A Bíblia conquista os milênios. Artigo de Gianfranco Ravasi

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14 Janeiro 2022

 

A Bíblia, “o grande código” da cultura ocidental, chega agora às mãos dos leitores em uma nova edição, preparada com maestria por uma editora “secular” e organizada, dentre outros, por Enzo Bianchi.

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito da Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 09-01-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

“Amo Dante quase tanto quanto a Bíblia”: assim confessava um insuspeito James Joyce, alinhando-se à interminável lista de autores e artistas que, ao longo dos séculos, consideraram a Bíblia como “o grande código” da cultura ocidental, como se costuma repetir adotando o estereótipo cunhado por William Blake, mas que ficou famoso com o título do renomado ensaio de Northrop Frye.

Então, é natural que uma editora “secular” como a Einaudi finalmente insira na sua série mais prestigiosa, “I Milleni”, uma nova, imponente e suntuosa edição da Bíblia, Antigo e Novo Testamentos, que são uma verdadeira biblioteca composta por 73 livros, diferentes em relação a autores, cronologia e extensão, colocados pela teologia sob a insígnia da “inspiração” divina.

É claro que essa proposta editorial – já desejada por Cesare Pavese em 1945 – destina-se ao público mais amplo possível, que também pode estar situado fora do perímetro confessional. A essa obra, foram convocados 12 exegetas qualificados sob a direção de uma figura de alto relevo na cultura religiosa contemporânea, Enzo Bianchi, que esculpiu o seu próprio espaço luminoso, traduzindo de forma fascinante e comentando aquela joia poética que é o Cântico dos Cânticos.

A esses intérpretes, somaram-se também aqueles que prepararam instrumentos de trabalho como as tabelas históricas, os mapas, os catálogos de unidades de medida e de cunhagem monetária, os calendários, os mapas, os apêndices e, sobretudo, uma admirável sequência iconográfica comentada de mais de 50 miniaturas, afrescos, telas, vitrais e assim por diante, que vão desde os primeiros séculos cristãos e chegam, por exemplo, a Chagall e Guttuso, e o tímpano em mosaico do portal da Catedral de Laval, obra de Marie-Noëlle Garrigou em 2015-2016.

Assim, estamos diante de um tríptico de tomos que somam quase quatro mil páginas em uma edição refinada, como é do estilo da coleção, mas que conquista por um dado fundamental, a nova tradução que apresenta de modo verdadeiramente original e forma surpreendente (até mesmo para um especialista) a catedral histórico-literária das Sagradas Escrituras judaico-cristãs, distribuídas em três naves.

A primeiro tem a Torá no centro e, nas laterais, os Profetas “anteriores” (os livros históricos) e os “posteriores” (os textos proféticos segundo a acepção comum). A segunda hospeda os “Escritos”, isto é, os textos sapienciais aos quais também se unem as obras deuterocanônicas compostas em grego. Por fim, eis a grandiosa nave do Novo Testamento, feita no original grego de 138.020 palavras.

A esta altura, o leitor compreenderá como é difícil elaborar uma descrição ou um juízo sobre uma obra tão extraordinária, especialmente se levarmos em conta que as Bíblias agora em circulação optam predominantemente pela versão oficial da Conferência Episcopal Italiana, que, embora valiosa, é inferior em termos de qualidade a essa experiência.

É claro que a multiplicidade das intérpretes torna o resultado mais fluido e variado, como também se pode ver nas exemplares introduções de cada obra bíblica e sobretudo nos comentários. Algumas delas se estendem em profundidade histórico-crítica e hermenêutica; outras optam por uma essencialidade que muitas vezes se baseia na referência às passagens paralelas pelas quais é a própria Bíblia que comenta a si mesma, assim como não faltam as intuições de crítica textual.

O resultado, no entanto, permanece soberbo e leva a esperar que seja desmentida a ira de Lutero, que nos seus “Discursos à mesa”, observava: “Na Itália, a Sagrada Escritura está tão esquecida que raríssimamente se encontra uma Bíblia”. Deve-se reconhecer que, agora, nos lares cristãos, especialmente depois do Concílio Vaticano II, esse vazio foi muitas vezes preenchido.

Com a Bíblia Einaudi, espera-se que, nas prateleiras das pessoas não crentes, desembarque um texto capital para a própria cultura e sobretudo – apesar da beleza gráfica que pode intimidar – que se enfrentem a sua leitura e o seu conhecimento direto.

Obviamente, agora é impossível destacar as muitas impressões específicas da nossa leitura. Assim, optamos por oferecer apenas alguns vislumbres sobre as traduções, embora estejamos cientes – como Cervantes já sugeria – de que “cada versão é como o avesso de uma tapeçaria”.

A seleção é quase casual e mínima, deixando aos leitores a aproximação aos Evangelhos, ou à exemplar tradução do epistolário paulino, ou ao fascínio do Apocalipse, ou à emocionante “cantabilidade” dos Salmos, iridescentes de trevas e luz, ou ao poderoso e até mesmo rochoso texto de , criativamente confiado ao hendecassílabo italiano.

Escolhemos, então, os dois incipits ideais dos Testamentos: “Quando Deus começou a criar o céu e a terra, enquanto a terra estava vácua e vazia, as trevas estavam acima do abismo, e o sopro de Deus pairava sobre as águas, Deus disse: ‘Haja luz!’ E houve luz” (Gênesis 1,1-3); “No princípio, era o Logos, e o Logos estava perante Deus, e o Logos era Deus. Era ele no princípio perante Deus” (João 1,1-2).

Abertas aleatoriamente as poucas páginas com as 1.250 palavras hebraicas do Cântico dos Cânticos, eis Ela, a mulher protagonista: “Quem é aquela que avança como a aurora, bela como a lua, resplandecente como o sol, temível como um cometa?”. “Eu não sei... o meu desejo me arrasta como uma carruagem de um príncipe...” (6,10.12: os exegetas que se debruçaram sobre no segundo versículo fragmentário e obscuro podem admirar essa versão fulgurante).

E novamente eis o início de Eclesiastes: “Sopro absoluto, diz Qoheleth, sopro absoluto; tudo é um sopro” (1,2), onde exala a impressionante polissemia do hebraico havel havalim. Mas eis também um fragmento de ternura na poesia profética, embora trêmula: “Mas pode uma mulher esquecer o seu filho? Deixar de amar o filho do seu ventre? Mas, mesmo que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti” (Isaías 49,15).

E, para terminar, um salto no testamento de São Paulo: “Estou prestes a ser derramado como oferta sacrificial, e o tempo de zarpar é premente. Combati a boa batalha, terminei a corrida, conservei a fé...” (2Timóteo 4,6-7).

Ao fundo, podemos fazer ressoar o eco do Senhor do Apocalipse: “Eu sou o Alfa e o Ômega, Aquele que é, que era e que vem, que tem poder sobre tudo!”.

 

Referência:

 

BIANCHI, Enzo; CUCCA, Mario; GIUNTOLI, Federico; MONTI, Ludwig (orgs). Bibbia. vol. I, pp. LXXXI-1538; vol. II, pp. XLIX-1302; vol. III, pp. LIII-869. Turim: Einaudi: 2022.

 

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