Paz e ética do sacrifício. Artigo de Giuseppe Lorizio

Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Mais Lidos

  • A síndrome do pensamento acelerado

    LER MAIS
  • “Diáconas para uma Igreja sinodal.” Síntese para o Sínodo sobre a Sinodalidade

    LER MAIS
  • Papa Francisco não é contra ‘novos movimentos eclesiais’, ele apenas favorece alguns em detrimento de outros

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


13 Abril 2022

 

"A ética do sacrifício é uma ética radical, da qual a da cruz representa um vértice tal que fala não só aos que creem, mas também aos que consideram que não creem. O grande Hegel, filósofo insuperável em muitos aspectos, cunhou a sugestiva expressão "Sexta-feira Santa especulativa". A pandemia nos trouxe muitos sacrifícios, alguns os consideraram como contratempos irritantes, mas, se lermos em profundidade, especialmente o lockdown, devemos notar que nos colocou diante de nós mesmos, nossa capacidade de suportar a solidão e salvaguardar as relações autênticas, a distância e a morte de entes queridos e amados, cujos funerais nem podiam ser celebrados", escreve Giuseppe Lorizio, professor de Teologia Fundamental da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, em artigo publicado por Settimana News, 13-04-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

No atual momento histórico que a pandemia e a guerra estão tornando trágicos, no debate público e não apenas entre os intelectuais, continua a se colocar a alternativa entre ética da responsabilidade inclusive co-beligerante e escolha da não-violência "ativa". Isto especialmente no que diz respeito aos armamentos: não apenas para serem fornecidos aos ucranianos agredidos, mas também para serem incrementados ainda mais nação por nação e nem mesmo para serem direcionados e integrados na formação de um verdadeiro “sistema de defesa europeu”.

 

Na conferência de imprensa após a aprovação do Def, o primeiro-ministro expressou-se nestes termos: "Acredito que a questão seja entre a paz e o funcionamento do aquecedor, ou do ar condicionado no verão, acho que esta deveria ser a pergunta que temos que fazer e que eu também me faço. Sobre o price cap, sobre um teto do preço do gás, aguardamos uma resposta da UE, que apresentará uma proposta dentro de alguns dias, mas também podemos proceder com medidas nacionais. A Alemanha e a Holanda não concordam, mas a certa altura também podemos fazê-lo sozinhos".

 

Palavras claras. No entanto, surge a questão de saber porque no plano político não tenha sido colocada de imediato esta alternativa que, pelo contrário, imediatamente emergiu num plano que se pode definir como cívico, o das escolhas pessoais dos cidadãos e das opções dos Municípios (uma mobilização que encontrou espaço sobretudo nas páginas deste jornal, também num intenso diálogo entre leitores e diretor, que falou de um "jejum de energia" fundamentado e empático).

 

Esta é a principal forma de incitar as consciências a contrastar o agressor com escolhas que visam realizar uma "sanção" defensiva real e significativa dos fracos, sem a qual - de fato - a guerra de agressão continua a ser financiada, enquanto com o envio de armas aos agredidos é alimentada, prolongando seu tempo.

 

Aqui, o teólogo que escreve sente que deve evocar uma palavra, para a maioria desagradável, inconveniente, não politicamente correta, que, precisamente quando se aproxima o memorial da Paixão do Senhor Jesus, questiona a consciência de todos, não apenas dos crentes. E a palavra é: "sacrifício". A ética cristã da responsabilidade é explicitada como uma escolha sacrificial não dos outros, mas de si mesmo. Nesse sentido, vale a pena ouvir a lição de um brilhante diretor russo, como Andrei Tarkovskij, que muitas vezes retoma o tema em suas obras: pense-se em primeiro lugar naquele ícone cinematográfico, que o inesquecível padre jesuíta, depois cardeal, Tomás Spidlík adorava comentar e ler teologicamente Nostalgia de 1983, para cujo roteiro Tonino Guerra ofereceu uma notável contribuição. As escolhas do protagonista são sempre exercidas no horizonte do sacrifício, a fim de alimentar o desejo de retornar à mãe Rússia, a pátria perdida, que também representa a pátria celeste e última.

 

A maravilhosa cena final, com o plano da abadia de San Galgano, deve ser contemplada justamente como um ícone. Mas ao tema do sacrifício o diretor dedicou um filme em 1986 que traz justamente este título. Aqui, o idoso intelectual Alexander, enquanto comemora seu aniversário com seus entes queridos, fica sabendo pela televisão que uma catástrofe terrível é iminente. Reage repetindo o Pater noster e oferecendo ao Senhor o que lhe é mais caro para que tudo volte como antes. Assim, ele incendiará sua casa, renunciará ao filho pequeno, se devotará ao silêncio aceitando ser considerado como um louco.

 

A ética do sacrifício é uma ética radical, da qual a da cruz representa um vértice tal que fala não só aos que creem, mas também aos que consideram que não creem. O grande Hegel, filósofo insuperável em muitos aspectos, cunhou a sugestiva expressão "Sexta-feira Santa especulativa". A pandemia nos trouxe muitos sacrifícios, alguns os consideraram como contratempos irritantes, mas, se lermos em profundidade, especialmente o lockdown, devemos notar que nos colocou diante de nós mesmos, nossa capacidade de suportar a solidão e salvaguardar as relações autênticas, a distância e a morte de entes queridos e amados, cujos funerais nem podiam ser celebrados. O sentido autêntico do sacrifício e desses sacrifícios está na escolha, ou seja, na capacidade de assumirmos as necessidades que a história nos impõe, acolhendo-as em nossa liberdade.

 

Assim também será para a guerra. A alternativa proposta por Mario Draghi não deve nos encontrar submetidos a um destino inelutável, mas nos fazer refletir sobre o que realmente queremos: bem-estar imediato ou paz. A segunda pede a cada um que renuncie a confortos a que talvez estejamos demasiado acostumados, mas que poderá ser frutífera se vivida à luz da Páscoa, que termina com a ressurreição e não deixa a última palavra para a morte. E isso porque o sacrifício não é um fim, mas um meio, muitas vezes obrigatório, para a conquista de uma não efêmera felicidade pessoal e comunitária.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Paz e ética do sacrifício. Artigo de Giuseppe Lorizio - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV