Deus está mais próximo das pessoas em piores condições, certamente não dos ricos, daqueles que já são felizes, como pensam os estadunidenses. Mas sabemos que os estadunidenses são estúpidos. Talvez sim, a presença de luz no livro tem a ver com o que chamamos de Deus. Só posso descrevê-la como uma metáfora; afinal, até a palavra Deus é uma metáfora para outra coisa. Para mim, Deus está na escuridão: é uma luminosidade escura.
Em Septologia, há dois Asle, dois homens que talvez sejam o mesmo homem, e uma consciência difusa que está em todo lugar ao mesmo tempo. O que é consciência para você?
Os dois Asle podem ser duas versões da mesma pessoa e gosto que os leitores sejam livres para interpretar a história como quiserem. Se eu tivesse que dizer o que penso, diria que os dois Asle representam o presente visto de todos os ângulos do tempo. Costuma-se dizer que pouco antes de morrer vemos toda a nossa vida passar diante de nossos olhos em poucos segundos. Pois então: é isso. Também no centro das minhas peças teatrais há uma consciência, ou uma alma. Considero tudo o que escrevi como um longo monólogo, porque está tudo conectado de maneiras misteriosas. Sou como um pintor que pinta sempre a mesma coisa em diferentes horas do dia, do ano e com a luz que muda.
O que está tentando alcançar?
Eu não tento. Detesto tentar. Apenas faço e ponto. Se eu fizesse tentativas, ver-se-ia que são tentativas e o resultado seria um livro ruim, uma peça de teatro ruim. Quando comecei a escrever Septologia, a minha obra mais longa, não sabia o que iria acontecer: comecei, e continuei, ficando à escuta. Ao fazer isso, aquilo que você escreve se transforma, tornando-se forma. É uma experiência de transcendência e, em certo sentido, é a razão pela qual se escreve: para tocar algo mais amplo que a vida.
Você costuma dizer sobre a escrita que é um ato de escuta. Quem está falando com você?
Se eu tentasse dar-lhe um nome, aquela voz desapareceria, eu a teria destruído. Acho que escrevo a partir de um lugar que está dentro de mim, ou pelo menos é o que parece acontecer quando escrevo bem. Faço uma viagem a esse lugar desconhecido e volto com algo que pode ser conhecido.
Que conexão têm a escuta e o movimento?
Crucial. Tudo é ritmo. Se você me perguntar o que é ritmo, direi que é difícil não só de definir, mas também de entender. Um bom texto, como uma boa pintura, não fala. As coisas que transmite não estão nos detalhes, mas na sua totalidade, e essa totalidade comunica através do silêncio. Se acontece, nos aproximamos por um momento do mistério da verdadeira arte e da verdadeira escrita.
Você disse que não vê seus personagens como pessoas: os sente como se fossem sons.
Ou cores.
A região da Noruega onde você cresceu ficou mapeada em você, influenciou a sua escrita?
Completamente. O lugar onde crescemos, e a língua que se aprende nesse lugar, ligando-a à terra, à água, às casas, às pessoas, cria a pessoa que somos, e dá sentido a tudo, pelo resto da nossa vida: não importa se depois você for morar em outro lugar. Cresci rodeado da beleza, e das montanhas, o fiorde, estão em tudo que escrevo, são a sua estrutura fundamental. Talvez o lugar aonde vou dentro de mim enquanto escrevo, afinal, seja esse: é um retorno constante à casa ancestral. Apesar de ter escrito Septologia na Áustria, onde tenho uma casa, escrevi tudo de memória, a partir das sensações dadas pela distância. Foi muito útil: de longe se consegue ver melhor.
Entre 2011 e 2012, você se converteu ao cristianismo, desintoxicou-se do alcoolismo e casou-se com sua terceira esposa.
Demorei muito, depois daquela revolução pessoal, para voltar a escrever. Por um tempo me dediquei à tradução porque precisava de uma pausa.
Você traduziu O processo, de Franz Kafka, e várias tragédias gregas para o norueguês. O que lhe dá a tradução que a escrita não lhe dá?
Traduzir parece-me menos perigoso. Escrever é um dom que chega até mim e tenho que me preparar para recebê-lo. Se escrevesse sempre, e o recebesse sempre, não seria mais um presente; ou talvez não viria mais. As pausas são importantes.
Você escreve ficção, drama, poesia. São três personalidades distintas?
Talvez sim, mas a forma fundamental para mim continua a ser a poesia. Porque é simples ritmo e porque é assim que comecei quando jovem. Primeiro os poemas, depois os contos e o teatro e, finalmente, os romances. Um poema acontece: quando o sinto chegar, escrevo-o muito rapidamente. Como poeta, porém, sinto que não acrescento nada de novo ao cânone norueguês, algo que me parecer estar fazendo com o teatro. Federico García Lorca dizia: ‘Uma peça é um poema que se levanta de pé”. Para mim tudo começa pelo poema.
Já lhe aconteceu de não conseguir encontrar as palavras?
Muitas vezes. Quando eu era jovem, tive bastante dificuldade. Com o passar dos anos, aprendi que, se não sinto a necessidade de escrever, não devo me forçar. Melhorou a partir daí.
É verdade que trabalha à noite?
Sim, mas no sentido de que me levanto antes do amanhecer. Sempre antes, desde que parei de beber: às 4, às vezes às 3, e começo a escrever pouco depois. Tento passar diretamente para a escrita, para garantir que a escrita chegue até mim como uma corrente que passa do sono para os dedos. Gosto de trabalhar quando todos estão dormindo: é como estar em uma sala invisível.
Fala sobre o que escreve com sua esposa?
Não, é um segredo.
Em todo o seu teatro, o ciúme está no centro. Por quê?
Não há tema melhor para uma peça. Se houver apenas duas pessoas não vai a lugar algum: tente adicionar uma terceira e verá que a dinâmica muda imediatamente. O terceiro traz destruição, é uma força que chega e dá forma ao medo de um dos dois primeiros perder o outro.
Acha que quando morremos, morremos realmente?
Mesmo me considerando cristão, não tenho ideia do que há do outro lado. Mas eu tenho confiança. Levei muito tempo, mas finalmente a encontrei.
Você disse que para escrever tem que cruzar certas fronteiras da mente, e que fazê-lo é mais difícil quando se sente frágil. Tornar-se religioso ajuda você a transcendê-las?
De certa forma, sim. Mas a literatura não é um meio de expressão: é uma fuga. Quando parei de beber, perdi aquele desvio de mim mesmo, porque beber era outra fuga, mas também comecei a escrever como nunca antes. Troquei o alcoolismo pela missa: afinal, a missa também é um instrumento para escapar de si mesmo.
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