Presença do pastor Amilton na CPI da Pandemia envergonha evangélicos

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10 Agosto 2021

 

O depoimento do reverendo Amilton Gomes de Paula, presidente da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) e intermediário na venda de 400 milhões de doses da vacina Astrazenica ao Ministério da Saúde, foi um dos momentos mais patéticos no reinício dos trabalhos da CPI da Pandemia.

A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista. 

O pastor foi desmascarado, fez um teatrinho ao chorar lágrimas de crocodilo, dizendo-se arrependido de ter entrado nessa negociata, na qual a entidade que preside foi usada por picaretas, alegou. Amilton admitiu, no entanto, que a Senah ganharia um comissionamento com a venda das vacinas, embora não tenha falado em valores. Justificou-se, alegando que estava prestando ao Brasil uma “ajuda humanitária”.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) não se deixou convencer: “Não tem nada de humanitário nesta malandragem, nada. O objetivo aqui era financeiro, escamoteado com o nome de doação... Enquanto as pessoas estavam morrendo, vocês estavam atrás de vantagem financeira”, denunciou.

A Senah se apresentava inclusive com logos da OAB, CNBB, brasão da República, como uma entidade vinculada à ONU. Concedia títulos de “embaixadores da paz” a pessoas que entendia merecedoras, como o instrutor de tiro, sócio e vice-presidente do clube de tiro GSI, do Distrito Federal, Carlos Alberto Rodrigues Tabanez.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) apontou que o próprio nome da “Secretaria Nacional” pode apontar para uma falsidade ideológica e o uso indevido de outras siglas leva à suspeita de estelionato.

Os repórteres Alice Maciel e Bruno Fonseca, da Agência Publica, visitaram o endereço onde a sede da Senah estaria localizada em Brasília e depararam-se com um prédio destinado a outra finalidade. Num vídeo institucional, contam, a organização é apresentada como o maior projeto de humanização do mundo.

Alice e Bruno encontraram um ex-funcionário da tal entidade. “Na realidade, a Senah nunca funcionou”, relatou o auxiliar de cozinha William Cosme de Sousa que, junto com a sua mãe, trabalhou um mês e meio para o reverendo, contratados que foram para prepararem almoços na “Embaixada Humanitária pela Paz” antes da sua inauguração em 24 de outubro de 2019. William e mãe deixaram o emprego porque não receberem o salário devido e acionaram a entidade na Justiça.

A reportagem da Publica procurou a OAB-SP, uma vez que a Senah destacava entre seus parceiros a Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da ordem paulista. Ouviu como reposta enfática que Amilton não é membro da Comissão e está usando indevidamente o logo da Comissão, “passível até de ação judicial”. Também a Comissão Nacional de Justiça (CNJ), com seu slogan timbrado nos papéis da Senah, informou que não tem nenhuma parceira ou relação com essa instituição.

A Senah se apresentava, ainda, como afiliada ao Conselho Consultivo da ONU, o Ecosoc. A Publica consultou lista com quase 6 mil entidades vinculadas ao organismo internacional sem achar o nome da Secretaria fantasma.

Outra descoberta da Publica registra a relação de Amilton com quatro empresas nos Estados Unidos, entre elas a DFRF Golden Angel Humanitary Foundation, registrada em maio de 2021, e indicando como endereço a residência do pastor em Deerfield Beach, cidade à beira-mar, na costa da Flórida. A Golden se define como provedora de “bens e serviços para os menos afortunados”.

Fato é que a presença desse pastor picareta na CPI da Pandemia envergonha todo o ramo evangélico do cristianismo. A grande parcela dos que assistiram as mentiras do pastor ao vivo, no dia 3 de agosto passado, certamente não faz distinção entre igrejas evangélicas históricas, protestantes, missionárias, pentecostais, neopentecostais e de fachada. Para muitos brasileiros e brasileiras “é tudo farinha do mesmo saco”.

Por outro lado, fica uma ponta de expectativa que aparições massivas como o acompanhamento da mídia das sessões da CPI da Pandemia possam contribuir para separar o joio do trigo. E tem joio a ser jogado fora. A iniciar pelos vendedores de ilusão, amparados na Teologia da Prosperidade, nos vendedores de sementes de feijão abençoado, curadores que enganam pagadores de dízimo, exploradores do povo humilde, “pregadores do Evangelho” proprietários de mansões, aviões e redes de comunicação.

Foi humilhante o pastor ter que ouvir do presidente da CPI, senador Omar Aziz, uma passagem do Salmo que denuncia o mentiroso. Na última coluna do escritor Umberto Eco, publicada no jornal New York Times em 25 de fevereiro de 2016, logo após a sua morte, o autor de O Nome da Rosa destacou: “Descrever conhecidos malfeitores como tendo apenas cometidos ‘erros’ é um eufemismo despudorado que atenua a responsabilidade deles por sua ações, como se fossem crianças que somaram descuidadamente dois mais dois para chegar a cinco. É criminoso chamar um crime evidente de ‘erro’”.

Há pouco tempo, dizia-se: “O fulano é evangélico, é honesto, leal. Pode confiar nele cegamente”. Hoje, a ganância e a sede de poder arruinaram a marca.

 

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