19º domingo do tempo comum – Ano C – Subsídio exegético

05 Agosto 2022

 

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana - ESTEF:

 

Dr. Bruno Glaab
Me. Carlos Rodrigo Dutra
Dr. Humberto Maiztegui
Me. Rita de Cácia Ló

 

Primeira Leitura: Sb 18,6-9
Salmo: 32,1.12.18-19.20.22
Segunda Leitura: Hb 11,1-2.8-19
Evangelho: Lc 12,32-48

 

O Evangelho

 

As instruções pela busca do reino de Deus são acompanhadas, nesta perícope, com as palavras sobre o retorno de Jesus. Aqui temos uma pequena catequese sobre a diligente vigilância à espera do Filho da Humanidade para o julgamento final. Uma vez que a data da referida vinda não pode ser conhecida, Jesus nos convida à vigilância e à fidelidade no caminho.

 

v. 32. “pequeno rebanho”: aqui temos uma familiaridade semelhante a de “meus amigos” em 12,4. A imagem do rebanho lembra a descrição de Israel como um rebanho conduzido pelo Senhor (Ez 34,11-24). Os discípulos representam aquele “pequeno rebanho” que constitui o núcleo do novo povo que se reúne em torno do Messias; Segue o texto: “o Pai achou por bem” (eudokeó), usado como uma expressão de vontade divina.

 

E ainda: “dar-vos o Reino”. Em Lc 11,2 os discípulos foram exortados a orar pela vinda do reino do Pai; aqui Jesus lhes diz que já foi dado (achou por bem) a eles. Compare isso com 22,29-30, onde Jesus prepara “um reino” (basileia) para os Doze. A premissa é que o Pai já estabeleceu seu domínio sobre eles (deu-lhes “o Reino”), para que não vivam mais em um mundo caótico imprevisto, mas em um mundo governado pelo dom gratuito de Deus.

 

v.35. Com as cinturas cingidas: Encontramos a mesma expressão em Ex 12,11, descrevendo o estado de alerta para estar pronto a viajar: a longa túnica é puxada para cima e apertada na altura dos quadris para poder andar rapidamente (cf. Elias fazendo o mesmo para escapar da chuva: 1Rs 18,46 e o desafio lançado a Jó em 38,3).

 

v.36. Esperar pelo seu senhor: A passagem tem semelhanças (lâmpadas/casamento/serviço/espera/noite) com a parábola das dez virgens em Mt 24,42-51.

 

v.39. Depois do v. 37, este é o décimo primeiro macarismo no texto de Lc, que será imediatamente seguido pelo décimo segundo no v.43.

 

v.40. “o Filho da Humanidade virá”. Exceto pelas passagens de 9,26 e 12,8, a maior parte dos ditos sobre o o “Filho da Humanidade” em Lucas se referia ao ministério de Jesus (5,24; 6,5.22; 7,34; 9,56.58; 11,30; 12,10) ou seu sofrimento (9,22.26.44). Deste ponto em adiante predomina a futura vinda do Filho da Humanidade como juiz (17,22.24.26.30; 18,8; 21,27.36; 22,69).

 

v. 41. “para nós... ou para todos?”: Esta intervenção de Pedro encontra-se apenas em Lc, e tem uma importante função redacional ao assegurar que a parábola se aplique aos futuros líderes do povo, apresentando a imagem do administrador da casa como uma metáfora de autoridade (cf. 9,12-17).

 

v.42.44 “que o Senhor porá à frente... confiará a administração”: O verbo kathistémi (constituirá) é utilizado por Lc no futuro acenando para o papel dos apóstolos como líderes do povo. “A porção de alimento”: em vez de “comida” (trophé) de Mt 24,45, Lucas usa sitometrion, mais raro (literalmente “medida de grão”). Como ele faz em sua escolha de therapeia (servidão) para descrever os servos ou escravos da casa, Lc usa termos deliberadamente mais refinados.

 

v.43. “Feliz o escravo que...”: O despenseiro (oikonomos) é frequentemente traduzido como “administrador”. Ele próprio é um escravo (doulos), como aqueles que estão abaixo dele; apesar da autoridade relativa de que goza, ele está igualmente sujeito à autoridade do senhor (kyrios). Esta linguagem não pode deixar de evocar o tipo de relação que existe entre cristãos e seu mestre, o Kyrios ressuscitado.

 

v.45: “Mas se o escravo... começar a espancar os criados e as criadas...”. É típico de Lc apontar ambos os gêneros gramaticais; Mt 24,49 traz “companheiros”.

 

v.46. “o dividirá ao meio” (dichotomeó). Não há perspectiva de realmente cortar o servo em dois, mas sim uma punição severa. Ele é contraposto ao “fiel e sensato” do v. 42; O contraste é entre aqueles que são “dignos de confiança” e aqueles que “não são dignos de confiança”.

 

v.47. “O escravo que, conheceu a vontade do senhor”: Estas palavras explicam o grau de responsabilidade devido à consciência. O termo para “vontade” é thelēma, que também significa “desejo”.

 

v.48. “a quem muito se deu..., a quem muito se entregou...”: Os dois termos sugerem a atribuição de autoridade e servem como moral da parábola anterior: os líderes da comunidade serão julgados mais severamente pela posição de responsabilidade que ocupam.

 

Toda a existência cristã é, portanto, caracterizada por uma contínua expectativa. Seu cumprimento é certo, mas a hora permanece desconhecida. Uma atitude de alerta vigilante é, portanto, necessária, mesmo que o retorno do senhor possa parecer “retardado” (12,45). A realidade do julgamento, somos levados a entender, não é simplesmente temporal, mas existencial. Deus julga os seres humanos em qualquer momento e ele sabe se eles distribuíram “a porção de alimento no tempo devido”, ou se, por outro lado, se entregaram a espancar os criados.

 

O papel de administrador corresponde bem ao conceito que Lc tem sobre a autoridade na comunidade. O papel do administrador é o de gerir os outros servos, para que cada um faça o seu trabalho, mas também atender às suas necessidades. É responsável ante o senhor e diante dos seus pares. Não pode ser fiel a um sem respeitar os outros.

 

Vemos que a autoridade é apresentada na forma de serviço aos outros. Se todos os servos devem estar prontos para receber o senhor em seu retorno e fazer o seu trabalho de forma satisfatória, o administrador é responsável não só pelo seu próprio trabalho, mas também pelo trabalho da comunidade como um todo.

 

Relacionando com as outras leituras

 

A 1ª. Leitura nos ensina que a vigilância da pessoa justa é uma expectativa orante. Porém, expectativa feita também de serviço, o serviço alegre de quem espera o Senhor.

 

 

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