Os códigos éticos na Bíblia. Artigo de Gianfranco Ravasi

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09 Setembro 2020

"Estamos, pois, perante uma leitura com motivação crítica, mas também uma atualização viva na contemporaneidade, demonstrando a perene "juventude" e vitalidade desse grande código de ética que talvez todos os dias violamos, mas que se mantém fixo – como dizíamos – no céu da moral universal, não apenas religiosa", escreve o cardeal Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 06-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Exegese. Novos aprofundamentos sobre o Decálogo e as rígidas leis observadas por Recabitas no livro de Jeremias, em contraste com os comportamentos do povo de Judá renitente às regras do mais longo livro judaico do Antigo Testamento (e também o mais divergente da antiga versão grega da Bíblia chamada "dos Setenta"), a do profeta Jeremias, composta por 21.819 palavras, encontramos uma página surpreendente, o capítulo 35, que creio que poucos leitores conhecem ou recordam. O protagonista é um grupo de judeus isolacionistas e conservadores – se quisermos usar nossas categorias – chamados Recabitas, em homenagem a seu ancestral Recabe. Eles vivem na terra de Israel como nômades, morando em tendas, e praticam uma rígida observância de suas tradições tribais ancestrais, entre as quais se destaca a proibição de beber vinho, prática que na história das religiões será prerrogativa de outros movimentos religiosos (por exemplo, o islamismo).

Pois bem, o profeta recebe uma desconcertante ordem divina: “Ide aos Recabitas, conduzi-os a uma sala do templo do Senhor e oferecei-lhes vinho para beber”. Sem hesitar, Jeremias os convoca e coloca diante deles uma fileira de jarras cheias de vinho e taças e pede-lhes: "Bebam o vinho!" A resposta é clara: “Não beberemos vinho, assim como não construímos casas, nem cultivamos campos ou vinhas, ao contrário do que fazem os sedentários, mas continuaremos a viver em tendas”. Nesse ponto, a pergunta é legítima: qual o significado dessa história extravagante que vê um profeta implicado em um ato de corrupção ou provocação e até de prevaricação contra o “diferente”? No século II a.C., a mesma pretensão de violar uma norma alimentar sagrada – a da abstinência de carne suína – pelo poder agressivo sírio-helenístico desencadearia a revolução judaica dos Macabeus.

Cecilia Caiazza,
Una fedeltà possibile,
Dehoniane, Bologna, p. 184, € 20

Uma estudiosa, Cecilia Caiazza, escolheu justamente essa página bíblica pouco explorada até mesmo pelos exegetas, e a submeteu a uma minuciosa leitura de acordo com os cânones da análise narrativa e a repropôs em seu valor originário. Estamos, de fato, na presença de uma das inúmeras ações simbólicas realizadas pelos profetas (nisso Ezequiel brilhará) que transformam as palavras em atos, para torná-las mensagens incisivas. Curiosamente, em hebraico a palavra dabar é polissêmica envolvendo os dois significados de "palavra" e "ato, evento", aos nossos olhos em discrasia entre si ("entre dizer e fazer está o mar", diz um provérbio conhecido).

Qual é, então, a lição desse tipo de parábola em ação? O profeta quer contrapor duas atitudes antitéticas: de um lado, os Recabitas e sua fidelidade pétrea à tradição dos pais; por outro lado, o povo de Judá, que é, ao contrário, renitente em seguir as normas morais e sociais seladas na aliança com Deus no Sinai. Como escreve a estudiosa, “estamos diante de um contraste evidente entre dois projetos de vida: por um lado, o Senhor pede ao povo hebraico que siga seus mandamentos, enquanto o povo acredita que pode se autorregular de acordo com seus próprios planos; por outro lado, os Recabitas, obedientes ao ancestral, permanecem fiéis aos seus ditames”. E para ilustrar a estrutura ideal dessa página de Jeremias, recorre a uma imagem musical, aquela da politonalidade que simultaneamente amarra e sobrepõe dois ou mais tonalidades diferentes (por exemplo, como acontecer muitas vezes nas composições de Bartók).

David L. Baker,
Il Decalogo,
Queriniana, Brescia, p. 259, € 25

Uma vez que evocamos a infidelidade de Judas aos mandamentos divinos no que diz respeito à obediência recabita a uma regra humana, aproximamos ao ensaio que citou o estudo de David L. Baker – professor de inglês que, além de trilhar as tradicionais cátedras de Cambridge ou Ware, também ensinou na Indonésia por vinte anos – dedicado ao Decálogo. Diferentemente do capítulo de Jeremias, as duas páginas bíblicas que o conservam (Êxodo 20 e Deuteronômio 5) foram objeto de um fluxo incessante de análises exegéticas, teológicas, ético-sociais e artísticas, tanto é verdade que no texto que agora apontamos a bibliografia ocupa cerca de quarenta páginas (mas as ausências que observamos são múltiplas).

Que o Decálogo seja semelhante a uma estrela polar moral no céu da cultura ocidental é demonstrado, por exemplo, pelos admiráveis dez filmes que o diretor polonês Krzysztof Kieslowski propôs em 1988. Pois bem, antes de abrir a cortina e apresentar os vários preceitos, Baker enfrenta uma série de questões preliminares que refletem iguais perguntas: por que temos duas redações que não são inteiramente coincidentes? Podemos reconstruir uma forma originária? Que relação existe com a figura de Moisés? Que valor devemos atribuir a sua afirmação de ser "a palavra de Deus"? É legítimo considerá-los como uma espécie de "constituição" do judaísmo bíblico? E para ficar no paralelo antitético anterior entre Recabitas e Israel, o Decálogo formaliza a resposta humana solicitada por Deus na estipulação da aliança no Sinai?

Uma vez levantada a cortina, eis que desfilam os mandamentos, separados em dois grupos. O primeiro traz uma insígnia "teológica": amar a Deus. E inclui a afirmação da unicidade divina, o culto, o descanso sabático e a família desejada pelo Senhor. O segundo grupo carrega como estandarte o amor ao próximo e articula-se nos temas de vida, do matrimônio, da propriedade, da verdade, da "ganância" (que, como se sabe, cria certo constrangimento com uma leitura superficial, mas é, sim, o último mas "não menos importante mandamento"). O texto de Baker revela em filigrana uma adequada competência exegética, mas sua finalidade é a escuta até mesmo por um público "generalista".

Piero Stefani,
Società chiusa e società aperta nella Bibbia,
Morcelliana, Brescia, p. 55, € 8

Precisamente por isso, a análise de cada mandamento está associada a uma "reflexão" com implicações concretas e contingentes. Só para citar um caso, o comentário sobre o preceito que condena o falso testemunho e exalta a verdade se abre com a menção ao desaparecimento do voo 730 da Malaysia Airlines em 2014 e nunca encontrado, ou cita-se um provérbio russo segundo o qual "é melhor a bofetada na cara da verdade que o beijo de uma mentira", e se chega até a Watergate, as acusações nos casos Clinton e Archer e até ao engano público de Tony Blair sobre a guerra no Iraque, sem falar no uso de eufemismos hipócritas e fake news. Estamos, pois, perante uma leitura com motivação crítica, mas também uma atualização viva na contemporaneidade, demonstrando a perene "juventude" e vitalidade desse grande código de ética que talvez todos os dias violamos, mas que se mantém fixo – como dizíamos – no céu da moral universal, não apenas religiosa.

Um post scriptum específico. Falamos acima sobre os Recabitas, um grupo de pessoas "diferentes" que o profeta Jeremias provoca. Nos nossos dias, este tema do confronto com o "outro" tornou-se incandescente e é paradoxal que alguns políticos o levantem como um motivo identitário cristão, quando deveria ser assumido que o acolhimento – ainda que com todas as declinações sócio-políticas concretas – esteja entre os preceitos capitais do Evangelho. Porém, não faltam à Bíblia passagens exclusivistas e até agressivas, que refletem uma sociedade fechada. A esse respeito, no apêndice, e infelizmente apenas com uma mera citação, sugerimos as poucas (mas intensas e eficazes) páginas que um estudioso que sempre esteve engajado no diálogo entre fé e cultura e entre Judaísmo e Cristianismo, Piero Stefani, oferece para interpretar corretamente as Escrituras sagradas aparentemente em seu interior conflitantes precisamente sobre o "diferente", sobre o "distante".

A esse respeito, terminamos com uma anedota judaica significativa. Mendel pergunta a Avrom: "Aonde você vai?" "Eu vou longe." E o outro: "Longe de onde?".

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