Breves do Facebook

Foto: Pixabay

23 Fevereiro 2022

 

Samuel Braun

 

Leio no topo dos jornais manchetes que dizem mais ou menos o seguinte: Aliados dos EUA, UK, Japão e Austrália se aliam aos EUA em sanções à Rússia.

A piada é essa. Sócios em todos os negócios militares e econômicos dos EUA, "soberanamente decidem" seguir o chefe.

Ah, sim, a própria Ucrânia não seguiu a cruzada que os EUA dizem fazer em defesa dela.

Aliás, vamos falar dessas sanções. Biden prometeu severas retaliações econômicas para sufocar a Rússia! Entretanto, a "bomba dólar" promete ser apenas um rojão. Sim, a dívida russa em dólar é de US$ 80 bilhões, mas as reservas do país são de US$ 600 bilhões.

A União Europeia decidiu atirar na própria perna suspendendo a aprovação do Nord Stream 2. Como nenhum centavo entrava na Rússia por ele, e os europeus continuarão pagado pelo gás no Nord Stream (metade de todo o gás europeu provém da Rússia), a inflação da commoditie vai na verdade engordar os cofres russos

Aliás, o barril do petróleo já disparou de US$ 77 pra US$ 96 só esse ano. A brincadeira tá custando caro pros eleitores dos fracos líderes europeus. Ah, sim, aumenta o combustível nos EUA também, que tem eleições midterms esse ano. Vai dar certinho, Biden!

Ah, e sobre financiamento externo, o próprio FMI diz que o governo russo financia domesticamente seus gastos. E ainda tem a China à disposição.

 

Cesar Benjamin

 

Vladimir Putin fez um discurso de mais de uma hora, em rede nacional de rádio e televisão, antes de reconhecer as repúblicas com populações russas no leste da Ucrânia. Tive a impressão de que falava de improviso, mas, com as tecnologias modernas, não posso assegurar. Foi impressionante a massa de informação que transmitiu sobre história, cultura e geopolítica. O discurso é muito longo e detalhado. A parte final está resumida aí embaixo. Permite uma avaliação.

* * *

[...] Já houve declarações de que a Ucrânia vai criar suas próprias armas nucleares, e isso não é uma bravata vazia. A Ucrânia ainda possui tecnologias nucleares soviéticas e meios de disparo de tais armas, incluindo aviação, bem como mísseis táticos operacionais Tochka-U, também de design soviético. É apenas uma questão de tempo. Será muito mais fácil para a Ucrânia adquirir armas nucleares táticas do que para outros estados. [...] Não podemos deixar de reagir a este perigo real. Os patronos ocidentais podem contribuir para o aparecimento de tais armas na Ucrânia para criar outra ameaça ao nosso país. [...]

Em 1990, quando a questão da unificação alemã estava sendo discutida, a liderança soviética recebeu a promessa dos EUA de que não haveria extensão da jurisdição da OTAN ou presença militar uma polegada a leste. E que a unificação da Alemanha não levaria à expansão da organização militar da OTAN para o Leste. [...]

A Rússia cumpriu todas as suas obrigações, incluindo a retirada de tropas da Alemanha, dos estados da Europa Central e Oriental, e assim deu uma grande contribuição para superar o legado da Guerra Fria. Propusemos consistentemente várias opções de cooperação, inclusive no formato do Conselho Rússia-OTAN e da OSCE, sem contrapartidas. [...]

Há apenas uma resposta: não se trata de nosso regime político, não se trata de outra coisa, eles simplesmente não querem um país independente tão grande como a Rússia. Esta é a resposta para todas as perguntas. Esta é a fonte da tradicional política americana em relação à Rússia. Daí a atitude perante todas as nossas propostas no domínio da segurança.

Hoje, uma olhada no mapa é suficiente para ver como os países ocidentais “cumpriram” sua promessa de impedir que a OTAN se movesse para o leste. Eles apenas trapacearam.

Recebemos cinco ondas de expansão da OTAN uma após a outra. Em 1999, a Polônia, a República Checa, a Hungria foram admitidas na Aliança, em 2004 - Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia, em 2009 - Albânia e Croácia, em 2017 - Montenegro, em 2020 – Macedônia do Norte.

Como resultado, a Aliança, sua infraestrutura militar chegou diretamente às fronteiras da Rússia. Esta se tornou uma das principais causas da crise de segurança europeia, teve o impacto mais negativo em todo o sistema de relações internacionais e levou à perda da confiança mútua.

A situação continua a se deteriorar, inclusive na esfera estratégica. Assim, na Romênia e na Polônia, como parte do projeto norte-americano de criação de um sistema global de defesa antimísseis, estão sendo implantadas áreas de posicionamento para antimísseis. É sabido que os lançadores localizados aqui podem ser usados para mísseis de cruzeiro Tomahawk - sistemas ofensivos de ataque.

Além disso, os Estados Unidos estão desenvolvendo o míssil universal Standard-6, que, além de resolver os problemas de defesa aérea e defesa antimísseis, pode atingir alvos terrestres e de superfície. Ou seja, o sistema de defesa antimísseis dos EUA supostamente defensivo está se expandindo e novas capacidades ofensivas estão surgindo.

As informações que temos dão todas as razões para acreditar que a entrada da Ucrânia na OTAN e a subsequente implantação das instalações da OTAN ali é uma questão de tempo. Em tal cenário, o nível de ameaças militares à Rússia aumentará drasticamente, muitas vezes. E chamo especial atenção para o fato de que o perigo de um ataque repentino ao nosso país aumentará muitas vezes.

Deixe-me explicar que os documentos de planejamento estratégico americanos (documentos!) contêm a possibilidade de um chamado ataque preventivo contra sistemas de mísseis inimigos. E quem é o principal inimigo dos EUA e da OTAN, também sabemos. É a Rússia.

Nos documentos da OTAN, nosso país é declarado oficial e diretamente a principal ameaça à segurança euro-atlântica. E a Ucrânia servirá de trampolim para tal ataque. [...]

Muitos aeroportos ucranianos estão localizados perto de nossas fronteiras. Aeronaves táticas da OTAN estacionadas aqui, incluindo portadores de armas de alta precisão, poderão atingir nosso território até a profundidade da linha Volgograd-Kazan-Samara-Astrakhan. A implantação de meios de reconhecimento de radar no território da Ucrânia permitirá à OTAN controlar rigidamente o espaço aéreo da Rússia até os Urais.

Finalmente, depois que os Estados Unidos romperam o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, o Pentágono já está desenvolvendo abertamente toda uma gama de armas de ataque terrestres, incluindo mísseis balísticos capazes de atingir alvos a uma distância de até 5.500 quilômetros.

Se esses sistemas forem implantados na Ucrânia, eles poderão atingir objetos em todo o território europeu da Rússia, bem como além dos Urais. O tempo de voo para Moscou para mísseis de cruzeiro Tomahawk será inferior a 35 minutos, mísseis balísticos da região de Kharkov - 7-8 minutos e armas de ataque hipersônicas - 4-5 minutos. Isso é chamado, diretamente, "faca na garganta".

E eles, sem dúvida, esperam implementar esses planos da mesma maneira que fizeram repetidamente nos últimos anos, expandindo a OTAN para o leste, movendo infraestrutura e equipamentos militares para as fronteiras russas, ignorando completamente nossas preocupações, protestos e advertências. [...]

Respondemos a isso de forma adequada, ressaltando que estamos prontos para seguir o caminho das negociações, mas com a condição de que todas as questões sejam consideradas como um todo, como um pacote, sem estar separado das principais propostas básicas russas.

E eles contêm três pontos-chave. A primeira é impedir uma maior expansão da OTAN. A segunda é a recusa da Aliança em implantar sistemas de armas de ataque nas fronteiras russas. E, por fim, o retorno do potencial militar e da infraestrutura do bloco na Europa ao estado de 1997, quando foi assinado o Ato Fundador Rússia-OTAN.

São precisamente estas nossas propostas fundamentais que foram ignoradas. [...]

Além disso, eles estão novamente tentando nos chantagear, estão novamente ameaçando com sanções, que, aliás, eles ainda vão introduzir à medida que a soberania da Rússia se fortalece e o poder de nossas Forças Armadas cresce.

E um pretexto para outro ataque de sanções sempre será encontrado ou simplesmente fabricado, independentemente da situação na Ucrânia. Há apenas um objetivo - restringir o desenvolvimento da Rússia. E vão fazê-lo, como fizeram antes, mesmo sem qualquer pretexto formal, apenas porque sim.

Gostaria de dizer claramente, com franqueza, na situação atual, quando nossas propostas para um diálogo igualitário sobre questões fundamentais na verdade ficaram sem resposta pelos Estados Unidos e pela OTAN, quando o nível de ameaças ao nosso país está aumentando significativamente, a Rússia tem todo o direito tomar medidas de retaliação para garantir a sua própria segurança. É exatamente isso o que faremos.

Quanto à situação no Donbass, vemos que a elite dominante em Kiev declara constantemente e publicamente sua relutância em implementar o Pacote de Medidas de Minsk para resolver o conflito e não está interessada em uma solução pacífica. Pelo contrário, está tentando organizar novamente uma blitzkrieg no Donbass, como já aconteceu em 2014 e 2015. Como essas aventuras terminaram então, lembramos.

Agora praticamente não passa um único dia sem bombardeios em assentamentos em Donbass. O grande grupo militar formado usa constantemente drones de ataque, equipamentos pesados, foguetes, artilharia e vários lançadores de foguetes. A matança de civis, o bloqueio, a zombaria das pessoas, incluindo crianças, mulheres, idosos, não param. Como dizemos, não há fim à vista para isso.

E o chamado mundo civilizado, do qual nossos colegas ocidentais autoproclamados se declararam os únicos representantes, prefere não perceber isso, como se todo esse horror, o genocídio, ao qual estão submetidas quase 4 milhões de pessoas, não existe, e só porque essas pessoas não concordaram com o golpe de Estado apoiado pelo Ocidente na Ucrânia em 2014, se opuseram à elevação ao posto de movimento estatal em direção à caverna e ao nacionalismo agressivo e ao neonazismo.

E eles estão lutando por seus direitos elementares - viver em sua própria terra, falar sua própria língua, preservar sua cultura e tradições.

Até quando essa tragédia pode continuar? Quanto tempo mais você pode suportar isso? A Rússia fez de tudo para preservar a integridade territorial da Ucrânia, todos esses anos lutou persistente e pacientemente pela implementação da Resolução 2202 do Conselho de Segurança da ONU de 17 de fevereiro de 2015, que consolidou o Pacote de Medidas Minsk de 12 de fevereiro de 2015 para resolver a situação em Donbass.

Tudo é em vão. [...]

Considero necessário tomar uma decisão há muito esperada de reconhecer imediatamente a independência e a soberania da República Popular de Donetsk e da República Popular de Luhansk.

Peço à Assembleia Federal da Federação Russa que apoie esta decisão e depois ratifique o Tratado de Amizade e Assistência Mútua com ambas as repúblicas. Esses dois documentos serão preparados e assinados em um futuro muito próximo.

E daqueles que tomaram e detêm o poder em Kiev, exigimos a cessação imediata das hostilidades. Caso contrário, toda a responsabilidade pela possível continuação do derramamento de sangue será inteiramente da consciência do regime que governa o território da Ucrânia.

Anunciando as decisões tomadas hoje, estou confiante no apoio dos cidadãos da Rússia, todas as forças patrióticas do país.

Obrigado pela sua atenção.

 

Apolo Heringer Lisboa


HIDRONEGÓCIO!

Desmascarando a origem do hidronegócio - o não pagamento do preço de mercado da água bruta que consomem, transferindo esses custos para as contas de água potável e de energia elétrica dos consumidores urbanos sobretudo entre setembro e abril de cada ano !

QUEM PAGA?

Os consumidores urbanos. São mais de 80% da população brasileira! São os consumidores domésticos, empresários de prestação de serviços e seus clientes, idem para o comércio e industriais urbanos. Tudo repassado ao conjunto da população urbana e rural. Acrescente-se o Imposto de Consumo, o mais perverso imposto do Brasil chocado nas contas dos mais pobres.

 

Hugo Albuquerque

 

A esperança de vida brasileira caiu de 76 para 72 anos entre 2019 e 2021, mas estamos creditando isso ao "vírus", não à gestão genocida da pandemia -- ou à fome gerada pelo Estado. Mas estamos aqui preocupados com o "autoritarismo", deus nos livre desse mal nos acometer.

 

Samuel Braun

 

Os liberais - e com isso digo os estudados, não os papagaios modinha - não são capazes de escrever algo útil sobre a questão dos russos étnicos da Ucrânia porque parecem não ter o hábito de fazer ciência, ou seja, diferenciar sua corrente teórica da verdade científica. Tratam como uma mesma coisa por essência.

Dou dois exemplos que infectam meu feed: Augusto Franco e Joel Pinheiro da Fonseca. Os dois vêm escrevendo textos onde defendem um frouxo conceito totalizante chamado "democracia liberal", e a partir dele medem quem está certo ou errado nas relações internacionais.

Augusto fala de um tal V-DEM, que sabemos possuir 5 tipologias de democracias diferentes. Ele fala, contudo, que a liberal é o ápice das demais. Em várias postagens diz que se trata de um percurso onde o número de partidos habilitados à escolha popular é o primeiro e eliminatório critério (referente à democracia eleitoral). Só que nesse método, estranhamente, os Estados Unidos, que só tem dois partidos efetivamente nacionais e não tem voto direto pra Presidente, está no alto do ranking democrático, quando jamais passaria do primeiro critério.

Augusto, como devem saber, ganha a vida com cursos, palestras e consultorias sobre... democracia. Joel ganha a vida escrevendo pra Folha de São Paulo. E lá repete as mesmas coisas, com menos detalhamento teórico. Supostamente a "democracia liberal" seria o paraíso que todos deveriam buscar, passando por níveis inferiores (que Augusto chama de democracia eleitoral, democracia populista, etc).

O que os dois fazem não é um caso curioso de engano semelhante, não é uma coincidência. A própria instituição que elabora o V-DEM publica seus relatórios destacando o V-Dem’s Liberal Democracy Index (LDI). No fim se trata disso, de um ranking de democracias liberais que será usado pelo Banco Mundial, agências da ONU e liberais abroad para impor suas preferências ideológicas sobre os desejos dos povos. O ranking se converte assim numa ferramenta antidemocrática de proa.

Inclusive o relatório anual entrega que se trata de um trabalho voltado para hierarquizar as variedades de democracias conforme sua aproximação com o liberalismo: "For most parts of the Democracy Report the focus is on gradual changes in the LDI". Efetivamente as páginas finais classificam os países com setas subindo ou descendo entre níveis melhores e piores, partido de Closed Autocracy, passando por Electoral Autocracy e Electoral Democracy, até chegar a Liberal Democracy.

Ainda na publicação do V-DEM os países chamados de autocratas recebem a cor vermelha (do comunismo), e os liberais azul. Embora conceitualmente prevejam variedades de democracias, toda a publicação trata a liberal como a única realmente desejável, e a aproximação ou afastamento dela se converte abertamente em mais ou menos democracia, como usam os liberais citados no post. O resultado é a divisão do mundo entre os democratas (a.k.a. ocidente) e os autocratas (o "terceiro mundo" e todos os adversários da potência central do Sistema Interestatal), como podem ver no mapa.

Os EUA, sem eleição direta pra presidente tem o índice global de democracia 0.73, enquanto Cuba, com votações em todas as questões públicas desde os bairros tem 0.09. Chegam ao absurdo de darem 0,03 pra Cuba em participação política, metade do índice dos EUA! O máximo nessas medidas é 1.0.

Limitados a repetir esse índices sem entendê-los, inclusive porque nunca abrem suas bases de dados para estudar a metodologia, a quase totalidade de liberais repete tanto na economia como na ciência política a afirmação de suas preferências como se fossem meros dados naturais observáveis. E é este mesmo comportamento que anima a teoria liberal das relações internacionais.

A partir de idealizações sobre o que é democracia, previamente circunscritas àquilo que é mais próximo ou mais distante de sua perspectiva econômico-política, supõe ter em mãos um valor absoluto capaz de simplificar qualquer análise. Bastaria, assim, olhar quais regimes mais lhes agradam para descobrir quais regimes seriam mais democráticos, logo, merecedores do prêmio de superioridade ontológica. Profecia autorrealizável, tautologia.

Se os EUA, por hipótese, financiar milícias nazistas contra minorias étnicas, é democracia pois se trata de uma ação de um país classificado como democracia liberal. Se a Rússia enviar soldados para impedir bombardeios sobre essas minorias, é ataque antidemocrático porque a Rússia seria uma autocracia. É o clássico do juiz que julga pelo CPF. Pobre e preto? Culpado. Rico e branco? Inocente.

Guga Chacra tem sido um dos melhores articulistas liberais. Primeiro ele tem sofrido bastante nas suas entradas online na Globo, tendo que desmentir comentários de colegas menos informados e menos estudados que ele. Segundo, tem escrito em sua coluna todos os absurdos que fazem dos EUA um vilão internacional. Isso o diferencia dos ignorantes que ocupam os jornais e os TTs liberais.

Mas, no fim do dia, Guga precisa concluir pela defesa da ação do vilão, pois uma vez que o pólo oposto aos EUA é aprioristicamente lançado à coluna das autocracias, não podem constituir uma opção à sagrada democracia liberal que os EUA representam. Já falou certa vez que embora os EUA sejam criminosos internacionais, toda opção disponível à eles é pior. Mesmo nos casos onde está clara a defesa de valores indiscutíveis da humanidade pelos rivais dos EUA, a elevação da tal democracia liberal a valor máximo impõe um bkack n' white analítico insuperável.

 

 

 

 

Rudá Guedes Ricci

 

Postarei aqui, hoje, o preâmbulo do documento que o grupo Unidade na Diversidade está produzindo como contribuição à construção de um projeto nacional. Amanhã, postarei o diagnóstico que produzimos e nos dias seguintes, as propostas. Lá vai:

 

UMA PROPOSTA INICIAL DE AGENDA NACIONAL

 

1. Ao longo do segundo semestre de 2021 diversos militantes e lideranças de organizações sociais e sindicais agregados no grupo Unidade na Diversidade discutiram a necessidade de politizar o debate sobre as bases de uma agenda nacional para o Brasil.

2. Decidimos contribuir nesta tarefa elaborando eixos desta agenda nacional a partir de uma perspectiva de esquerda.

3. A perspectiva de esquerda sugere a promoção e a garantia da igualdade e justiça social e ecológica, o respeito às diferenças e às diversidades, o trabalho como eixo de socialização e identidade nacional, o controle e a limitação do capital nos processos de gestão e condução de políticas públicas e a ampla participação social na tomada de decisões.

4. Definimos que a elaboração deste coletivo de militantes e organizações sociais e sindicais dialogaria com o que identificamos como ações emergenciais com caráter estruturante. Em outras palavras, acreditamos que qualquer agenda nacional tem, necessariamente, que tratar das questões imediatas da sobrevivência de amplos segmentos sociais brasileiros, o que envolve a superação da tragédia da fome, da saúde pública em meio à pandemia pelo Covid-19 e da renda familiar decadente. Estas questões, ao mesmo tempo, se relacionam com problemas estruturais do país. Tratamos, assim, de uma agenda emergencial de caráter estruturante.

5. Destacamos questões emergenciais em cada tema que levam ao sofrimento o povo brasileiro e que aparecem nas demandas populares contemporâneas raramente ouvidas na formulação de políticas públicas ou, quando ouvidas, são abordadas a partir de perspectivas não emancipatórias, de caráter liberal e tecnocráticas. Trata-se, portanto, de um exercício de escuta em torno de questões potencialmente mobilizadoras.

6. Decidimos dialogar com sujeitos protagonistas de experiências sociais inspiradoras de propostas para construção de economias sociais e solidárias, estruturas de governança democráticas e controle social, organizadas em diferentes escalas territoriais, do local ao nacional, vinculadas à defesa e ampliação dos direitos sociais.

7. Definidos os contornos da nossa elaboração decidimos por um método de construção desta agenda.

8. Não propomos uma agenda acabada, construída com boas intenções, mas que não se abre ao diálogo com as forças populares capazes de impulsionar movimentos de transformação das estruturas de poder vigentes. Entendemos que seria uma contradição com nossos objetivos de escuta, fomento ao debate e construção coletiva e tendo como ponto de partida a experiência social. Assim, a proposta que apresentamos é, desde agora, inacabada. O objetivo é apresentar um roteiro básico, sintético, nomeando o que consideramos pilares da agenda nacional a partir de grandes eixos temáticos.

9. Nosso desejo é, como afirmamos, estimular a construção coletiva que promova a politização das experiências de luta e conquista de direitos coletivos no Brasil numa dinâmica de mobilização. A politização se faz pela leitura crítica dessas experiências e da construção de significados políticos mais amplos.

10. Uma agenda que tenha a intenção de fomentar a mobilização social adota uma vocação democrática específica, da democracia participativa e do alargamento dos processos decisórios públicos.

11. As propostas a seguir apresentam inicialmente dois diagnósticos: um geral do país e outro para cada tema central das nossas propostas entendidos como temas mobilizadores. Faz parte desse diagnóstico uma reflexão sobre os sujeitos coletivos envolvidos nesses temas.

12. Assim, para cada tema, apresentamos 5 eixos ou propostas de respostas aos problemas emergenciais e de caráter estruturantes. Para cada um desses temas apresentamos um diagnóstico sintético da área e o foco das propostas para enfrentamento dos problemas centrais identificados.

13. Vivemos uma conjuntura marcada pela forte expectativa do campo progressista nacional da reconstrução nacional lastreada no acúmulo das experiências concretas lideradas por organizações populares e movimentos sociais.

14. Contudo, é fundamental que superemos o debate limitado pelos nomes e chapas que concorrerão às eleições de 2022. Os últimos anos da política nacional foram fartos em exemplos de como a mera eleição de uma força progressista não garante nem governabilidade, nem controle popular sobre suas ações. Ao contrário, o achaque do conservadorismo sobre gestões progressistas sempre é uma ameaça que captura sua alma ou a transfigura.

15. Antonio Gramsci afirmava que é possível ter poder sem ser governo. Nos últimos anos esta equação parece ter sido invertida, o que leva à falta de perspectiva e até mesmo à ausência de referências quanto a objetivos comuns que alarguem os horizontes da nossa democracia rumo às transformações necessárias, ousadas e ideologicamente definidas.

16. Esta é nossa intenção

 

 

Rudá Guedes Ricci

 

 

 

Paulo Rezzutti

 

Há 79 anos, em 22 de fevereiro de 1943, os estudantes alemães Sophie Scholl, de 21 anos, e seu irmão Hans Scholl, de 24 anos, foram executados por traição pelo governo nazista de Adolf Hitler. O motivo de sua condenação: denunciar os crimes nazista por meio de um movimento pacífico de resistência contra Hitler chamado de Rosa Branca (Weisse Rose). No início do verão de 1942, os irmãos e mais alguns colegas escreveram seis panfletos de resistência política antinazista, que foram espalhados pelas universidades de Munique e Hamburgo, sendo enviados também por correio, divulgando suas mensagens.

Em 18 de fevereiro de 1943, os irmãos foram descobertos por seguranças no pátio interno da Universidade de Munique onde estudavam e acabaram presos pela Gestapo. Julgados e sentenciados à morte por decapitação, a sentença foi executada em 22 de fevereiro na Prisão Stadelheim, em Munique.

"Eles nos permitem acreditar que nem todos os alemães naquela época eram colaboradores silenciosos e covardes", afirmou o ex-presidente da Alemanha Joachim Gauck, referindo-se à importância dos dois irmãos e do movimento Rosa Branca.

No meu canal no YouTube, há um vídeo feito pela Cláudia Thomé Witte em Munique contando essa história:

 

#numdiacomohoje #onthisday #rosabranca #weisserose #sophiescholl #hansscholl

 

Rodrigo Nunes

 

Acabei não divulgando no semestre passado por motivos de exaustão, mas no próximo semestre estarei dando continuidade ao curso que comecei em 2021 sobre o conceito de transição, cuja ementa vai aqui abaixo.

As aulas serão às quartas-feiras, de 19h às 22h, e acontecerão remotamente. Ouvintes são bem-vindxs, quem tiver interesse pode entrar em contato por aqui ou por email (eu devo demorar um pouco para responder porque tenho que terminar um livro essa semana...). A primeira aula será no dia 9/03.

Transição: História e Atualidade de um Conceito (Parte II)

A ideia de “transição” está hoje cada vez mais presente. À medida em que avança a compreensão de que estamos diante de uma crise ambiental que pode implicar a extinção de boa parte da vida no planeta Terra, tem se falado em “transição energética”, “transição justa”, “transição para uma outra economia”.

A previsão feita pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática há três anos atrás –– de que até o final desta década seria preciso fazer o número de emissões de gases de efeitos estufa regredir cerca de 45% em relação aos níveis de 2010 a fim de afetar um aumento da temperatura global maior que já calamitosos 1,5º C até o fim deste século –– dá uma boa medida da urgência que cerca esta discussão. Diante disso, o propósito deste curso é triplo.

Em primeiro lugar, examinar a história e as inflexões do conceito de “transição” na história e na filosofia política, buscando compreender como e dentro de quais quadros conceituais ele foi anteriormente pensado.

Em segundo lugar, pensar algumas das questões teóricas que cercam a discussão sobre uma transição para uma outra economia e organização social hoje, particularmente problemas de escala e complexidade, logística e planejamento.

Por último, analisar diferentes propostas existentes para um New Deal Verde como ferramenta para transição econômica e energética, bem como as críticas que estas têm recebidos, e pensar a relação entre estas e o debate a respeito do decrescimento; bem como considerar a viabilidade destas ideias do ponto de vista dos desejos e interesses daqueles que podem vir a constituir uma base social em favor delas.

Este curso é a continuação do curso ministrado no semestre passado, mas não é necessário ter participado do primeiro para acompanhá-lo. A primeira aula oferecerá uma recapitulação de alguns dos temas debatidos no semestre anterior.

Bibliografia

A lista abaixo combina a bibliografia principal e secundária para cada módulo. Os textos específicos a serem tratados em sala de aula serão indicados ao longo do semestre.

 

Módulo 1: O conceito de transição

 

Étienne Balibar, “Sobre os Conceitos Fundamentais do Materialismo Histórico”.

Aleksander Bogdanov, Essays on Tektology.

Nikolai Bukharin, The Politics and Economics of the Transition Period.

Stephen Cohen, Bukharin and the Bolshevik Revolution.

Stafford Beer, The Brain of the Firm.

Stafford Beer, Designing Freedom.

Janet Biehl e Murray Bookchin, The Politics of Social Ecology.

Tom Bottomore, Austro-Marxism.

Mark Blum, William Smaldone (eds.) Austro-Marxism, 2 vols.

Gilles Dauvé, From Crisis to Communisation.

Arturo Escobar, Designs for the Pluriverse.

Endnotes, Endnotes 1.

Ednotes, “Error”.

Massimo De Angelis, Omnia Sunt Communia.

Fredric Jameson et al., An American Utopia.

Robert Austin Henry, Joana Salém Vasconcelos e Viviana Canibilo Ramírez (eds.), La Vía Chilena al Socialismo, 2 vols.

Henry Heller, The Birth of Capitalism. A 21st Century Perspective.

Michal Kalecki, “Political Aspects of Full Employment”.

Koijin Karatani, “Principles of the New Associationist Movement”.

Koijin Karatani, The Structure of World History.

V.I. Lenin, Estado e Revolução.

Kali Akuno, Jackson Rising. The Struggle for Economic Democracy, Socialism and Black Self-Determination.

Karl Marx, “Crítica ao Programa de Gotha”.

Donella Meadows, “Leverage Points”.

Benjamin Noys (ed.), Communization and Its Discontents.

Adam Przeworski, Capitalism and Social Democracy.

Paul Sweezy e Charles Bettelheim, On the Transition to Socialism.

Pia Tikka (ed.), Culture as Organization in Early Soviet Thought.

Alberto Toscano, “Transition Deprogrammed”.

Leon Trotsky, The Transitional Program.

Leon Trotsky, “Discussions with Trotsky on the Transitional Program”.

Erik Olin Wright, Envisioning Real Utopias.

Erik Olin Wright, How to Be an Anticapitalist in the 21st Century.

 

Módulo 2: Escala e Complexidade

 

TFH Allen e Thomas Starr, Hierarchy. Perspectives for Ecological Complexity.

Dipesh Chakrabarty, “The Planet: An Emergent Humanist Category”.

Bruce Clarke, Gaian Systems. Lynn Margulis, Neocybernetics, and the End of the Anthropocene.

Erich Hörl (ed.), General Ecology. The New Ecological Paradigm.

Aurora Ipolito, “The Problem of Scale in Anarchism and the Case for Cybernetic Communism”.

Anna Tsing, “On Nonscalability: The Living World Is Not Amenable to Precision-Nested Scales”.

 

Módulo 3: Logística

 

Deborah Cowen, The Deadly Life of Logistics.

Anna Tsing, The Mushroom at the End of the World.

Jane Guyer, Legacies, Logics, Logistics.

Jasper Bernes, “Logistics, Counterlogistics and the Communist Prospect”.

Jasper Bernes e Joshua Clover, “The Ends of the State”.

Alberto Toscano, “Logistics and Opposition”.

Alberto Toscano, “Lineaments of the Logistical State”.

 

Módulo 4: Planejamento

 

Raul Espejo, “Cybersyn, Big Data, Variety Engineering and Governance”.

Friedrich von Hayek, “The Use of Knowledge in Society”.

Jan Groos, “Distributed Planned Economies in the Age of Their Technical Feasibility”.

Evgeny Morozov, “Digital Socialism?”.

Otto Neurath, “Economic Plan and Calculation in Kind”.

John O'Neil, “Who Won the Calculation Debate?”.

Leigh Phillips e Michal Rozworski, People’s Republic of Walmart.

Daniel Saros, Information Technology and Socialist Construction.

 

Módulo 5: Decrescimento e Green New Deal

 

Max Ajl, A People's Green New Deal.

Kate Aronoff, Alyssa Battistoni, Daniel Aldana Cohen e Thea Riofrancos, A Planet to Win. Why We Need a Green New Deal.

Nic Beuret, “A Green New Deal Between Whom and For What?”.

Ulrich Brand e Markus Wissen, The Imperial Mode of Living. Everyday Life and the Ecological Crisis of Capitalism.

Mark Burton and Peter Sommerville, “Degrowth: A Defence”.

Pierre Charbonnier, Abondance et Liberté.

Millward Hopkins et al., “Providing Decent Living with Minimum Energy”.

Riccardo Mastini, Giorgos Kallis, and Jason Hickel, “A Green New Deal without Growth?”.

Edouard Morena, Dunja Krause and Dimitris Stevis (eds.) Just Transitions. Social Justice in the Shift Towards a Low-Carbon World.

Kari Marie Norgaard, Living in Denial. Climate Change, Emotions, and Everyday Life.

Ann Pettifor, The Case for the Green New Deal.

Robert Pollin, “Degrowth vs a Green New Deal”.

Kate Soper, Post-Growth Living.

The Red Nation, The Red Deal. Indigenous Action to Save Our Earth.

Nantina Vgontzas, “Toward Degrowth: Worker Power, Surveillance Abolition, and Climate Justice at Amazon”


De Olho na Engenharia

 

Reflexão

 

 

 

 

Vinícius Nicastro Honesko

 

Tradução do texto do Agamben apresentado na Jornada dedicada à questão da verdade organizada por ocasião da inauguração da Seção de Veneza do Instituto Italiano para os Estudos Filosófico, em 1º de fevereiro de 1997.

Giorgio Agamben, Verità come erranza in.: Paradosso – rivista di Filosofia, n. 2-3, org. de Massimo Donà, Padova, Il Poligrafo 1998, pp. 13-17.

 

 

 


Faustino Teixeira

 

As pregações tornaram-se mingaus psicologizantes dignos de séries de TV

Bruno Latour

 

Peter Schulz

 

Arthur E. Haas: as múltiplas dimensões de um pioneiro esquecido.

Arthur Erich Haas (1884-1941) foi um físico austríaco, de origem judaica, e o pioneirismo é na mecânica quântica. Li sobre ele há muito tempo em um capítulo de um livro do historiador Armin Hermann, que em outro livro o considera um dos oito fundadores da moderna teoria quântica. De fato, parece mesmo ser o primeiro a usar o conceito de quantum de Max Planck para entender a estrutura do átomo (antes de Niels Bohr e seu famoso modelo, que todo mundo pelo menos ouviu falar no ensino médio, mesmo que a maioria deva ter esquecido depois). Na verdade, foi ao contrário: queria achar um significado para a constante de Planck a partir do mais simples e abundante átomo no universo, o hidrogênio.

Essa história vale a pena ser divulgada, como o fez, finalmente, o físico Michael Wiescher na biografia “Arthur E. Haas – the hidden pioneer of quantum mechanics”, lançada em 2021. Mas vale mais a pena por todo o resto da história desse cientista com pouquíssimas imagens na Web, a não ser as de Wiescher e que aparecem no livro e em um artigo preparatório de 2017, fonte para estender o que pouco que eu lera no curto capítulo do historiador Armin Hermann. Há tempos queria escrever algo sobre isso, cito-o brevemente em um artigo sobre o átomo de Bohr escrito há uns anos, mas a ligação com Georges Lemaitre, personagem que comentei esses dias, finalmente fez-me vencer a barreira da preguiça.

Arthur é filho de próspera família do império Austro-Húngaro, que resolveu, além de direito, estudar física. Em sua autobiografia, Haas comenta detalhes interessantes sobre a universidade de Viena, como sobre professores que nunca apareciam para dar aula (atenção, estamos falando do início do século XX lá na Europa) e outros, cujas aulas ninguém assistia porque não valiam a pena. Por isso, foi estudar dois anos na universidade de Göttingen na Alemanha, meca da física e matemática da época. Assim se afastou de seu mentor em Viena, Ludwig Boltzmann (gigante da ciência, nada a ver com seus colegas mencionados na frase anterior), com quem faria o doutorado.

Em Göttingen, Haas admirava os professores, mas odiava os alunos, que apareciam bêbados nas aulas depois de noites em claro pelas tavernas, segundo cartas de Haas. Além dos hábitos em que Arthur acabou se envolvendo e dos quais se arrependeu pelo resto da vida: os duelos de sabre para resolver tertúlias entre estudantes. Talvez de para notar na foto de Haas a cicatriz na testa, resultado do envolvimento na prática (ao lado temos seu histórico escolar do semestre de verão de 1904).

Ao voltar a Viena, o jovem austríaco encontrou o mestre Boltzmann assustadoramente envelhecido em apenas dois anos. O orientador se suicidou alguns meses antes da defesa de tese de seu último orientando. Meio perdido, Haas toca a carreira, seguindo ainda as sugestões do falecido mestre. Eis que almejou uma cátedra de filosofia da ciência em Viena. Para isso precisava defender a “Habilitation”, que aqui em São Paulo chama-se livre-docência. E aí, com a filosofia já tinindo, mas a física ainda deixando a desejar, apimentou esta última com o que viria a ser sua contribuição esquecida para a física quântica. Haas estava plenamente a par do que acontecia e resolveu encontrar um significado para a tal constante, que Planck encontrara ao formular a quantização de energia. Associou-a a elétrons em um átomo, segundo um caso especial do modelo de J.J. Thomson: um único elétron na casca de uma esfera positivamente carregada, o átomo de hidrogênio, uma única ameixa no pudim, lembrando o apelido desse modelo, “pudim de ameixa”. Relacionou a energia dessa ameixa, quer dizer elétron, com o quantum de energia de Planck; e a força elétrica entre as cargas com a força centrípeta da ameixa girando e previu o tamanho (raio) que esse átomo (esfera, forma não muito usual para um pudim de verdade) teria. Era o que se chamou depois de raio de Bohr para o hidrogênio. O ano era 1910 e o modelo de Rutherford, aquele da carga positiva localizada no núcleo diminuto e os elétrons girando em volta, só veio no ano seguinte.

Mesmo assim, baseado não no melhor modelo atômico, mas o que estava disponível, o trabalho era bom e inovador. Mas não para Viena, ambiente dominado pelos fenomenologistas em torno de Ernst Mach, que achavam que átomos eram artifícios para construir teorias e uma boa física não deveria se basear neles. A tese foi reprovada com direito a humilhações e um dos membros da banca declarando que era uma “piada de carnaval”.

Apesar da reprovação, o autor da tese conseguiu que fosse publicada em uma revista lá não muito prestigiosa. No entanto, isso bastou para que fosse notado na grande conferência de Solvay de 1911 com a nata da física do início do século XX (segunda imagem): o trabalho de Haas foi citado 17 vezes durante as sessões. O modelo atômico de Rutherford foi, claro, o mais discutido.

E em 1913 Niels Bohr publica a sua série de três artigos sobre o seu modelo, que vai muito além do de Haas, mas o cientista dinamarquês reconhece e cita a contribuição do austríaco no primeiro artigo (ver terceira imagem). Voltando à conferência, para sorte de Haas, um dos membros da sua banca estava lá: F. Hasenöhrl, que então mudou de ideia sobre quem ele reprovara.

Haas conseguiu finalmente a “Habilitation”, mas com outra tese. E aí foi para a Universidade de Leipzig, depois voltou para Viena, no meio disso a primeira guerra mundial, morte dos pais e os colapsos tanto do império, quanto do patrimônio familiar. Haas, que já escrevia para uma enciclopédia de física por prazer, passou a ganhar a vida escrevendo livros texto e de divulgação científica. Chegou a professor titular em Viena, mas...sem salário (hoje em dia ainda existe isso por lá, os habilitados viram “privatdozent” com carga didática e muitas vezes sem salário). Por quê? O preconceito contra judeus já era forte no começo dos anos 1920 na Áustria e havia um crescente movimento contra a “influência judia”. Mas seus livros faziam sucesso, tiveram várias edições e foram traduzidos, e Haas também acabou se formando em direito e exercendo essa profissão.

Hora de encurtar um pouco história. Em 1933 o ambiente passou a ser insuportável na Áustria (mesmo antes de ser anexada em 1938) e Haas conseguiu ir para os EUA e conseguiu uma cadeira na Universidade de Notre Dame por recomendação de Albert Einstein. Haas foi depois muito ativo no acolhimento e na busca de emprego para os que conseguiam escapar do nazismo. E o interesse científico de Haas já havia mudado desde o final dos anos 1920 para uma área emergente, a cosmologia. Ele e o padre belga Georges Lemaitre (o padre pai do Big-Bang) organizaram, em 1938 o que foi a primeira conferência exclusivamente sobre o tema.

Arthur Haas faleceu em 1941 de complicações decorrentes de um derrame. Esqueci de mencionar que ele escreveu também vários outros artigos científicos e livros de filosofia, mas isso não tem tanta importância quanto esses aspectos de sua trajetória em diferentes contextos, que bem merecem a biografia escrita por seu colega da Universidade de Notre Dame.

 

 

  

De Olho na Engenharia

 

Será que funciona?

 

 

 

Tania Brito

 

Via Martin Sander

  

Tau Golin

 

Via Pedro Luiz S. Osorio

 

 

 

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