Sinodalidade e a polarização evidente nas famílias, sociedades, política e na Igreja

30 Setembro 2022

 

“Manter nossa polarização litúrgica, eclesial e teológica debaixo do tapete não é mais possível. Aprender a viver com ela e depois aprender a crescer com ela é o desafio da Igreja pós-Vaticano II”, escreve J.P. Grayland, padre da Diocese de Palmerston, Nova Zelândia, em artigo publicado por La Croix International, 28-09-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Em todo o mundo, liberais e conservadores estão polarizados sobre as mudanças climáticas, as respostas à covid-19 e a imigração. Em muitos países, a vida está marcada por conflito ideológico, hostilidade e inflexibilidade cognitiva.

 

Dizer que somos uma Igreja polarizada pode soar um insulto quando nossa “linguagem intencional” sugere que somos uma comunidade unida de irmãos e irmãs, cuidando dos necessitados, acolhendo os excluídos e migrantes, alimentando os famintos e adorando em uma só voz.

 

Polarização do grupo

 

A polarização de grupo acontece quando os indivíduos se reúnem “em torno de duas posições conflitantes ou contrastantes” e se movem em direção aos extremos de um continuum de visões de mundo, crenças ou opiniões.

 

Algumas pessoas estão polarizadas por estarem escandalizadas. Um escândalo é uma intensa experiência de divisão baseada em personalidades, doutrinas não essenciais e atos intencionais de injustiça. Outros são polarizados por meio de uma formação ideológica que os coloca em oposição a outros que se tornam seus “inimigos sagrados”.

 

Os grupos tendem a extremos que os membros individuais do grupo não necessariamente sustentam.

 

Por exemplo, quando um grupo é composto por indivíduos cautelosos, a tomada de decisão do grupo geralmente será mais cautelosa, mais lenta e avessa ao risco do que qualquer indivíduo. Onde os indivíduos aceitam riscos, suas decisões em grupo serão ainda mais arriscadas.

 

Myers e Lamm (1978) observam esses fundamentos teóricos da polarização de grupo:

 

→ regras de decisão social (maneiras que as decisões individuais podem formar uma decisão de grupo);

 

influência informacional (onde e como as pessoas aprendem como resultado de ouvir e apresentar argumentos convincentes);

 

→ efeitos de comparação social;

 

dinâmica de responsabilidade (onde fazer parte de um grupo maior pode fazer com que os indivíduos se sintam menos responsáveis por uma decisão).

 

A inflexibilidade cognitiva, ou a incapacidade ou falta de vontade de pensar além do que é permitido pelo grupo, é uma marca registrada da polarização. A inflexibilidade cognitiva na Igreja e na política é um sinal de medo.

 

Polarização teológica e falsa teologia

 

A polarização teológica depende e constrói a inflexibilidade teológica. Como resultado, cria e mantém uma “falsa teologia” que tende à ideologia.

 

A inflexibilidade teológica produz uma disposição dogmática em indivíduos e grupos que deve ser defendida e mantida, mesmo à custa da fidelidade ao Mistério Pascal e suas fontes.

 

Quando indivíduos e grupos se apegam rigidamente às suas concepções infantilizadas, populistas ou supersticiosas de Deus, salvação, Igreja e moralidade, ou quando as pessoas se recusam a se despojar de uma catequese infantil... ou quando eles se refugiam em uma Igreja de supostos anos dourados ou demandam uma Igreja que reflita seus atuais valores políticos, cria polarização e sustenta a “falsa teologia”.

 

Onde nos tornamos inflexíveis em nossas opiniões e demonizamos outros crentes por causa deles, compramos uma “teologia falsa” com a consequência de que as pessoas de fé se tornam adeptos dogmatizados da posição de seu grupo.

 

Infelizmente, muitos indivíduos altamente polarizados defenderão e manterão seus sistemas de crenças e práticas litúrgicas polarizadas em detrimento de sua saúde mental e seu bem-estar social e eclesial.

 

Nesse cenário, o discernimento torna-se um argumento, não uma meditação sobre o movimento de Deus e o desenvolvimento legítimo da doutrina e da prática litúrgica é frustrado.

 

À medida que os paradigmas teológicos opostos se concretizam, a certeza absoluta se disfarça de fé; a doutrina torna-se um dogmatismo mordaz, e a oração litúrgica torna-se a arma para repudiar qualquer outra posição teológica.

 

Eventualmente, todos estão orando à sua versão de Deus para matar os outros e sua falsa compreensão de Deus, salvação e Igreja. A falsa teologia abandona os valores do Evangelho para manter sua posição ideológica.

 

Liturgia e teologia

 

A prática litúrgica e a teologia são as maiores perdedoras quando a “falsa teologia” da polarização nos impede de aceitar o desenvolvimento legítimo da teologia e da liturgia.

 

Sem desenvolvimento, a prática litúrgica e a teologia tornam-se peões em uma mentalidade conflituosa que simplifica demais o desenvolvimento teológico e litúrgico para apoiar a identidade polarizada de um grupo.

 

Quanto mais um grupo se identifica com sua posição polarizada, mais a liturgia se torna um meio para um fim, não um fim, e a teologia se torna uma apologia ao pensamento de grupo.

 

A inflexibilidade teológica, as posições ideológicas e a “falsa teologia” criaram uma recusa ao diálogo.

 

Alguns usam a recusa de se envolver e dialogar para permanecer lúcidos em um mundo ou Igreja cada vez mais louco. No entanto, outros o usam como mecanismo para exercer medo, abusar do poder e manter divisões convenientes.

 

Em última análise, essa abordagem não resolverá os problemas, diminuirá a divisão ou curará a polarização.

 

Evangelho de Lucas, polarização e verdade

 

No Evangelho de Lucas (2, 22-36 e 12, 51-53), a polarização é enfrentada de frente e os crentes são confrontados com a pergunta: Jesus é a pedra angular de tudo ou o obstáculo para a verdadeira religião?

 

Nele, encontramos Jesus, a figura polarizadora, o catalisador da crise e o agente de mudança.

 

Jesus nos obriga a enfrentar teologicamente a divisão e a polarização da história humana e a “ver” redenção, divisão, ódio, violência, morte, ressurreição, glorificação e a segunda vinda como partes da narrativa da salvação.

 

Diante do escândalo de Cristo, todos devem escolher um lado. Ao nos forçar a escolher um lado, Jesus revela nossas crenças e medos mais profundos para nós mesmos.

 

Se quisermos avançar, devemos reconhecer nossa tendência à polarização e nossa necessidade de Deus para que uma mudança aconteça. É um processo contínuo que nunca está completo.

 

Pelas escrituras, sabemos que o testemunho fiel traz divisão e julgamento. Apreciar isso deve nos dar uma noção da necessidade de mudança e respeito por isso.

 

Mostra-nos também como viver numa comunidade dividida – social e eclesial – numa dependência vulnerável de Deus, com maior tolerância para com o próximo.

 

Polarização positiva

 

A sinodalidade é uma forma profunda de polarização teológica – com o potencial de trazer vida à Igreja e divisão. À medida que as pessoas dão forte testemunho de Cristo por meio do processo sinodal, podemos ver seu efeito polarizador como obra de Deus, trazendo cura e justiça, ou fugindo dela com medo.

 

A profunda polarização teológica nos força de volta ao coração da revelação cristã e às fontes – ao relacionamento com Deus em Cristo que dá sentido a todos os nossos debates e cura nossas polarizações.

 

Onde isso acontecer, teremos a coragem de entrar no mistério revelador da presença de Deus no mundo através da nossa contemplação do mistério pascal e conhecer melhor o que somos e por quê.

 

A polarização teológica positiva ocorre quando alguns na Igreja, por meio de sua fidelidade à Palavra de Deus e sua luta coletiva para aprofundar o mistério pascal, clamam por mudanças.

 

Discernir a diferença é o trabalho de muitos na Igreja – teólogos, leigos, clérigos e bispos. Juntos, devemos discernir se este é um momento do Espírito Santo.

 

A lealdade a Jesus Cristo traz uma polarização da qual nenhum crente pode escapar. O mundo inteiro está polarizado pela lealdade de indivíduos e grupos ao bem ou ao mal.

 

A polarização em nossa sociedade civil afeta nossa capacidade de abordar as liberdades, direitos e responsabilidades humanas fundamentais, e isso afeta a comunidade da Igreja.

 

O que pode nos mudar?

 

Os estudiosos sugerem que a polarização possa ser reduzida por meio de uma maior tolerância e amor ao próximo. Coerente com nossas culturas democráticas e pluralistas, a tolerância pode ser o caminho a seguir, mas nada é fácil em um mundo e uma Igreja globalizados, tecnológicos e cada vez mais seculares.

 

Na realidade, as sociedades e a Igreja são uma comunidade de estranhos.

 

Quando nos reunimos para a liturgia, a maioria das pessoas não conhece a pessoa sentada ao lado deles, assim como a maioria não conhece seus vizinhos. Muitos católicos escolhem sua “família de adoração” com base em seus gostos em rituais, música ou na conveniência do horário da missa.

 

Como nossas comunidades sociais, nossas comunidades de oração abrangem uma ampla diversidade de opiniões e crenças, tanto políticas quanto teológicas.

 

Não deveria ser surpresa que a comunhão católica mundial esteja experimentando polarização enquanto luta para viver o chamado universal de viver na caridade batismal uns com os outros.

 

Manter nossa polarização litúrgica, eclesial e teológica debaixo do tapete não é mais possível. Aprender a viver com ela e depois aprender a crescer com ela é o desafio da Igreja pós-Vaticano II.

 

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