Pós-Covid-19: “Teremos que começar de novo”

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20 Agosto 2020

O modo como estávamos fazendo as coisas não é o modo como as reavivaremos. Temos simplesmente que começar de novo.

A opinião é do jesuíta australiano Michael Kelly, diretor-executivo da UCAN Services, rede das mídias católicas na Ásia. O artigo foi publicado por La Croix International, 19-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É um truísmo dizer que as coisas nunca mais serão as mesmas depois da Covid-19. Ou serão?

Um padre aposentado e amigo meu descreveu recentemente como ele está lidando com o confinamento da Covid-19, colocando em prática hábitos que ele aprendeu ao fazer um retiro de silêncio de 30 dias há alguns anos:

“Quando eu entrei no confinamento da Covid-19, no fim de março, eu rapidamente recorri a algo que havia aprendido no início do retiro: a necessidade de ter um programa diário fixo.

“Então, eu me levantava na mesma hora, sempre fazia a barba, colocava roupas limpas, passava um tempo na capela, tomava café da manhã e assim por diante. Eu incluí uma caminhada de mais de 50 minutos todas as tardes, logo após o almoço. Estou muito grato por ter conseguido gerir isso tão bem.”

A manutenção ou mesmo retomada de hábitos é uma forma de enfrentamento.

Os hábitos, quando compartilhados, é claro, formam uma cultura que as pessoas podem compartilhar. Isso pode acontecer com pessoas que são vizinhas em um mesmo bairro, amigos que vão ao mesmo café ou academia, pessoas que vão à mesma igreja e frequentam regularmente a missa ao mesmo tempo.

Ou não.

Em uma troca de e-mails com um amigo que desenvolveu uma das principais agências de viagens online da Austrália e plataformas de reserva de transporte e acomodação, concordamos que só Deus sabe tudo o que está por vir para a maioria de nós – e resta a nós descobrirmos.

Isso porque simplesmente não podemos executar nossas vidas e operações como estávamos fazendo até agora e porque ainda se passarão muitos anos antes que o “novo normal” fique claro. O modo como estávamos fazendo as coisas não é o modo como as reavivaremos. Teremos simplesmente que começar de novo.

Compartilhar hábitos pode se tornar algo inconsciente, até mesmo involuntário. E grande parte da vida paroquial católica tem sido assim há muito tempo. Mas, como pode atestar a diminuição do número de frequentadores habituais da missa nos últimos 40 ou 50 anos, rompa um hábito, e a cultura pode desaparecer.

Essa é a realidade diante não apenas da Igreja Católica no mundo pós-Covid-19 que acabará se revelando.

Pergunte a qualquer pessoa que trabalha com varejo, a indústria de viagens, a hotelaria ou qualquer outra indústria relacionada e geradora de empregos. Seus futuros são obscuros, e eles são vulneráveis ao colapso das formas habituais de agir e interagir.

Para os conscienciosos, estabelecer estruturas e processos diários é uma forma de planejar o futuro. Foi isso que o meu amigo idoso fez para si mesmo.

Mas ele é um indivíduo, e sua abordagem é individualista.

As igrejas são edifícios comunitários, e os sacramentos são eventos comunitários. Longe de transformar a Igreja em um corpo de cadetes, no qual os membros se submetem aos procedimentos de treinamento que fazem os membros marcharem no mesmo ritmo, um padrão individual não será igual aos requisitos do reavivamento comunitário.

Quando a Igreja Católica era uma comunidade muito mais tribalizada, com laços formados tanto por identidades étnicas quanto por um compromisso de fé, essa abordagem mecânica da vida comunitária era mais fácil de se realizar.

Em uma Igreja globalizada, na qual os vínculos imediatos da nacionalidade não são tão fortes quanto antes, a Igreja Católica está percorrendo novos caminhos ao realizar a sua missão de “pregar a todas as nações”.

E ela terá que lidar com algumas bagagens que ela carrega e que parecem ser muito evidentes em algumas partes do mundo e nas presunções de algumas de suas lideranças que ainda persistem, apesar do encorajamento para descartá-las.

Métodos de “comando e controle” mais apropriados para sargentos comandantes de um pelotão do Exército são há muito tempo tudo o que se espera da liderança da Igreja: ela dá as ordens, e as tropas complacentes agirão de acordo com as instruções.

Isso pode ter funcionado nas culturas hierárquicas e até mesmo autoritárias que existiam antes das culturas democráticas, moldadas mais pela persuasão da publicidade do que pelas diretrizes vindas de “especialistas”, “autoridades” e titulares de cargos em instituições e sociedades inteiras.

Para descartar essas bagagens, a Igreja Católica precisará aprender algo que é evidente no seu comportamento.

Ou seja, que, para comunicar sua mensagem e realizar a sua missão, ela precisa atrair e persuadir as pessoas de que a mensagem e a missão são realmente benéficas para elas.

Grande parte da presença pública da Igreja e dos pronunciamentos prolixos presumem uma audiência cativa, presumem que as pessoas estão prontas para se submeter à lógica superior e à autoridade irrestrita dos seus pronunciamentos.

O histórico da vida da Igreja precisa ser retomado de forma interativa e coloquial, e não didática e diretiva.

O bom ensino depende sempre de duas coisas: a escuta atenta do professor e a compreensão de que toda comunicação bem-sucedida depende de uma relação real e crescente.

Todas e quaisquer experiências que eu tive de comunidades vivas se basearam e viveram a partir desse substrato de interação viva, no qual os valores são compartilhados, e as necessidades mais profundas de alimento na jornada de vida e de fé são atendidas.

O meio para isso é o estilo interativo e conversacional que convida ao pertencimento e recompensa o compromisso.

O modo como fazemos isso está perto de começar de novo. Isso será feito em meio a uma cultura cujos hábitos foram esmigalhados pela Covid-19. E só Deus sabe aonde isso nos levará. Mas essa é a parte emocionante: nós podemos descobrir.

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