2º domingo do tempo comum – Ano C – Subsídio exegético

14 Janeiro 2022

 

O subsídio é elaborado pelo grupo de biblistas da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – ESTEF:

- Dr. Bruno Glaab
- Me. Carlos Rodrigo Dutra
- Dr. Humberto Maiztegui
- Me. Rita de Cácia Ló
Edição: Prof. Dr. Vanildo Luiz Zugno

 

Leituras do dia

Primeira Leitura: Is 62,1-5
Salmo: 95, 1-3.7-8a.9-10a.c
Segunda Leitura1Cor 12,4-11
Evangelho: Jo 2,1-11

 

O Evangelho

 

O Evangelho de hoje nos apresenta o episódio conhecido como “as bodas de Caná”. Trata-se de um relato aparentemente simples e é esta visão simplista que pode prejudicar a compreensão da profundidade do sinal que Jesus realiza.

 

O evangelho de hoje inicia com uma indicação temporal: no terceiro dia. Na Bíblia, vários acontecimentos importantes ocorrem no terceiro dia: no terceiro dia, Deus deu a Lei (Torá) ao povo (Ex 19,11); no terceiro dia, Jesus ressuscitou. Mas é necessário observar que “terceiro dia” não é um tempo cronológico, e sim um tempo “teológico”: é o momento certo da ação de Deus.

 

Após esta informação inicial, o evangelista continua no v.1: houve um casamento em Caná da Galileia. Por que Caná? Em hebraico, o verbo qānāh significa adquirir, comprar. Conforme a mentalidade antiga (mas vigente ainda hoje), em um casamento, o noivo adquire uma esposa. No Antigo Testamento, o casamento (as núpcias) é usado várias vezes como símbolo da Aliança entre Deus e Israel. Assim, por exemplo, na Aliança no Sinai: Javé adquiriu seu povo como sua esposa (Ex15,11).

 

O evangelho, em seguida, afirma: a mãe de Jesus estava lá (Jo 2,1b). No Quarto Evangelho, a mãe de Jesus é citada três vezes: Jo 2,12;6,42;19,25. Devemos observar, porém, que nunca ela é citada pelo nome. Se isso acontece, tem uma razão: o evangelista quer que seus leitores pensem na figura mãe de Jesus em dois níveis: o material e o simbólico. Obviamente, no nível material, trata-se da mulher que deu Jesus à luz; mas, para que o leitor não se reduza a este plano, a ausência do nome é proposital, para remeter ao nível simbólico: a mãe de Jesus é figura da Igreja.

 

O v.2 do evangelho de hoje afirma: Ora, tanto Jesus como seus discípulos foram convidados. Com isso, o evangelista ensina que Jesus, como Messias, é convidado, mas não pertence à Antiga Aliança. Ele traz uma nova proposta, que se torna mais clara à luz da afirmação do v.3: A mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm vinho. O vinho é símbolo dos dons divinos: graça, alegria, virtude, sabedoria, salvação, vida espiritual, vida com sentido. Quando acaba o vinho, acaba a festa, acabam também todos esses dons. Ao afirmar eles não têm mais vinho, a mãe de Jesus declara que a Antiga Aliança já não tem mais sentido, não é mais a portadora dos dons divinos.

 

É comum interpretar a frase da mãe de Jesus como uma intercessão, como se ela estivesse pedindo para Jesus realizar um prodígio. Mas isso foge à lógica do texto, como fica claro na resposta brusca que Jesus dá à sua mãe. Mais do que uma intercessão, a mãe faz uma constatação: o judaísmo tornou-se uma religião vazia, não mais dá a vida e não há nada que se possa fazer para consertar. Daí entende-se o questionamento de Jesus: Que queres de mim, mulher? (v.4). Literalmente, esta frase pode ser traduzida como: Que há entre mim e ti? ou O que nós temos a ver com isso? Por si só, esta pergunta de Jesus é dura para nossos padrões. Mas ela é completada pelo vocativo “mulher”. Não “mãe”, não “senhora”, mas “mulher”. Um filho nunca se dirige à sua mãe assim!

 

Para compreender por que Jesus fala desse modo, é necessário recordar Gn 2,23: o homem chama sua companheira de “mulher”. O evangelista, portanto, quer nos fazer pensar em uma nova criação, um novo começo, uma nova humanidade.

 

Em sua resposta, Jesus diz: minha hora ainda não chegou (v. 4). A “hora” de Jesus é o momento da manifestação da sua glória, que acontecerá na cruz. Com ainda não chegou, Jesus afirma: o que vai acontecer agora não é a glória, é só antecipação, é só sinal!

 

É então que a mãe diz aos servidores: Fazei tudo que ele vos disser! (v.5). A frase da mãe de Jesus deve ser ligada à celebração da Aliança no Sinai. Em Ex 19,8, o povo responde a Moisés: Faremos tudo o que o Senhor disser. A ordem da mãe de Jesus aos servidores é uma referência direta à Aliança (núpcias) entre Javé e seu povo. No deserto, os hebreus expressam a disposição de entrar na Aliança e de cumprir todos os preceitos do pacto. Em Caná, é um convite da mãe, figura da Igreja, a que os leitores do evangelho façam uma Aliança com Jesus. Por isso, há uma referência à Aliança antiga, qualificada como incapaz de trazer os dons divinos: a ordem de Jesus no v.7 – Enchei as talhas com água – é um modo que o evangelista tem para dizer que a Aliança e a Lei antigas estão esgotadas, elas não podem purificar nem trazer vida. Mas a nova realidade proposta por Jesus, sim. Por isso, o detalhe: encheram até a boca indica que a nova Aliança com Jesus oferece graça completa e plena.

 

O relato termina dizendo que Jesus manifestou a sua glória (v.11). Não totalmente, mas apenas um “aperitivo”. No Quarto Evangelho, a glória do Filho é realizar a glória do Pai, e a glória do Pai é a vida plena do ser humano. Como no Sinai, a celebração da Aliança termina com manifestação da glória (Ex 24,16).

 

Mas o arremate do trecho de hoje é e seus discípulos creram nele (v.11). O sinal cumpriu seu objetivo: fazer crer. Os discípulos são os que enxergam além do milagre e alcançam o significado do sinal. Este é o objetivo não só desta perícope, mas também de todo o Evangelho de João: “para que creiais/acrediteis” (Jo 20,31). Esta adesão à nova Aliança com Deus em Jesus traz à humanidade os dons divinos: alegria, vida, dignidade, saúde e educação para todos e plenamente!

 

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