Por que católicos deveriam usar pronomes de gênero e nomes preferidos pelas pessoas. Artigo de Daniel P. Horan

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15 Outubro 2021

 

“A transfobia refletida em comportamentos como negar aos outros os direitos humanos fundamentais à agência pessoal e à auto-identificação não é compatível com a mensagem do Evangelho nem com a longa história de mudanças de nomes dentro da tradição católica que estão associadas ao discernimento religioso e ao aprofundamento do sentido de identidade perante Deus e os outros”, escreve Daniel P. Horan, frei franciscano, cátedra Duns Scotus de Espiritualidade na Catholic Theological Union, em Chicago, onde é professor de Teologia Sistemática e Espiritualidade, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 13-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Nomes exercem um papel importante na tradição católica. Na celebração do batismo, a primeira questão posta a seus pais é “Qual nome você vai dar à criança?”. Na crisma, é costume o crismando abraçar e selecionar o nome do santo padroeiro. Muitos membros de congregações religiosas adotam um novo nome como parte de sua profissão religiosa, mesmo quando seus nomes “legais” (nos documentos do governo, como certidões de nascimento) não refletem isso. Clérigos e religiosos assumem novos títulos e vocativos como “Padre”, “Irmã”, “Irmão”, “Bispo”, “Diácono”, etc. e esperam que os outros se dirijam assim.

O significado dos nomes, a mudança dos nomes e a importância de ser identificado pelo nome que se é preferido também está presente em toda a Bíblia. Desde Abrão para Abraão, e Sarai para Sara, às revelações angelicais sobre os nomes João e Jesus nos Evangelhos e à mudança de Saulo para Paulo no Ato dos Apóstolos, abraçar uma nova identidade enlaçada com uma nova expressão nominal é lugar comum e baseada em nossa tradição de fé.

Então por que há muita resistência e controle por alguns na Igreja – incluindo as escolas católicas – em usar os pronomes de gênero ou nomes de afirmação de gênero que os indivíduos preferem ser chamados, especialmente aqueles que são membros da comunidade LGBTQIA+?

Chamar os indivíduos pelos nomes e pronomes que eles preferem não apenas pareceria decente e respeitoso, o que seguiria a “regra de ouro” de fazer aos outros o que queremos que nos seja feito (Mateus 7, 12), mas também estaria alinhado com a importância que os nomes têm ao longo das escrituras e tradição cristã.

Eu recentemente participei de uma oficina sobre como instituições católicas de Ensino Superior pode apoiar melhor seus estudantes, funcionários e professores LGBTQIA+. Em um certo ponto da discussão, um outro participante da oficina fez um simples e profundo apontamento sobre o número esmagador de pessoas que requisitaram que ser chamadas de formas diferentes dos documentos e dos nomes de família.

Por exemplo, o nome que me foi dado é Daniel, embora eu geralmente atenda por “Dan” quando encontro alguém. Esse pode ser um ponto inconsequente, mas penso sobre como me desrespeitaria se eu me apresentasse a alguém e pedisse para ser chamado somente de Dan e a outra pessoa insistisse que eu somente poderia ser chamado pelo nome que aparece na minha certidão de nascimento ou algum outro nome, ou apelido que eu não escolhi.

Esse colega participante da oficina certamente notou que insistir em chamar indivíduos pelo nome que não escolheram, ou recusar-se intencionalmente a fazer referência a eles ou a chamá-los por seu nome ou pronome preferido, é rude e hostil.

Eu também acrescentaria que tal comportamento não é cristão e é pecaminoso.

Nomes tem poder, e o significado de chamar alguém e os outros não pode ser suavizado. Alguém pode pensar de outras formas ao longo da história que a recusa para reconhecer o nome preferido de um indivíduo ou a identidade autorreferencial era usada para impor poder de subjugação e resultou em desumanização.

Tome, por exemplo, a prática daqueles americanos que sequestraram e escravizaram africanos e os trataram como suas propriedades, sem direitos, história, agência ou nomes. No sistema desprezível do comércio americano de escravos, a prática comum era de escravizar o “nome” do escravizado, dando-lhe apelidos que eles não escolhiam.

Outra, mais contemporâneo exemplo é o que ocorre no noroeste chinês, onde a opressão à comunidade uigur, a minoria muçulmana da população na China, tem sido não apenas aprisionada em “campos de reeducação”, mas também forçada pelo governo a deixar de usar os nomes de origem muçulmana ou árabe.

Nenhuma pessoa decente contestaria que ambos os exemplos são claramente exemplos de violações dos direitos humanos. Então, por que tantos autoidentificados cristãos e, especialmente, lideranças pastorais católicas insistem em adotar práticas e políticas comparáveis?

Não tenho uma boa resposta para essa pergunta. Para ser honesto, fico continuamente perplexo – assim como meu colega participante da oficina – tanto com a arrogância quanto com a audácia daqueles que exigiriam tais práticas desumanizantes. Não só é desrespeitoso se recusar a chamar outra pessoa pelo nome ou pronome preferido, no caso de muitos cristãos que recusam esse ato básico de decência, é porque eles negam a própria existência e experiência de pessoas transgênero ou não-binárias.

A transfobia refletida em comportamentos como negar aos outros os direitos humanos fundamentais à agência pessoal e à auto-identificação não é compatível com a mensagem do Evangelho nem com a longa história de mudanças de nomes dentro da tradição católica que estão associadas ao discernimento religioso e ao aprofundamento do sentido de identidade perante Deus e os outros.

Francamente, não tenho certeza do que seria necessário para aqueles que deliberadamente ignoram as realidades e experiências de pessoas que são diferentes delas perceber o dano que estão causando. Talvez algum tipo de desobediência civil não violenta (ou melhor, eclesial) possa ajudar nossos irmãos cristãos – especialmente aqueles em posições de liderança e autoridade na Igreja – a sentir o gosto de seu próprio remédio e experimentar um pequeno pedaço de vergonha, desrespeito e a desumanização que tais práticas antiéticas impõem aos outros.

Como já deveria estar evidente nesta coluna, apoio totalmente todas as pessoas que são tratadas da maneira respeitosa e digna de sua preferência, e minha fé cristã me diz que isso também deve se aplicar a indivíduos e comunidades transfóbicas e mesquinhas, mesmo enquanto eles insistem em reter a dignidade básica e o respeito devido aos seus irmãos em Cristo.

No entanto, eu me pergunto o que isso pode significar para os bispos que desencorajaram os fiéis de usar os nomes e pronomes preferenciais de outras pessoas, ou os diretores das escolas que proíbem professores, funcionários e alunos de expressar seus nomes ou pronomes preferidos, ou qualquer outra pessoa em uma posição comparável a ser chamada por outros de algo que eles não escolheram e podem não gostar.

Afinal, se esses autoproclamados líderes religiosos estão exercendo a “regra de ouro”, devemos fazer com eles o que estão fazendo com os outros, certo? E se eles insistem que desrespeitar indivíduos e forçá-los a responder a nomes ou identidades que não são de sua escolha é o caminho “cristão”, então suponho que o mesmo bispo não se importaria se o chamássemos de “ela” ou “irmã Maria” em vez de “dom Fulano”. Ou, devemos insistir que a diretora da escola que prefere ser tratada como “Sra. Smith” seja chamada de “Bob” agora.

Obviamente, não acredito que infligir aos vitimizadores o mesmo dano que eles estão cometendo a uma população já vulnerável em nossas escolas, igrejas e comunidades seja o curso de ação correto. Como minha mãe costumava dizer aos meus irmãos e a mim enquanto cresciam: “Dois erros não fazem um acerto”.

Mas eu espero que aqueles que são rápidos em endossar tais políticas desrespeitosas e abusivas deem um passo atrás e pensem sobre como se sentiriam com tal experiência, se colocando no lugar dos estudantes, paroquianos e vizinhos que são tratados dessa maneira.

A tradição católica, que valoriza a importância e o poder dos nomes e da nomenclatura, também está firmemente comprometida – pelo menos em princípio – com a dignidade e o valor inerentes a todas as pessoas humanas. É uma desgraça contínua que tantos daqueles que se identificam como católicos usem nossa tradição de fé para rejeitar e apagar a autoidentificação de nossas irmãs, irmãos e irmanes em Cristo.

 

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