Celibato dos padres: novas perspectivas

(Foto: Viktor Talashuk | Unsplash)

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15 Agosto 2023

"A escassez de padres, celibatários ou casados, poderia ser a oportunidade para repensar do zero uma Igreja clerical e machista que finalmente aceite transformar-se para tentar tornar-se uma comunidade onde são decididas em conjunto as coisas a fazer e os ministérios (serviços) a serem atribuídos, independentemente do sexo e da condição social".

O comentário é de Luigi Sandri, jornalista italiano, em artigo publicado por L'Adige, 14-08-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

900 anos atrás o Primeiro Concílio de Latrão, celebrado em Roma na Basílica de São João de Latrão, reafirmou a obrigação do celibato para os sacerdotes. Foi uma tentativa de acabar com o concubinato do clero, uma praga na época bastante difundida.

Já a partir do século IV, nesse aspecto, a práxis da Igreja Ocidental (Latina) foi se diferenciando daquela Oriental (Bizantina).

Na primeira havia sido imposto, mesmo com discordâncias, o celibato dos padres; mas, na segunda, era exigido apenas para os bispos. Posteriormente, no Ocidente, foi reafirmado o "não" a toda mudança. No entanto, em meados do século XVI, quando Martinho Lutero se opôs resolutamente ao celibato dos padres, alguns bispos no Concílio de Trento, para conter a onda de críticas que vinha da Alemanha protestante, sugeriram torná-lo opcional; por fim, a Assembleia reafirmou as severas normas ditadas pelo Latrão I em 1123.

No Vaticano II, em 1965, Paulo VI impediu uma livre discussão do problema e o Concílio confirmou as antigas normativas; ao mesmo tempo, aprovou a práxis das Igrejas Católicas Orientais (na maioria ex-bizantinas) que mantinham opcional o celibato dos padres.

A questão, agora, volta a aparecer, embora em um contexto social muito diferente. O Sínodo sobre a Amazônia em 2019 propôs ao papa a possibilidade de ordenar padres, naquela região, os diáconos já casados; mas, até agora, Francisco ignorou a sugestão. Enquanto isso, veio da Alemanha a proposta do Caminho Sinodal (uma espécie de sínodo nacional), de não tornar obrigatório o celibato dos padres.

O tema, que já não pode mais ser postergado, agora terá que ser discutido no Sínodo dos Bispos que será realizado no Vaticano em outubro próximo e, talvez, rediscutido na segunda sessão da Assembleia, que será celebrada em 2024.

Prevê-se que o debate seja acalorado; não será fácil mudar uma normativa que dura há quase um milênio. No entanto, o tema precisa ser enfrentado: hoje muitas pessoas, jovens, mas também adultas, talvez estivessem dispostas a se dedicar à Igreja como servidores de comunidades paroquiais: não como celibatários, porém, mas acompanhados da própria esposa. Por que, perguntam eles, obrigar os clérigos ao celibato, quando Jesus curou a sogra de Pedro, que os católicos consideram o primeiro papa? Por outro lado, em muitas áreas - também na nossa região – são realmente poucos os novos presbíteros.

Será possível resolver a situação de escassez de padres unificando uma dezena de paróquias com um só pároco? Portanto, a escassez de padres, celibatários ou casados, poderia ser a oportunidade para repensar do zero uma Igreja clerical e machista que finalmente aceite transformar-se para tentar tornar-se uma comunidade onde são decididas em conjunto as coisas a fazer e os ministérios (serviços) a serem atribuídos, independentemente do sexo e da condição social.

Mas a empreitada é enorme e supera a capacidade de um Sínodo: e, talvez, apenas um novo Concílio, de "padres" e "madres", poderia com ousadia enfrentá-la.

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