Sentimentos do nosso tempo: isolamento

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05 Janeiro 2021

"Em seu isolamento, você aprende, de uma vez por todas, a assumir a dor do mundo não em teoria (como nós, padres, muitas vezes fazemos), mas de uma forma muito concreta e com sua cota de dor. Não desperdice todo esse tempo sentindo pena de si mesmo, não o desperdice procurando conforto nos seus 'contatos', como um adolescente que não quer crescer", escreve Amedeo Cencini, canossiano, psicólogo e psicoterapeuta, em artigo publicado por Settimana News, 28-12-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Um preso condensou sua experiência pessoal em alguns pensamentos. Pode se tornar útil para padres forçados ao isolamento pela Covid-19.

Ninguém entende do assunto como um detento, por dura experiência pessoal. Ainda mais se ele, agora livre, estiver novamente trancado em um quarto por causa da Covid. Parece ser o mais "autorizado" a dar conselhos sobre o isolamento, em primeiro lugar aos seus ex-colegas de prisão; mas não só.

Portanto, cito (em itálico e com alguns ajustes editoriais) seu... quase decálogo laico, com meus comentários, mas imaginando que estou me dirigindo a um padre em isolamento (por Covid, não por detenção).

- “Lembre-se de que, enquanto você está confinado, isolado, mesmo que esteja na enfermaria, há pessoas em outros lugares perto da morte”.

Não é muito adequado se consolar pensando em quem está pior do que você. No máximo, pense que agora a vida o coloca em posição de com-padecer (= sofrer-juntos, não apenas se lastimar) a solidão não só daqueles que estão em tratamento intensivo, mas daqueles que perderam um amor ou a esperança, ou mesmo não podem ver seus filhos, ou daqueles que foram traídos ou afastados, ou obrigados a fugir de sua terra ...

Em seu isolamento, você aprende, de uma vez por todas, a assumir a dor do mundo não em teoria (como nós, padres, muitas vezes fazemos), mas de uma forma muito concreta e com sua cota de dor. Não desperdice todo esse tempo sentindo pena de si mesmo, não o desperdice procurando conforto nos seus "contatos", como um adolescente que não quer crescer. Aceite esse isolamento providencial para se desapegar daquela autorreferencialidade regressiva que mortifica o seu ser-para-os-outros.

- “Nunca conte regressivamente, esqueça qualquer possível data de final da pena porque os magistrados e o destino podem brincar com você, encontrar mil motivos para adiar sua soltura ainda mais”.

Não discuta com a solidão, pode ser um tempo precioso. Por exemplo, exercitar a autonomia, aprender a ficar de pé pelas próprias pernas, livre, e assim viver melhor as relações. Tudo, aliás, depende do significado que você der a ela: se a solidão é apenas a ausência do humano, então se torna insuportável, se em vez disso você a descobrir como presença do divino ela se enche de luz e calor, você não está mais sozinho e seu coração se torna "uma ilha de Deus, uma filial do céu” (Rilke).

E vão ressoar como novas palavras já conhecidas, mas talvez nunca ouvidas assim ... de perto e só para você: "Tu és meu filho, sempre te amei e para sempre, tu és a minha alegria ...". Você já chorou por essas palavras?

- “Os dias não devem lhe ‘parecer’ todos iguais, ‘devem’ ser todos iguais. Qualquer variação pode complicar seu equilíbrio. Leia, faça ginástica ou descanse… Mas que tudo seja regulado”.

Finalmente é você quem pode dar uma estrutura precisa ao seu dia, aproveite! Dê a si mesmo um ordo, não apenas um horário; uma disciplina personalizada, como uma norma que se inspira na forma que você quer adquirir, aquela dos sentimentos do Filho, o belo Pastor. Com paciência e regularidade e, de uma vez por todas, fazendo as coisas com calma e saboreando o seu sentido.

O ascetismo dos gestos repetidos, se motivado e constante, é uma abertura à mística dos gostos evangelizados. É ascensão humilde e “pobre”, mas aos poucos irá lhe doar uma riqueza inestimável: o sabor das coisas de Deus e a liberdade de fazer tudo por amor. E esta é a substância que fica para você, além da quarentena!

- “Aprenda tudo que você não conhecia”.

Aprenda, por exemplo, a buscar Deus até na rarefação relacional, na inatividade, no deserto… Não parece uma escola muito popular entre nós. Mais concretamente, recolhi nesta pandemia o desabafo de vários padres, com stress-de-inércia (pastoral): “falta-nos o apostolado direto!”, eles me explicam.

Mas, se realmente você sente falta, porque não aproveitar os espaços finalmente livres, no seu dia, para inventar-experimentar novas abordagens, imagens, parábolas, sistemas de comunicação, modos mais ou menos loucos e geniais, modernos e inéditos, digitais ou tradicionais ... de anunciar Jesus como o que há de mais belo no mundo…? Caso contrário, esse desabafo não é credível e a você realmente não falta nada. Você deve saber, creio eu, que a criatividade não está ligada ao QI, mas à paixão do coração.

Chega daquela mesmice medíocre e contagiosa (muito mais que a Covid), deprimida e deprimente de quem só consegue copiar dos outros porque não tem nenhuma paixão no coração. Se você está apaixonado pelo Senhor Jesus, encontrará uma ideia para fazê-lo amar.

“Não fique lembrando e fantasiando, viva no presente, mesmo que seja feito de pouco ou nada”.

É na sua vivência atual, agradável ou não, que aquele que Eternamente chama está lhe chamando, e lhe doa/pede algo sempre novo, que talvez você não entenda logo de imediato: é normal. Mas não é uma boa razão para fugir daquele evento, mesmo que não coincida com o seu desejo. Nem de pensar que o seu presente é "feito de pouco ou nada", tempo perdido e inútil ...

Fique tranquilo: mesmo essa aparente improdutividade é um mistério "cheio de graça". Aceite, não amaldiçoe, ela purifica você e concentra no essencial, que é o seu nada cheio de Deus. Nem todos sabem que o nosso é um Deus singularmente atraído pelo nada e que faz grandes coisas em quem aceita o seu nada.

- "Lembre-se, no entanto, de que você não é inocente".

Calma, aqui não vamos falar de culpa (ou complôs), você deveria simplesmente entender que também tem sua parte nesta infecção e que seria tolice continuar com estilos de vida irresponsáveis e egoístas.

Não podemos e você não pode continuar a correr e correr, para soltar missas apressadas e gerir reuniões após reuniões, para chegar - sem fôlego - em todo lugar e responder a todos, num mundo e às vezes numa pastoral, marcados pelo excesso: muita pressa, muito barulho, muita visibilidade, muito social, muito (dom) Narciso...

- "A fé ajuda, mas ou você a tinha antes ou não vale".

Pregações bonitas para aqueles que pregam a fé aos outros e consideram a própria fé como garantida! E também correm o risco de (ab)usar (da) fé, e (de) Deus, para conseguir - como se fosse uma recomendação - evitar as distorções e aporias da vida; ou se enganam, dizendo que acreditam em Deus, mas sem ter ainda aprendido a confiar no Pai, ou dizem que confiam em Deus, mas não nos homens e na vida. Essa fé "não vale", não é fé...

Mas, se você aprender a combinar fé e confiança, então vai olhar para o futuro com a certeza de que Deus é fiel e não vai lhe deixar na mão, porque - bom para você - ele é fiel às suas promessas (não às suas pretensões). Não há certeza mais luminosa do que essa, capaz de iluminar a noite mais escura e servir de companhia à solidão mais vazia.

- “Vai acabar e, quando acontecer, abaixe a cabeça, agradeça e vá”.

Maravilhosa lição de estilo de quem poderia até estar um pouco zangado com a vida. Quatro verbos cheios de sentido e luz.

Vai acabar: claro, mas não porque “tudo vai ficar bem” e você vai superar mais essa, só vai acabar para você quando descobrir o quanto a sua solidão foi preenchida com a graça e a ternura divinas.

Abaixe a cabeça: essa pandemia o humilhou? Bem, aceite então que você é vulnerável, que você sentiu de perto a exiguidade de sua fé, que você olhou na cara os seus medos, que você clamou ao Senhor por sua impotência... É nesse grito que nasce a verdadeira fé, inclusive a de um padre.

Agradeça, porque o seu limite se tornou a porta de ingresso de Deus na sua vida.

E vá: vá e conte tudo aos outros, a começar pelos seus companheiros padres, para aqueles que ainda não sabem o quanto Deus pode preencher a solidão e romper o isolamento, o único que pode saciar a sede infinita de amor do coração.

"Tente com a telepatia, mas com uma só pessoa".

Esse convite me surpreendeu, mas se telepatia, na realidade, quer dizer comunicação metassensorial de pensamentos, sentimentos, humores com alguém mesmo à distância, então existe uma telepatia na vida do padre, aquela com Deus (e só com ele!), aliás, a teo-patia.

Um termo que realmente é pouco usado, mas que fala do âmago do seu mistério, se é verdade que o sacerdote é "um homem de carne, mas com uma extensão no mistério" (padre Fuschini).

Se você é chamado para representar Deus, não pode pensar que para isso basta realizar algumas ações (sagradas) e talvez ter certo prestígio, como faziam os nossos ... padres errados (os sacerdotes do Templo, fariseus e escribas); se você é chamado a ter a mesma paixão de Deus, o seu idêntico pàthos, seus gostos e desejos, sentimentos e sensibilidades, tão estupendamente manifestada na vida terrena do Filho, especialmente na sua paixão.

Não se contente em estudar a teo-logia, nem pretenda a teo-fânia, mas peça a graça da teo-patia, para entrar no mundo extraordinário do Eterno. Que lhe faz pensar os pensamentos de Deus, ver com seus olhos, escutar com a sua compreensão, comover-se com suas entranhas, chorar suas lágrimas, amar com seu coração, acariciar com suas mãos ... Grande mistério!

Existe algo mais belo?

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