Pobreza e déficit educacional: um retrato dos municípios brasileiros. Entrevista especial com Luciano Nakabashi

“As condições socioemocionais afetam o desenvolvimento cognitivo das crianças na escola”, afirma o pesquisador

Foto: Agência Brasil

Por: João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin | 13 Mai 2022

 

O déficit educacional é um resultado da pobreza.” Essa é uma das conclusões da pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da Universidade de São Paulo - USP, que investigou a correlação entre o déficit educacional e a pobreza nos municípios brasileiros, em famílias que têm crianças de até 14 anos de idade. Segundo Luciano Nakabashi, orientador do estudo realizado por Nicolas Volgarine Scaraboto, “os estudos microeconômicos mostram que a pobreza é o elemento que gera o déficit educacional e leva à armadilha de si própria, porque as crianças ficam em uma situação muito mais precária, têm mais dificuldade de aprendizado, de se manterem na escola, de ingressarem na universidade. Então, a pobreza ajuda a manter a desigualdade intergeracional. Se a criança está em uma situação de pobreza, isso vai levá-la a ter problemas relacionados ao desenvolvimento de suas capacidades potenciais”.



Na entrevista a seguir, concedida via Zoom para o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Nakabashi destaca que, ao analisar a situação dos municípios brasileiros, foi possível chegar à seguinte conclusão: “de um lado, os municípios que têm mais pobreza tendem a crescer menos porque a pobreza atrapalha o crescimento econômico e, de outro, o crescimento reduz menos a pobreza nesses locais também”.

 

Luciano Nakabashi (Foto: Arquivo pessoal)

 

Luciano Nakabashi é graduado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, leciona no Departamento de Economia da Universidade São Paulo (FEA-RP/USP).

 

Confira a entrevista.

 

IHU - Em pesquisa que o senhor atuou, foi possível mensurar o impacto do déficit educacional no crescimento da pobreza e, também, o inverso. O que mais lhe impactou nessa análise?

 

Luciano Nakabashi – A abordagem da pesquisa é macroeconômica e trata sobre os efeitos da pobreza na vida dos indivíduos a partir de vários indicadores: desempenho escolar, salário, fisiologia do cérebro etc. Um estudo do economista [Martin] Ravallion mostrou que os países mais pobres tendem a crescer menos e o crescimento tem um impacto menor sobre a pobreza. No nosso estudo, replicamos o estudo do Ravallion na dissertação de mestrado de Nicolas Volgarini, analisando a situação dos municípios brasileiros. Chegamos à mesma conclusão: de um lado, os municípios que têm mais pobreza tendem a crescer menos porque a pobreza atrapalha o crescimento econômico e, de outro, o crescimento reduz menos a pobreza nesses locais também.

 

Outro estudo que realizamos a partir dos municípios consistiu em verificar se o capital humano era um dos fatores dessa relação entre pobreza e crescimento. Analisamos, então, dados sobre o desempenho escolar dos alunos desses municípios em matemática e português e a taxa de reprovação. De fato, os municípios com mais pobreza têm crianças com um desempenho pior no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Parece que um dos efeitos dessa relação entre as regiões com mais pobreza e baixo crescimento é porque as crianças, por uma série de motivos – seja porque estão em um ambiente familiar menos estruturado, não têm acesso a elementos importantes para o seu desenvolvimento, como saúde, alimentação – têm o aprendizado afetado. Mostramos isso de forma macroeconômica, mas vários estudos microeconômicos mostram a pobreza como um fenômeno que tende a afetar o sistema cerebral das crianças e, consequentemente, isso afeta o desempenho escolar e vai afetar a economia posteriormente.

 

 

IHU - Quem são os estudantes mais impactados pelas desigualdades e pela pobreza? Qual é o perfil deles?

 

Luciano Nakabashi – Analisamos a incidência de pobreza em famílias que estão nesta situação, com crianças de até 14 anos. Analisamos o desempenho escolar delas e estabelecemos uma média do município. Há uma literatura extensa que faz essa análise em nível individual, cuja conclusão é que o impacto mais importante da pobreza é em crianças que estão na primeira infância, com até seis anos de idade. Outros estudos mostram que as circunstâncias em que as mães vivem durante a gestação terão implicações na vida e na formação das crianças. Não chegamos a fazer uma comparação entre os municípios brasileiros, para verificar se os efeitos da pobreza são distintos de acordo com a região em que os municípios estão localizados.

 

 

IHU - Fica evidente o círculo vicioso em que a pobreza alimenta o déficit educacional e vice-versa. Mas é possível mapear quando e por que esse círculo inicia?

 

Luciano Nakabashi – O que tentamos mostrar na pesquisa é que o déficit educacional é um resultado da pobreza. Os estudos microeconômicos mostram que a pobreza é o elemento que gera o déficit educacional e leva à armadilha de si própria, porque as crianças ficam em uma situação muito mais precária, têm mais dificuldade de aprendizado, de se manterem na escola, de ingressarem na universidade. Então, a pobreza ajuda a manter a desigualdade intergeracional. Se a criança está em uma situação de pobreza, isso vai levá-la a ter problemas relacionados ao desenvolvimento de suas capacidades potenciais. A pobreza no Brasil é uma questão com raízes profundas na nossa história: está relacionada à escravidão, ao tipo de colonização pela qual o país passou.

 

 

IHU - Além da carência material gerada pela pobreza, que outros problemas impactam quem, apesar de tudo, busca a educação?

 

Luciano Nakabashi – Alguns pontos são importantes. O primeiro é o próprio ambiente familiar. Vários estudos mostram que o acesso à saúde e à alimentação são importantes – e não só à alimentação, mas a uma alimentação adequada. O ambiente familiar também tem que ser considerado: se tem brigas, abusos, se as crianças são cuidadas por algum adulto ou se alguém ajuda na realização das atividades escolares, por exemplo. O segundo ponto é a própria escola – e isso inclui os alunos, professores e o bairro em que a criança está inserida porque os professores acabam sendo mais desmotivados. As crianças das famílias pobres tendem a viver em bairros de pessoas pobres e em favelas. Nesse sentido, o ambiente do bairro acaba sendo nocivo para o desenvolvimento da criança: em geral, as famílias são mais desestruturas e têm pouco acesso a questões importantes.

Não é uma situação fácil de ser resolvida. É preciso de investimento, mas não basta investir somente na escola; tem que ter investimentos para ajudar as famílias a saírem da pobreza, dar acesso a tratamentos de saúde física e psicológica para elas e política para reduzir a concentração da pobreza em determinados bairros. Se não houvesse uma concentração de renda geograficamente, seria melhor.

 

 

IHU - Especialistas apontam que o país se desenvolve com educação e investimento pesado nessa área. Mas em que medida essa perspectiva é frágil, uma que não aborda a questão da pobreza?

Luciano Nakabashi – Exato. Este é um grande ponto: falamos muito em educação e gasto em educação – não sei se precisamos de mais gasto, mas melhorar o gasto em educação. As escolas do Ceará, por exemplo, nos testes do Ideb ou do Exame Nacional do Ensino Médio - Enem, têm um desempenho muito bom, semelhante aos dos melhores estados, com menos gasto por aluno. Temos que seguir esses bons exemplos para ver como conseguimos melhorar a qualidade da educação sem gastar mais, porque somos ineficientes nos gastos. Mas o problema é muito maior. Não adianta colocar uma criança que não tem condições de aprendizado em uma boa escola. A criança precisa ter um ambiente razoável dentro de casa, com condições de estudar, aprender, ter alguém que possa assessorá-la em alguns momentos. Em casa, as crianças precisam encontrar um ambiente razoável porque isso afeta o desenvolvimento socioemocional e cognitivo delas. Essas questões estão relacionadas porque as condições socioemocionais afetam o desenvolvimento cognitivo das crianças na escola. Então, é preciso cuidar das famílias; do contrário é muito mais difícil tirá-las da pobreza. Para quebrar as armadilhas da pobreza tem que se investir nas escolas, mas tem que investir nas famílias. Isso é essencial.

 

 

IHU - A pobreza e os déficits educacionais geram um custo econômico-social muito alto. Gostaria que tipificasse esse custo.

Luciano Nakabashi – Esse é um ponto relevante. O primeiro ponto é o bem-estar das famílias e das crianças que vivem em situações de pobreza. O governo e a população de uma forma geral têm que pensar no bem-estar dessas pessoas. O segundo ponto é em relação à eficiência, porque temos recursos, pessoas que têm potencial, mas que não são aproveitadas. Isso tem como efeito reduzir a produtividade média no Brasil. Se aumentássemos a produtividade e as pessoas ganhassem mais, isso aumentaria o mercado de trabalho e geraria novas oportunidades para pessoas que hoje estão nas classes média e média alta. Ou seja, teria um potencial em termos de negócios e da própria mão de obra. Teríamos mais mão de obra qualificada para trabalhar em empresas. Outro ponto diz respeito à criminalidade: essas crianças têm menos oportunidades e mais chances de se envolverem em atividades ilícitas. Então, deixar as crianças abandonadas e fora das oportunidades que a sociedade gera para uma parcela da população tem um efeito na criminalidade.



A pobreza é ruim e ninguém gosta de vivê-la ou vê-la. Viver em um país onde as pessoas têm mais condições, conseguem aproveitar seu potencial, vivendo em locais melhores, faz com que as pessoas tenham mais consciência para escolher os políticos, e isso tende a melhorar a qualidade daquelas que estão dirigindo o país. Para que se tenha de fato um desenvolvimento econômico e social, é indispensável ter políticas que reduzam a pobreza e melhorem a qualidade das escolas em que as crianças estão inseridas. Enquanto não resgatarmos essa dívida histórica com uma parcela da população, o país não vai deixar de ser um país em desenvolvimento. Resgatar essas crianças é importante para o desenvolvimento do próprio país e vai beneficiar a população de uma forma geral: vai reduzir a criminalidade, gerar novas oportunidades econômicas, vai atrair investimentos. É uma estratégia de longo prazo que em algum momento precisa ser enfrentada.

 

IHU - A experiência da pandemia trouxe tanto o aumento do déficit educacional quanto o aumento da pobreza. Com base nas suas pesquisas e nessa realidade, como imagina ser o cenário nesse curto e médio prazo?

 

Luciano Nakabashi – O cenário é bastante ruim não só em relação ao aumento da pobreza, mas em relação ao fato de as crianças mais pobres nem terem ido para a escola; elas foram as mais prejudicadas. As crianças de classe média e alta continuaram tendo acesso às aulas de forma remota, mas elas têm essa condição de poder assistir às aulas em casa. Algumas escolas estavam preparadas para a transição para o ensino a distância e alguns pais têm condições de ajudar os filhos em casa ou de contratar um professor particular para auxiliá-los, por exemplo. Quem foi mais afetado e teve dificuldade de acesso foram as crianças das escolas públicas. A maioria dessas crianças não aprendeu quase nada nesse período da pandemia e esse é um ponto importante. Outro ponto, além do aumento da pobreza, é que o ambiente familiar dessas crianças geralmente é ruim e elas e seus pais tiveram que ficar mais tempo em casa. Deve ter aumentado bastante o abuso físico e sexual das crianças, o que gera impactos psicológicos e efeitos no desempenho e desenvolvimento escolar. Esse ambiente da pandemia foi muito negativo para as crianças que vêm de famílias mais pobres e vulneráveis.

 

 

IHU - Nos últimos anos, para além do cenário de pandemia, houve grandes cortes em programas sociais. Como isso deve impactar os índices educacionais?

 

Luciano Nakabashi – É uma questão de escolha das prioridades da sociedade. Fica bastante claro que a economia cresceu de forma razoável nos anos 2000, muitas pessoas saíram da pobreza em função do crescimento da renda das famílias que estavam nos estratos mais baixos. As famílias que ganharam mais renda foram as mais pobres entre 2000 e 2010. Essa foi uma década muito boa tanto para a economia em geral quanto para as pessoas que saíram da pobreza. Mas percebemos que o Estado brasileiro vem enfrentando um problema de aumento de gastos de forma constante. Com a crise, ficou mais evidente o problema do déficit fiscal e da dívida pública. Mesmo assim, o investimento social é o tipo de investimento que não deveria ter sido cortado. Muitas vezes há gastos desnecessários relacionados à base política ou a favores políticos, enquanto gastos sociais importantes, como os de programas sociais, são cortados. Mas é uma escolha social. Até hoje o país não deu prioridade para tratar de forma consistente o problema da pobreza, a fim de ter mecanismos para retirar as famílias que entram nessa situação. O gasto social é o tipo de política que deveria ser prioritária no país, mas ainda não é.

 

 


IHU – A centralidade do Estado é importante para combater a desigualdade e a pobreza?

 

Luciano Nakabashi – Sim, é fundamental. Uma das funções do Estado é reduzir a pobreza e as desigualdades, mas a sociedade também pode fazer mais em relação a isso. Às vezes, esperamos mais do Estado e lavamos as mãos como cidadãos; acabamos não fazendo mais do que podemos. A sociedade brasileira, quando comparada com sociedades de países mais avançados, se mobiliza menos para ajudar as pessoas que enfrentam necessidades. O trabalho voluntário, por exemplo, no Brasil, é muito mais incipiente quando comparado ao trabalho voluntário em países desenvolvidos. Vejo que a sociedade de fato poderia se engajar mais diretamente ao invés de ficar somente esperando do Estado. O Estado tem recursos limitados e tem que fazer escolhas.

 

 

IHU - Que caminhos são possíveis para se romper esse ciclo pobreza – déficit educacional – pobreza?

 

Luciano Nakabashi – A política do Auxílio Brasil deve permanecer. O pessoal chama a atenção para a importância de as pessoas conseguirem sair dessa condição de receber o auxílio, mas, mesmo assim, o auxílio é necessário.

No Brasil, a situação da pobreza é pior porque é um problema intergeracional, em que gerações inteiras vivem nessa condição. Então tem que haver um esforço público para tirar as pessoas dessa condição, inclusive dando renda. Tem que fazer um mapeamento de quem são as famílias que precisam e as que podem vir a precisar de renda. Achávamos que essa era uma situação bem mapeada, mas quando veio a pandemia, percebemos que não foi bem assim, porque inclusive quem não precisava de renda recebeu o auxílio emergencial. Depois de mapear quem são as famílias que estão entrando ou saindo da pobreza, tem que alocar os recursos de modo adequado para que as pessoas recebam o dinheiro.

O segundo ponto é dar acesso à saúde e apoio às famílias. Uma intervenção psicológica para melhorar o ambiente familiar é necessária, ou seja, é preciso de políticas mais ativas para manter melhores condições para as crianças que em seguida vão se transformar em adultos. Melhorar a qualidade das escolas públicas também é importante. Também é fundamental ter, nas escolas, disciplinas que ajudem as crianças a lidarem com problemas que elas enfrentam em casa, com elas mesmas, que aumentem a resiliência delas. A psicologia tem avançado nesse sentido e tem programas que são eficientes para melhorar a capacidade socioemocional das crianças. Isso tem que ser pensado na escola também. Não se trata apenas de garantir o aprendizado das ciências. As políticas deveriam ir nessa direção.

 

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