Uma Igreja em crise. Entrevista com Georg Bätzing, presidente dos bispos alemães

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10 Junho 2021

 

Entre investidas opostas, o cardeal Reinhard Marx renuncia. A revista Il Regno, 05-06-2021, traduziu ao italiano a entrevista que o presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, Georg Bätzing, concedeu ao canal de TV alemão Ardmediathek.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

O cardeal Marx informou sobre a sua renúncia na última sexta-feira. O senhor ficou surpreso?

Sim, foi uma grande surpresa, até mesmo um choque... Estou consternado. Naturalmente, existe respeito e todo um conjunto de sentimentos. Afinal, o cardeal havia manifestado, há algum tempo, que algo estava fermentando e amadurecendo nele.

Acha que as pessoas ficaram decepcionadas?

Acho que esse é o sentimento de muitas católicas e católicos na Alemanha: o cardeal Marx representa o exame sério das questões sobre a mesa, das crises que a Igreja está enfrentando, e representa a tentativa de dar respostas novas. Estou consternado porque o cardeal Marx foi quem, como um motor, pôs em movimento o Caminho Sinodal, levou as suas reivindicações várias vezes a Roma e manteve os contatos. Certamente, não conseguiremos continuar sem a sua voz, a sua força, até mesmo a sua força intelectual. E espero que não tenhamos que fazer isso, mesmo que ele não seja bispo mais bispo de Munique-Freising.

O cardeal Marx fala de representantes da Igreja que não querem aceitar a corresponsabilidade e a culpa da instituição em relação à violência sexual do clero contra os menores e rejeitam qualquer tipo de reforma. É um ataque frontal ao cardeal Woelki?

Foi uma decisão soberana, humanamente forte e espiritualmente corajosa. Para a Arquidiocese de Colônia (onde o cardeal Rainer Maria Woelki enfrenta acusações sobre a sua gestão dos casos de violência sexual e onde está iniciando atualmente uma visita apostólica enviada pelo Papa Francisco), essa possibilidade de uma decisão livre e soberana está obviamente superada. Agora, lá, aplicam-se leis diferentes, uma visita apostólica está em curso. O momento passou.

O cardeal Rainer Maria Woelki sempre se opôs ao Caminho Sinodal. Hoje, ele ainda pode desempenhar um papel de primeiro plano em uma Igreja que precisa se renovar?

Ele mesmo tem que decidir, agora que outros sujeitos entraram em jogo, como os visitadores apostólicos e o Papa Francisco. É claro que todos aqueles que pensam que a Igreja pode sair desta enorme crise com alguns ajustes cosméticos, de natureza externa, jurídica, administrativa, se enganam. Percebeu-se na Igreja tal falha sistêmica que só pode haver respostas sistêmicas, e essas respostas devem ser fundamentais. É essa mensagem que o cardeal Marx envia hoje muito claramente e que nos fortalece na realização do Caminho Sinodal.

Pode recordar os temas do Caminho Sinodal?

Discutimos sobre a questão do poder e da violência, uma nova relação da Igreja com o poder, a separação dos poderes. Existem muitas possibilidades. O poder episcopal, por exemplo, tem algo de monárquico, de tempos passados. Agora, há a necessidade de controle em todos os níveis do exercício do poder na Igreja Católica. Certamente, o poder deve existir, caso contrário não há possibilidades criativas, mas esse poder deve ser controlado. Depois, há o tema do clericalismo. Aqui também é preciso aprofundar o poder presbiteral, contê-lo, considerar as coisas com atenção. É uma questão muito importante. E, depois, a questão das mulheres na Igreja: devemos progredir na paridade de direitos para as mulheres em todos os níveis da vida da Igreja, e isso não termina na fronteira do ministério sacramental. Acredito e espero nisso.

Quando o tabu sobre a sexualidade dos padres começará a ser quebrado?

Não é um tabu. Esse tema ressoa em todas as existências e decisões pessoais, desempenha um papel na formação sacerdotal, mas a pergunta é se o estilo de vida celibatário dos padres católicos tem ligação com as violências sexuais. As pesquisas dizem que não há uma conexão direta, mas o celibato coloca o padre em uma situação fora do comum, muitas vezes ligada à solidão, que pode ocasionar situações que podem levar a violências. E temos que falar sobre isso, e falamos sobre isso, porque um dos fóruns do Caminho Sinodal é dedicado a isso.

E o senhor acha que é preciso superar o celibato?

Pessoalmente, sou um defensor do celibato como estilo de vida de Jesus. Um padre que vive o celibato de modo credível, como testemunho de estar ao lado do povo, é uma bênção para a Igreja e para a humanidade. Mas nem todos podem fazer isso, e, portanto, essa é a pergunta que devemos nos fazer: “O celibato deve necessariamente estar ligado à ordenação sacerdotal?”. Não é necessário. A Igreja também sabe disso. Mas há decisões a serem tomadas.

O senhor subscreveria a afirmação do cardeal Marx de que a Igreja hoje está em um ponto morto?

Sim. O cardeal Marx cita aqui Alfred Delp. Estamos em um ponto de crise fundamental das Igrejas, uma crise de credibilidade. Trata-se de problemas de natureza sistêmica, que devem ser resolvidos em nível sistêmico.

 

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