Alemanha. Caminho sinodal. As reformas nascem da fé. Temas e propostas da II Assembleia presencial

Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Mais Lidos

  • A vida de Xi Jinping e as escolhas da China

    LER MAIS
  • Sobre o amor. Artigo de Faustino Teixeira

    LER MAIS
  • A favor da capacidade de ignorar

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


26 Outubro 2021

 

Enquanto a tempestade de casos de abusos e violências sexuais cometidos no contexto eclesial também atinge a França, em proporções que deixam sem fôlego, a Alemanha católica segue o seu caminho de reflexão em busca de vias para uma renovação indispensável que o escândalo dos abusos e das violências revelou como inadiável.

 

A reportagem é de Sarah Numico, publicada por O Reino, outubro de 2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Como a França em 5 de outubro passado, a Alemanha ficou chocada em 2018 com o agora famoso Estudo Mhg (sobre Violência sexual contra menores por sacerdotes católicos, diáconos e religiosos pertencentes a ordens religiosas na área da Conferência Episcopal alemã). É impressionante ver que a mesma mensagem chega da França humilhada por esse flagelo: erros sistêmicos tornaram possíveis os abusos e as violências; por isso, para evitar que o desastre aconteça novamente, esses erros devem ser eliminados. Em particular, 4 áreas precisam ser repensadas: a gestão do poder na Igreja, o papel das mulheres, a moral sexual, a figura do sacerdote. É sobre essas 4 áreas que a Igreja alemã se confronta no Caminho Sinodal iniciado pelos bispos e leigos alemães em 2019.

Entre 30 de setembro e 2 de outubro passado, realizou-se finalmente a 2ª reunião presencial: agendada para setembro de 2020, tinha sido adiada duas vezes devido ao COVID. No imenso Centro de Congressos de Frankfurt, onde foi respeitado todo o distanciamento necessário, os 215 delegados presentes discutiram intensamente e votaram 13 dos 16 documentos já disponibilizados pela presidência e pelos 4 fóruns temáticos. O tempo não foi suficiente para revisar todas as mais de 180 páginas à disposição dos sinodais. O que ficou faltando, será recuperado no encontro do início de fevereiro.

“Santo Padre - porém, especificou o presidente dos bispos Georg Bätzing, em resposta à preocupação de Francisco de que os sínodos se tornem meras assembleias editoriais - não discutimos textos, mas sonhos traduzidos em palavras sobre como queremos mudar a Igreja na Alemanha: uma Igreja participativa, inclusiva em relação aos gêneros e em caminho com as pessoas”. E como percebemos que demora muito para escutar-se, confrontar-se e se entender, a tal ponto que mais duas assembleias em 2022, conforme previsto, não seriam suficientes para encerrar o primeiro confronto e liberar em segunda leitura dos documentos definitivos, a presidência propôs adicionar uma 5ª Assembleia sinodal no início de 2023. Ainda será possível levar o que vai resultar na Alemanha para o Sínodo dos Bispos da Igreja universal.

 

Existem aqueles que amam o clima de confronto, existem aqueles que o temem.

 

A experiência alemã continua extremamente interessante em muitos níveis. Antes de fazer referência aos textos que ocuparam a agenda de “Frankfurt 2”, algumas considerações surgiram das trocas vividas durante os dias da Assembleia.

“Seria impensável para nós ver tal assembleia discutir com tanta franqueza, sinceridade e grande humildade por parte dos bispos”. O comentário é do francês Jérome Vignon, um dos observadores estrangeiros presente nas assembleias. Não vale apenas para a França. A franqueza e transparência com que se continua a discutir dão arrepios. Expressa-se aprovação, críticas pesadas são feitas, histórias pessoais são contadas, manifesta-se desconforto, propostas são apresentadas, tudo à luz do dia (e ao vivo com o resto do mundo).

Entre os convidados internacionais presentes em Frankfurt, também o bispo de Copenhague, Czeslav Kozon; mas o seu olhar atordoado expressa tudo menos entusiasmo: "Estou preocupado com o que está acontecendo aqui", confidencia, explicando que os países nórdicos têm dificuldade até em compreender como terão que fazer para viver a fase nacional do Sínodo Universal, e estão esperando orientações de Roma.

Certamente, o que lemos nas minutas dos documentos alemães ou ouvimos na maioria das intervenções na Assembleia nem sempre está perfeitamente de acordo com os pronunciamentos magisteriais e com o Catecismo. No entanto, a preocupação explicitada por muitos sinodais é a de ficar dentro dos limites do que está previsto no Código de Direito Canônico, por um lado, pelo Evangelho, por outro, mas em grande medida também pelo Magistério.

Também é claro que as propostas serão encaminhadas ao Santo Padre, que talvez deva convocar um concílio para reconhecê-las. Enquanto um certo número de mudanças desejadas será realizável através do poder já conferido ao bispo diocesano e outros na Conferência Episcopal.

A grande maioria dos sinodais almeja uma mudança: o resultado das várias votações dos textos mostrou-o claramente. A questão permanece sobre o espaço que a minoria pode e deveria ter. “Aqui se podem discutir as diferentes posições, mas depois elas não aparecem nos textos” criticou Hanna Barbara Gerl-Falkowicz em determinado momento da Assembleia, expressando o desconforto daqueles sinodais menos inclinados a mudanças radicais e que no momento da votação sobre os documentos revelou-se um grupo transversal que oscilava entre 20 e 40 pessoas.

É o grupo que tem no bispo Rudolf Voderholzer (Regensburg) o principal crítico do processo sinodal, que acusa os coirmãos de terem "politizado" e ideologizado o estudo de 2018 sobre as violências para forçar as reformas. Em setembro, o bispo também abriu uma página alternativa na web, na qual publica "contribuições sinodais" muitas vezes assinadas com o cardeal de Colônia Rainer Maria Woelki.

Este último, na última plenária, nunca fez uso da palavra: no centro de fortes críticas pela forma como geriu os abusos e as violências na sua arquidiocese, e depois por ter sido deixado à frente da arquidiocese pelo Papa Francisco, apesar de um período sabático de 6 meses solicitado a ele por Bergoglio. Woelki não gosta do processo sinodal e no passado ele o comparou em termos depreciativos a um "parlamento protestante".

Também faz parte desse grupo o bispo salesiano de Passau, Stefan Oster, preocupado porque a discussão sobre as reformas estruturais prejudicou a reflexão sobre o tema da evangelização e porque a perspectiva proposta pelo documento sobre a moral sexual representa um afastamento imperdoável de um magistério que é pensado para a liberdade e o amor.

O grupo inclui também o bispo auxiliar de Bamberg, Herwig Gössl, mas também uma leiga como Dorothea Schmidt: ela representa o movimento mariano Maria 1.0 e com grande determinação tentou defender o magistério, apesar de alguns sinodais terem levantado cartões vermelhos de dissenso na sala enquanto falava.

A pluralidade, ou melhor, a unidade na diversidade, continua a ser o desafio, tanto em nível de Igreja universal como dentro das Igrejas particulares. Paralelamente, o funcionamento democrático do caminho sinodal deve ser afinado para que não penalize ou marginalize as minorias.

 

"A Igreja universal é a nossa perspectiva"

Embora a experiência alemã em outros países pareça irrepetível (pela cultura, pela história, também pela demografia eclesial e pela singularidade de suas estruturas), fica claro que também os alemães não querem ir em frente sozinhos. "É bom que você esteja aqui e agora pode contar ao Papa sobre o nosso esforço", disse a vice-presidente do Comitê Central dos Católicos Alemães, Karin Kormann, nos últimos momentos do trabalho, dirigindo-se ao núncio apostólico Nikola Eterovic.

“Ajude-nos a criar novas pontes de comunicação; diga-lhe que gostaríamos muito de ir a Roma se quiserem se encontrar conosco”, foi o seu pedido. E também a garantia: “A Igreja universal é sempre a nossa perspectiva”.

A presidência do Caminho Sinodal havia escrito convidando o Sínodo dos Bispos da Igreja universal a enviar um delegado para acompanhar os trabalhos; mas ninguém veio de Roma, nem mesmo uma resposta à carta. Esse foi um motivo de tristeza e de alguma decepção, que se somou às críticas à decisão de Francisco de não aceitar a renúncia do bispo de Hamburgo, do cardeal de Colônia e de seus dois auxiliares, apesar dos erros cometidos na gestão dos casos de abusos e de violências: muito graves para uma parte dos fiéis alemães, não tão graves a ponto de justificar a renúncia, para o papa.

Quanto aos textos discutidos e aprovados: os sinodais já haviam lido e apresentado emendas a 16 textos: um preâmbulo, uma orientação teológica, três textos básicos e algumas recomendações de ação para os diversos fóruns temáticos. Durante a Assembleia, cada texto foi discutido como um todo, em seus elementos básicos e, para seu potencial desenvolvimento, a partir das emendas coletadas e estudadas por equipes específicas. Para cada texto, houve um tempo para as intervenções (limitados a 1 minuto de fala) e depois a votação: sobre as indicações individuais, ainda que gerais, de modificação e depois sobre o texto como um todo segundo essas "promessas" de ulterior elaboração.

Será depois sobre a segunda minuta dos textos que cada contribuição será discutida linha a linha. O tempo foi suficiente para examinar 13 dos 16 textos apresentados. Todos aprovados com uma "maioria reconfortante", mas não sem intensas confrontações. Por exemplo, o texto sobre o papel do sacerdote suscitou grandes reservas porque oferecia apenas uma leitura do hoje, sem indicações para repensar o seu papel para o futuro.

 

Um Conselho Sinodal permanente

 

A aprovação da orientação teológica, preparada pela Presidência juntamente com um "Preâmbulo" que explica o contexto e o sentido do caminho, foi particularmente satisfatória. O texto define os "critérios teológicos" a que se referem as reflexões elaboradas nos fóruns e são abordados temas como a relação entre teologia e Escritura, e seu vínculo imprescindível e dinâmico com o magistério, que está a serviço do anúncio evangélico, a questão dos sinais dos tempos, o sensum fidei et fidelium.

É muito consistente a reflexão sobre o tema do poder, que aborda temas como a responsabilidade, os ministérios, a relação entre democracia e sinodalidade como princípio e estilo eclesial, a questão da liderança e da participação, integrando-se com propostas específicas relativas à figura do o bispo, à sua nomeação, ao exercício das suas responsabilidades, mas também à transparência das finanças e dos processos de decisão, aos mecanismos de supervisão e de garantias, até à proposta de um "conselho sinodal permanente" para a Alemanha, que leve adiante e verifique se as decisões tomadas no atual Caminho Sinodal são implementadas.

O documento sobre o sacerdócio é mais enxuto e parte do magistério conciliar e de uma reflexão sobre o ministério ordenado e os conselhos evangélicos para chegar ao tema da inculturação (com referência à Querida Amazônia), passando pelo conceito de "Christusrepräsentanz" do presbítero ("in persona Christi"). O tema é enorme, e o texto precisará ser revisado e completado significativamente, também à luz do contexto alemão específico.

O grupo de trabalho sobre o papel da mulher na Igreja ainda não apresentou o seu "texto básico", mas trouxe 5 indicações concretas à Assembleia, entre as quais o pedido de que os bispos alemães apresentem ao Sínodo da Igreja universal o pedido de reabertura da reflexão sobre as decisões magisteriais relativas aos serviços e ministérios das mulheres na Igreja. Uma proposta, por outro lado, diz respeito à questão da presença feminina nas instituições teológicas (faculdades, institutos de ciências religiosas), ou em relação à liderança das comunidades.

Por outro lado, o documento básico sobre moralidade sexual é encorpado; parte da discrepância entre o magistério e a vida dos fiéis, investiga suas origens, retoma o tema da sexualidade nas Escrituras, reformula muitos temas a partir daquele da responsabilidade ou da fecundidade, até incluir em termos de abertura os casais homossexuais ou em nova união, com coragem e delicadeza.

Para onde vai levar todo este enorme esforço de confrontação, discernimento e repensamento, certamente ainda deve ser compreendido. Enquanto isso, continua-se a caminhar. “Mesmo que no final do Caminho Sinodal acabe acontecendo uma série de reformas, isso não vai impedir automaticamente as pessoas que querem deixar a Igreja ou pôr um fim às crises de fé”, destacou lucidamente o presidente dos bispos Georg Bätzing. O que é igualmente claro, porém, é que “todas as questões levantadas têm a ver com a dimensão da fé e, portanto, com a existência da Igreja”.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Alemanha. Caminho sinodal. As reformas nascem da fé. Temas e propostas da II Assembleia presencial - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV