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22 Novembro 2022

Livrar-se do estresse, desenvolver-se no seu próprio ritmo, emancipar-se dos modelos existentes... Vários “destrabalhadores” contam como reduziram o tempo de trabalho em prol de uma melhor qualidade de vida.

A reportagem é de Leslie Larcher, publicada por Alternatives Économiques, 18-11-2022. A tradução é do Cepat.

“Quando eu era chefe de produção no marketing, meus colegas me perguntavam que verde eu queria para o design de uma nova luminária, e eu dizia a mim mesma: ‘mas que importância isso tem?’”, recorda-se Mathilde Forget, 37 anos. Dez anos atrás, ela percebeu que seu trabalho não fazia mais sentido. Uma coisa leva a outra, e em 2012 ela criou o Bilan de sens, um método de avaliação de competências para ajudar as pessoas a desenvolver seu projeto profissional, ou até mesmo para se requalificar.

“Naquela época, predominava a busca pela segurança no trabalho. Agora, o assunto está cada vez mais democratizado”, analisa a empresária que viu seus clientes evoluírem. “A maioria tem entre 28 e 40 anos, e busca um equilíbrio entre o tempo de trabalho, o lazer, a contribuição e o dinheiro”, explica.

Uma constatação corroborada pela recente pesquisa do Ifop para a Fundação Jean Jaurès sobre a motivação dos franceses: em 1990, 60% deles consideravam o trabalho como sendo “muito importante” em sua vida, contra 24% no presente ano. Prova de que está em curso uma mudança nas prioridades – longe de ser uma epidemia de preguiça: em 2008, dois em cada três trabalhadores queriam, se pudessem escolher, “ganhar mais dinheiro mas ter menos tempo livre”. Hoje, a tendência se inverteu na mesma proporção que aceitaria “ganhar menos para ter mais tempo livre”.

Como Nathalie Duchesne, 37 anos, que foi executiva durante dez anos na indústria química. Pressionada por uma carga de trabalho aumentada e uma discrepância muito grande com seus valores, ela sofreu duas crises de Burnout. Deixar o “sacrossanto” CDI (contrato de trabalho por tempo indeterminado) tornou-se então para ela “uma questão de sobrevivência”.

A ficha caiu quando ela assinou o cheque da babá: “No final do mês, percebi que minhas duas filhas estavam mais com ela (a babá) do que comigo”, lamenta esta mãe que trabalha desde novembro no lançamento de um projeto de horticultura para uma cidade do Alto Reno, ao mesmo tempo que continua a projetar jardins para sua microempresa. O objetivo é trabalhar menos, mas melhor, e que faça sentido: com 35 horas anualizadas, ela se organiza como bem entender.

“A ideia de reduzir o tempo juridicamente subordinado é uma obsessão humana bastante antiga, que remonta a 200 anos atrás, como o trabalho assalariado. É uma preocupação constante e quase universal”, lembra, por sua vez, a professora de sociologia Marie-Anne Dujarier, autora de Troubles dans le travail: Sociologie d’une catégorie de pensée (Problemas na obra: Sociologia de uma categoria de pensamento).

Sinal fraco

Hoje, a originalidade do fenômeno está no perfil dessas pessoas, muitas vezes graduadas ou CSP+, às vezes de origem popular, que, em vez de pegar o cartão no seu sindicato, trocam pelo Facebook. São mais de 22 mil no grupo da comunidade Paumé.e.s de Makesense, organização que promove a ação cívica, e cerca de 1.600 no grupo do Collectif Travailler Moins (CTM).

Criada em 2018, esta organização informal organiza aperitivos “destrabalho” (détravail) em Nantes, para usar o jargão dos seus quatro membros voluntários. Eles defendem, por meio desse neologismo, o fato de colocar a qualidade de vida acima do salário ao deixar de “vender o tempo de trabalho”.

“O destrabalho é um sinal fraco que está ganhando força. Estamos num período de ruptura acentuada pelo efeito Covid e pela guerra na Ucrânia. Provações para nós, para as indústrias e para os padrões de consumo”, analisa a antropóloga Audrey Chapot.

Christophe Hermant, 45 anos, por exemplo, viu sua carga de trabalho aumentar com a Covid-19. Como instrutor de software informático para farmácias, sente a necessidade de abrandar e pediu, em setembro de 2021, a redução das suas 45 horas semanais. Após a recusa de seu empregador, optou por pedir demissão para começar uma volta ao seu primeiro emprego: professor de física e química na faculdade, em Pas-de-Calais.

Líderes políticos têm aproveitado as reflexões sobre o tema. Onde, em 2017, Benoît Hamon propôs uma renda universal, em particular para garantir que todos possam escolher seu trabalho, Emmanuel Macron garantiu, no dia 17 de março de 2022, que, no caso da sua reeleição, a renda de solidariedade ativa (RSA) seria condicionada por uma contrapartida de 15 a 20 horas semanais de atividade.

Uma proposta que está nas antípodas do modo de vida defendido pelo CTM, que defende “todo tipo de ferramentas que permitam tender para uma desmercantilização do tempo: defesa de sistemas de solidariedade, direito ao trabalho de tempo parcial e solicitação de experimentação da renda básica”, explica a voluntária Myriam Ameur, 29 anos.

Um ponto de vista compartilhado por Mathilde Villiers, 24 anos. Em novembro de 2020, no final do mestrado em engenharia, fez as malas em Rennes para voltar a morar com os pais, longe do CDI e da pressão gerencial que a revoltava:

“Eu me inscrevi para receber a RSA. É a minha forma de viver como se tivesse uma renda universal, mas nem sempre é fácil defendê-la junto às pessoas...”, admite, mantendo-se convencida das vantagens desta rede de segurança financeira: “Ter tempo livre permite criar novas vocações, desenvolver competências e até fazer disso uma profissão”.

Em sua aldeia de Lot-et-Garonne, Mathilde partiu em busca de uma vida profissional que seja “a extensão de sua vida pessoal”. “Por que separamos as duas?”, protesta aquela que multiplica as atividades: moocs (Cursos On-line Abertos e Massivos), qualificações, criação de sites, concepção e construção de uma casa de palha…

Pretende ainda acompanhar empresários do meio rural a dinamizar o seu território, tornando-se independentes. Assim como ela, muitos “destrabalhadores” estão se voltando para o trabalho autônomo, para os contratos temporários de tempo compartilhado ou as cooperativas... Tantos estatutos considerados “ainda instáveis do ponto de vista jurídico” pela antropóloga Audrey Chapot: “Nesta questão, ainda há muito o que fazer para que crie consistência”, alerta.

Retomar o sentido

Se as respostas ao “destrabalho” são múltiplas na forma, uma filosofia domina: colocar o individual a serviço do coletivo. Movidas pela busca de sentido, essas pessoas se dedicam a “um outro tipo de trabalho: de cuidado, de manutenção ou associativo”, nas palavras de Aurore Le Bihan, da comunidade Paumé.e.s de Makesense. Quando se trata mais de requalificação profissional, muitos estão se voltando para profissões ligadas ao artesanato, à relação com o corpo e aos serviços pessoais.

Como Claire que, com “o ego raquítico”, começou a sua nova vida em Morbihan para aí iniciar, depois de ter retomado os estudos para a licenciatura em história-geografia, contratos de animação e a mediação cultural durante as estações de turismo. “Voltei às paixões, às viagens e à cultura. Para mim, a resposta estava aí”, comemora a jovem.

Adotar um ritmo de trabalho mais flexível significa sobretudo voltar às coisas simples da vida, “nem que seja para fazer atividades com a minha família, para fabricar piões com as quinquilharias que se acumulam no meu depósito, ou para ter atividades associativas”, entusiasma-se Christophe Hermant, que, em contrapartida, lamentou o seu salário de 2.300 euros por mês com um carro da empresa. Mesmo assim, prefere os seus 1.800 euros, suficientes para o seu equilíbrio financeiro.

Viver com menos

De calculadora na mão, os “destrabalhadores” devem sim avaliar suas necessidades mínimas, pois trabalhar menos implica em redução da renda. “Quando eu estava desempregada, perdia mensalmente 700 euros líquidos, mas sem esta quantia vivíamos melhor”, surpreende-se ainda Nathalie Duchesne, que passou três anos desempregada para se reconstruir e se lançar na horticultura: “Os custos com cuidado, com as despesas de deslocamentos e as refeições fora, tudo isso tinha desaparecido”.

“Trabalhar não significa necessariamente viver sem poder aproveitar a vida, mas encontrar outro conforto”, diz a antropóloga Audrey Chapot.

Um conforto que seguiria justamente uma lógica de decrescimento, como para a ex-consultora Claire, no setor industrial. A futura autoempresária aprendeu a fazer seu próprio detergente, seu xampu ou os produtos para a casa. Uma perspectiva que considera mais “pragmática do que ecológica”, mas que se junta à preocupação ambiental de muitos “destrabalhadores”.

Como Jean-François Rochas-Parrot, conhecido como Jeff, empresário assalariado em uma cooperativa para o coletivo Les écoloHumanistes. Seu objetivo é limitar seu tempo de trabalho para receber o Smic. Uma escolha “política”, para este homem de 33 anos:

“Conseguimos viver com o padrão de vida que temos, então ajusto minha renda às necessidades e não aos desejos. Se ganhasse mais, consumiria mais e teria uma pegada de carbono maior”, assinala o ecologista.

Porém, se pretendem transformar esses comportamentos virtuosos individuais em dinâmicas coletivas, todos os entrevistados querem lembrar que continuam privilegiados. “Está tudo muito bem, mas não enche o prato. Quando são pegas pela garganta, as pessoas não têm tempo para pensar nisso e em soluções”, admite Nathalie Duchesne. Daí o próximo passo do Coletivo Trabalhar Menos, que Myriam Ameur pretende liderar: “Queremos democratizar o assunto dirigindo-nos às pessoas em maior dificuldade social. Cabe a nós ir até elas”.

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