A transformação da sexualidade como sinal dos tempos. Cinco pontos para reflexão (parte 1). Artigo de Andrea Grillo

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19 Novembro 2020

“A sociedade moderna se distingue das formações sociais anteriores por um duplo incremento: uma maior possibilidade de relações impessoais e relações pessoais mais intensas” (Niklas Luhmann, “Amore come passione”).

Essa é a frase que encabeça a reflexão do teólogo italiano Andrea Grillo, em um artigo em duas partes publicado por Vino Nuovo.

O texto abaixo é a primeira parte da reflexão, 16-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O debate em torno das “uniões civis”, suscitado pelas fragmentárias palavras do Papa Francisco no famoso documentário, junto com a aprovação na Itália do decreto contra a “homofobia”, abriram um diálogo importante, do qual relato aqui dois exemplos significativos: por um lado, em Vino Nuovo, houve a discussão entre Gilberto Borghi e Gabriele Cossovich, à qual remeto [disponível em italiano aqui]. Trata-se de um diálogo aberto, cortês, no qual se confrontam duas leituras diferentes sobre o tema, com implicações e consequências diferentes.

Poucos dias antes, no Facebook (e depois no seu blog), Riccardo Larini [teólogo italiano, ex-monge da Comunidade de Bose] postou um longo comentário sobre a discussão, que retomo aqui na íntegra.

Um texto forte de Riccardo Larini

“Tenho a impressão de que diversos amigos teólogos e jornalistas católicos, depois da publicação da entrevista com o Papa Francisco contendo afirmações sobre as pessoas homossexuais, se concentraram muito pouco no nó central do problema, para se lançar em complexas elucubrações sobre a utilização imprópria do ‘cortar e colar’ no filme em questão, sobre o papel e os eventuais deslizes da máquina da comunicação vaticana, e assim por diante.

“Entendo bem que não é fácil manter uma cátedra ou uma posição que é acompanhada de várias maneiras pelo adjetivo ‘católico’ quando se decide entrar em questões desse tipo, e por isso compreendo, pelo menos em parte, essa tendência, como diriam os ingleses, às ‘red herrings’, isto é, à distração ou desvio dos problemas fundamentais que foram levantados.

“Por isso, quero ser claro, pelo menos no que me diz respeito, ao expressar em voz alta aquele que eu acredito ser o nó central. A Igreja Católica não só não deve excluir pessoas ou comportamentos homossexuais, mas também deve sair da mera hipótese de ter que ‘tolerar evangelicamente’ a sua presença e o seu comportamento.

“Por quê?

“Tolerância significa fundamentalmente condenação de um princípio, mas acolhida das pessoas, condenação do erro, mas misericórdia para com o errante. No caso em questão, significa afirmar que a homossexualidade é pecado ou, pelo menos, como o Catecismo da Igreja Católica também faz, que ela representa uma espécie de ‘desordem’ ou doença, de comportamento ‘contra a natureza’.

“Seria possível derramar rios de tinta a esse respeito. Limito-me apenas a dizer que, admitindo-se que seja possível concordar sobre o que é ‘natural’ e o que não é, é um sinal pelo menos de pouca reflexão o fato de assumir que ir ‘contra a natureza’ é sempre errado. A evolução, o progresso que os seres humanos aportam, muitas vezes é ´precisamente o resultado de uma transcendência da natureza (basta pensar na química farmacêutica e em milhares de inovações tecnológicas). Certamente, esse não é um critério sólido e coerente para fundar a moral, e seguramente, em âmbito cristão, os princípios de promoção do amor, do desenvolvimento da pessoa e da vida são bem mais importantes do que a fossilização de qualquer visão da ‘natureza’.

“A verdade é que é preciso tem que ter a coragem de dizer, muito simplesmente, que a única coisa que importa, quer se tenha pulsões homossexuais, quer se sintam pulsões heterossexuais, é como podem e devem ser vividas, na liberdade e com respeito e amor, as próprias escolhas mesmo no âmbito das relações íntimas. E, acrescento com muita convicção, amadurecida depois de décadas de reflexão até mesmo sofrida, que é igualmente fundamental dizer, também com base na experiência concreta, que não existe nenhuma evidência de problemas que surgiriam quando uma criança tem genitores do mesmo sexo. Pessoalmente, acho maravilhosas todas as famílias arco-íris que eu conheço (e são muitas: eu não moro na Itália...), e me parece até que elas estabelecem padrões morais superiores do que as famílias ‘tradicionais’.

“Acrescento (a esse respeito, aconselho a leitura dos ótimos e competentes artigos do Pe. Alberto Maggi) que nem sequer é lícito usar a Escritura para chegar a afirmar que a homossexualidade é desordem ou pecado. E isso não só porque com o mesmo metro se poderiam ‘vetar’ muitíssimas coisas que, pelo contrário, costumam ser acolhidas de braços abertos pelos mais ferrenhos inimigos dos ‘desvios’ sexuais (basta pensar em emprestar dinheiro com juros e no papel dos bancos...), mas, acima de tudo, porque a Escritura deve ser interpretada, a sua interpretação muda e evolui, e é o seu espírito, e não sua letra, que vivifica.

“Portanto, concluo dizendo que, depois de muitos anos de estudos teológicos e de reflexões sobre a atualidade da nossa sociedade e do Evangelho, me convenci de que o tema da homossexualidade não é, como diversos católicos incomodados gostariam, um estorvo que desvia a atenção de problemas mais importantes para os cristãos. É um ponto nodal paradigmático, um nó górdio que deve ser absolutamente desfeito se quisermos fazer com que o Evangelho continue sendo anunciado com credibilidade e se quisermos que as igrejas não se tornem fortalezas da cega e mortífera reação à complexidade do nosso mundo.”

Um ponto de vista “sistemático”

É uma provocação salutar e que é bom ler e meditar. Tudo isso me parece ser o sinal de um conflito de interpretações e de uma elaboração do saber tradicional que têm muitos aspectos de absoluto relevo, mas que eu gostaria de abordar brevemente, limitando-me ao plano que, em teologia, se chama “sistemático”. Ou seja, gostaria de me debruçar sobre o plano das categorias fundamentais com que podemos elaborar o saber doutrinal em torno dos temas centrais da fé.

Essas categorias nunca são arbitrárias, evidentemente, mas têm um fundamento na Escritura e na Tradição que não é absoluto e que pode e deve ser submetido à análise crítica. Não é útil nem enfrentá-las com estilo fundamentalista, nem com suficiência demais. A tarefa teológica sistemática é precisamente colocar essas categorias à prova e ver se elas se “sustentam” diante do real. Autoridade e evidência devem dialogar, debater e se ajudar mutuamente.

(Continua...)

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