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12 Março 2021

Publicamos o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 4º Domingo da Quaresma, 14 de março de 2021 (João 3,14-21). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

No domingo passado, ouvimos no quarto Evangelho o anúncio de que Jesus agora é o templo de Deus, isto é, o lugar da comunhão com Deus (cf. Jo 2,19.21). E vimos mais uma vez como a leitura do quarto Evangelho requer um esforço maior para a compreensão do Evangelho, da boa notícia nele contida.

Hoje, eis-nos novamente diante de outra passagem do Evangelho joanino, um texto difícil em muitos aspectos: João, de fato, tem uma visão que deve ser captada para além daquilo que ele escreve, uma visão mais profunda, que não é – poderíamos dizer – a nossa visão humana, mas pertence apenas a quem tem fé em Jesus, portanto uma visão inspirada pelo olhar de Deus sobre a história de Jesus.

João foi testemunha da paixão e morte de Jesus no Gólgota, naquela sexta-feira, véspera da Páscoa, 7 de abril do ano 30 da nossa era. Ele viu o sofrimento de Jesus, o desprezo que ele sofreu por parte dos carnífices e, sobretudo, aquele suplício vergonhoso e terrível – “crudelissimum taeterrimumque supplicium”, como define Cícero (Contra Verre II,5.165) – que era a cruz. Ele viu essa cena com seus próprios olhos, mas, depois da ressurreição de Jesus, na fé plena, na contemplação e meditação desse evento, passa a lê-lo de outro modo em relação aos Evangelhos sinóticos.

Naqueles Evangelhos, Jesus havia anunciado por três vezes a “necessidade” da sua paixão, morte e ressurreição, e por três vezes tal anúncio aterrorizou os discípulos (cf. Mc 8,31-33 e par.; 9,30-32 e par.; 10.32-34 e par.). O quarto Evangelho também atesta que, por três vezes, Jesus falou dessa necessitas, mas o faz com outra linguagem: aquilo que nos sinóticos é infâmia, tortura, suplício na cruz, para João se torna, em vez disso, uma “elevação”, isto é, uma glória.

No nosso trecho, ressoa o primeiro dos três anúncios de Jesus: “é necessário que o Filho do Homem seja levantado”. Efetivamente, Jesus, pendurado no lenho, foi levantado da terra, mas, para João, essa elevação da terra não é redutível ao levantamento físico do seu corpo na cruz, mas é um ser elevado gloriosamente e colocado no alto por Deus, um ser glorificado, isto é, revelado na sua glória. Para João “ser elevado” (verbo hypsóo) é também “ser glorificado” (verbo doxázo: cf. Jo 7,59; 8,54, etc.), estar na cruz é estar à direita do Pai.

Por isso, Jesus também diz: “Quando levantarem o Filho do Homem”, ou seja, quando o tiverem colocado materialmente na cruz, “saberão que Eu Sou (egó eimi: cf. Ex 3,14)” (Jo 8,28), que eu sou como Deus. E ainda: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Essa hora da elevação, portanto, é a hora da glorificação (cf. Jo 12,23; 13,31-32), a hora na qual Jesus atrai a si toda a humanidade (cf. Jo 12,32), a hora da paixão e da cruz. No quarto Evangelho, paixão e Páscoa são o mesmo mistério, único e inseparável, e a hora da paixão é a hora da epifania do amor.

Sim, devemos confessar que esse olhar joanino sobre a cruz não é facilmente aceitável por nós, humanos, mas essa é a verdadeira e profunda compreensão da cruz de Jesus: a cruz foi materialmente um suplício, mas também foi um levantamento do véu sobre como Jesus “amou os seus até ao extremo (eis télos)” (Jo 13,1); foi uma morte de alguém amaldiçoado por Deus e pelos homens (cf. Dt 21,23; Gl 3,13), crucificado no meio do ar porque Jesus não era digno nem do céu nem da terra, mas, precisamente na cruz, ele reconciliava céu e terra, fazia cair todas as barreiras e abria o Reino para a humanidade, levando a humanidade para Deus (cf. Ef 2,14-16). Sobre a cruz, morria um homem sozinho e abandonado, mas esse homem narrava que “o maior amor é dar a vida pelos amigos” (cf. Jo 15,13).

Essa é a leitura paradoxal da cruz feita por João. Esse é o Evangelho que Jesus revela a Nicodemos, um especialista nas Escrituras que Jesus, porém, define como “ignorante” (cf. Jo 3,10): um “mestre em Israel” que não conhece a ação de Deus na sua verdade profunda. Para tentar lhe explicar essa “necessidade” da paixão e morte do Messias, Filho do homem, Jesus tenta uma comparação com um fato ocorrido em Israel no deserto, após a saída do Egito. De acordo com o livro dos Números, os judeus foram atacados por serpentes mortíferas, e então Moisés ergueu uma serpente de bronze em uma haste: quem a olhasse, mesmo que mordido pelas serpentes, permanecia com vida, era salvo (cf. Nm 21,4-9). Esse antigo relato é reinterpretado pelo livro da Sabedoria, que faz outra leitura do evento, captando na serpente “um sinal de salvação” (Sb 16,6): “Quem se voltava para o sinal era salvo, não pelo que via, mas graças a ti, o Salvador de todos” (Sb 16,7).

Jesus, portanto, revela “as coisas do céu” (Jo 3,12) das quais ele falara a Nicodemos, expressando a necessitas da elevação do Filho do homem, “para que todo o que nele crê não morra, mas tenha a vida eterna”: elevação do Filho único de Deus, dado por Deus ao mundo precisamente por causa do seu amor pelo mundo, ou seja, por toda a humanidade.

Deus é aquele que ama, Deus é aquele que dá o seu Filho único, Deus é aquele que o eleva. Nessas ações de Deus, conta-se o seu amor: portanto, a descida do céu (cf. Jo 3,13), a encarnação em uma vida humana, a paixão culminante na elevação na cruz são a manifestação do amor de Deus pela humanidade.

Devemos estar muito atentos e vigilantes na escuta: as palavras de Jesus a Nicodemos não indicam a cruz como abandono do Filho à morte por parte do Pai, mas nos revelam um amor único do Pai e do Filho por toda a humanidade. O Filho Jesus Cristo, precisamente como dom para a humanidade, viveu a sua existência dando a vida, suscitando a vida, transmitindo a vida. O Pai, por sua vez, não quis a descida do Filho e a sua encarnação para julgar o mundo, mas para o salvar por meio da adesão e da resposta ao amor.

A presença de Jesus exige que cada um faça agora a sua escolha, porque agora ocorre o juízo, porque agora, diante de Jesus, é possível escolher as trevas ou a luz, que não são um destino, mas dependem de cada um de nós ao nos defrontarmos com o amor revelado.

Aqui se ofusca o ministério da incredulidade, que não é a rejeição de uma doutrina, de uma ideia ou de uma moral, mas é algo muito mais radical: é rejeição da confiança, rejeição da esperança, rejeição do amor. Sim, por um lado, está o amor incondicional de Deus, oferecido a todos os seres humanos e mostrado no dom do Filho único feito homem para ser um de nós e viver entre nós e conosco; por outro lado, há da nossa parte a possibilidade de responder ao amor com amor ou, pelo contrário, de rejeitar o amor, de não acreditar no amor e, assim, de nos excluir, colocando-nos nas trevas do ódio e da morte. No quarto Evangelho, a fé e o crer são sempre uma obra de amor, como dirá Jesus: “Esta é a obra, a ação exigida por Deus: crer naquele que ele enviou” (Jo 6,29).

Eis, portanto, o caminho traçado diante de nós: quem faz a verdade, isto é, quem sabe responder ao amor com ações, manifesta que essas ações são realizadas pelo próprio Deus nele. Assim, o fiel já vive agora a “vida eterna”. “Deus quer que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2,4), proclama o apóstolo Paulo; quer que todos “tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso Deus doa a si mesmo, seu próprio Filho único e amado, ao mundo que anseia pela salvação.

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