Como o tempo mudou devido ao digital em mais de meio século? Artigo de Luciano Floridi

Foto: Pxfuel

28 Julho 2021

 

Há o tempo da física, da metafísica e o da experiência cotidiana, onde a latência se torna mais importante do que as distâncias físicas.

 

A opinião é de Luciano Floridi, filósofo italiano e professor de Ética da Informação na Universidade de Oxford. O artigo foi publicado por Corriere Innovazione, 26-07-2021. A tradução é de Anne Ledur Machado.

 

Eis o texto.

 

Ano de 1972: é lançado o primeiro relógio de pulso digital comercial, o Hamilton Pulsar P1. No ano seguinte, James Bond usava o modelo P2 em “Viva e deixe morrer”. Desde então, quantificamos o tempo de um modo muito preciso. Hoje, os ponteiros dos relógios smart restituem uma displicência saudável, mas o sistema automático me avisa que a encomenda será entregue entre 10h38 e 11h38. Os computadores não brincam e não arredondam. Obviamente, o entregador chega quando quer.

 

Como o tempo mudou devido ao digital neste meio século? Há o tempo da física, de que fala Einstein. Há o tempo da metafísica, de que fala Heidegger. E há o tempo da experiência cotidiana, o do entregador, de mim que o espero e de que também fala o Qoelet (Eclesiastes) na Bíblia, que nos lembra que “debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa” (Qoelet 3,1), até mesmo para os pacotes postais. É esse tempo experiencial que o digital está transformando profundamente.

 

 

A história começa há muito tempo. Durante milênios, usamos o espaço para medir o tempo. A sombra dos obeliscos e das meridianas, o fluxo da água ou da areia nas ampulhetas, a oscilação do pêndulo ou do barril com mola de retorno nos relógios mecânicos são todos sistemas que usam o espaço para medir a duração do tempo (o trem chega ao destino uma hora após a partida), para estabelecer quando as coisas ocorrem (o trem sai às 10h30) e para nos sincronizar (nos vemos às 10h na estação).

 

A continuidade do tempo logo foi organizada através da continuidade do espaço, quantificada, por sua vez, com o sistema sexagesimal (razão 1/60 entre a unidade de medida e o seu submúltiplo, pensemos na hora, nos minutos e nos segundos). Hoje, estamos tão acostumados a tratar o tempo como espaço e o espaço temporal como uma quantidade numérica que muitas vezes não distinguimos entre a experiência e a medição do tempo, admirando-nos que a hora no trem durou um instante para Lúcia e uma eternidade para Enzo.

 

 

Até aqui, nada de novo, basta ler Bergson. As coisas começaram a se complicar com a chegada do digital. Há mais de meio século, o digital está transformando a relação entre espaço e tempo, porque está modificando profundamente uma terceira variável: a velocidade dos processos de comunicação (transferir algo) e de manipulação (transformar algo).

 

A tendência já estava em curso, desde que a evolução dos transportes tornou as distâncias cada vez mais curtas e, portanto, é cada vez mais natural pensar o espaço em termos de tempos de trajeto. Uma vez que é possível dar a volta ao mundo em 80 dias, torna-se intuitivo inverter a relação e usar o tempo para medir o espaço.

 

 

Hoje, é o ETA (Estimated Time of Arrival, tempo estimado de chegada) que importa, não a quantos quilômetros você mora do centro, por exemplo. Ou pensemos na 15-minute city, que define o espaço urbano com base no tempo necessário para chegar a pé ou de bicicleta nos serviços essenciais.

 

Mas até aqui o digital ainda faz parte de uma tendência moderna. A verdadeira novidade é que o digital introduziu um dos conceitos mais interessantes e influentes hoje para entender o tempo da experiência cotidiana, o de latência.

A latência indica a velocidade de resposta de um sistema, ou seja, quanto tempo passa entre um input e o correspondente output, por exemplo, entre apertar uma tecla do teclado e ver a letra aparecer na tela (menos de 40ms, se for um bom teclado). A latência une os conceitos de comunicação (quanto tempo leva para que um sinal chegue e volte ao ponto de partida) e interação (o retorno do sinal indica a possível mudança produzida pelo sinal) com o de causalidade: eu faço algo aqui mudar algo ali, percebendo a mudança.

 

 

Basta pensar nisso por um momento. Imaginemos o fato de jogar uma bola de tênis contra um muro. A sua latência (quanto tempo leva para ela voltar) é alta, a ponto de nos permitir pegá-la com facilidade no seu retorno. Agora, imaginemos que a bola faça o trajeto de ida e de volta cada vez mais velozmente. Haverá um momento em que será difícil pegar a bola, que volta para nós em tempos cada vez mais curtos, mas, em um certo ponto, se a velocidade aumentar ainda mais, será muito fácil “pegá-la”, porque se tornará impossível fazê-la sair da nossa mão, ou, para sermos mais precisos, ter a clara sensação de que a bola saiu da nossa mão, pois a bola voltará para nós em milésimos de segundo (ms).

 

É o que ocorre quando jogamos online: parece que “estamos lá” (telepresença), porque o nosso aparelho sensorial percebe interações abaixo de 100ms de latência como imediatas, no sentido etimológico de não serem mediadas por mais nada. É o que se chama de tempo real, ou seja, tempo (às vezes apenas aparentemente) não mediado.

 

Se a latência for suficientemente baixa, um cirurgião pode operar a milhares de quilômetros de distância, controlando um robô em tempo real, tendo a sensação de estar presente na sala operatória. É a transformação provocada pelo 5G, que tem uma latência de 10 a 30ms (a do 4G é de cerca de 50 ms).

 

 

Baixa latência e alta velocidade se traduzem não apenas em telepresença – não importa mais onde estamos situados fisicamente para podermos interagir como se estivéssemos presentes em outro lugar – mas também em tempos de trajeto de bolas de tênis cada vez mais pesados, para continuar com a mesma analogia. Em velocidades extremas, torna-se cada vez menos importante quantos bits devem ser transferidos. Com o 5G, podem ser transmitidos de 50 Mbit a um Gigabit por segundo. É a baixa latência que torna a Netflix possível.

 

Na infosfera, a latência é a verdadeira medida do espaço em que vivemos. Uma latência alta demais significa viver na periferia, e uma latência muito baixa (tudo à distância de um único clique imediato) significa viver no centro (telepresença). A latência zero por toda a parte é a definição de onipresença. Passamos à velocidade da manipulação. Os cientistas da computação não falam assim, mas, filosoficamente, essa também é uma questão de latência, neste caso relativa ao tempo de transformação de dados em informações.

 

Quando Turing precisava decifrar as mensagens secretas do exército alemão, um dos principais problemas era o tempo. É inútil decifrar uma mensagem quando o evento ao qual se refere já ocorreu, exatamente no mesmo sentido em que é inútil trabalhar 72 horas para prever o tempo do dia seguinte. A solução é o Colossus, o computador que Turing ajudou a projetar, capaz de realizar até 100.000 instruções por segundo (ISP).

 

Hoje, um PC comum com um processador do tipo Ryzen (produzido pela AMD) completa 2.356.230 milhões de instruções por segundo (MIPS). “Torna o tempo irrelevante”, como diz a própria propaganda da AMD. É somente com essa baixa latência entre input e output que a inteligência artificial pode funcionar, muitas vezes melhor do que nós, por exemplo quando os tempos de reação devem ser imediatos (no sentido de não mediados, ou seja, em tempo real, como vimos acima), basta pensar nos mercados financeiros.

 

 

A disponibilidade da computação quântica será mais um salto na história da latência, tornando possíveis cálculos e simulações irrealizáveis de outra forma. Ainda em 2019, o computador quântico do Google era 158 milhões de vezes mais rápido do que o mais rápido dos supercomputadores clássicos. O futuro pertence a quem o pode simular.

 

É claro que o digital é uma tecnologia do tempo mediado (unreal time), que permite estar telepresente, fazer mais coisas ao mesmo tempo (multitarefa), transformar cada vez mais dados nas informações que queremos e simular o possível. Por isso, está mudando a experiência do tempo. E devemos refletir sobre esse tempo mediado, para entender como queremos poupá-lo (pensemos no trabalho), como queremos melhorá-lo (pensemos na saúde) e como queremos utilizá-lo (pensemos no entretenimento).

 

Devemos agir com pressa, porque não há tempo a perder, mas com cautela, porque são questões fundamentais. “Festina lente”, se diria no passado.

 

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