Dois papas, duas medidas

Ratzinger. | Foto: Il Sismografo

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12 Mai 2020

"O engano religioso supremo é aquele do anticristo, um pseudo-messianismo mediante o qual o homem se glorifica no lugar de Deus e de seu Messias. É compreensível que, em seu livro e em sua entrevista, o não Papa tenha preferido não falar do Papa".

A opinião é de Furio Colombo, jornalista, escritor e ex-deputado italiano, publicada por Il Fatto Quotidiano, 10-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Parecia o entendimento mais ousado (pode haver dois papas?) e mais gentil (eles podem conviver na mesma casa? ): eles conseguem observar o pacto (essencial para a credibilidade e autoridade da Igreja) que apenas um fale? Alguns anos se passaram, que estão mudando a história de uma das maiores religiões do mundo, e foi descoberto que nenhum dos três pactos foi observado.

Descobriu-se mais ainda. Descobriu-se que o antigo Papa, que renunciou ao esforço do pontificado, corajosamente e prontamente enfrenta o papel da voz política, que fatalmente, dado seu passado como Papa, é atribuído à Igreja. Que já se tornou uma Igreja duplicada: teólogos alemães, antigos legados apostólicos de robustos regimes conservadores, teólogos que haviam permanecido na sombra, jornalistas já avisados e prontos, mandatários ou ex-mandatários de importantes governos do mundo isolam cada vez mais o Papa “em função”. Este novo capítulo do ativismo político do Papa em repouso é iniciado pela publicação iminente na Alemanha (e, em poucos dias, na Itália) de uma biografia toda voltada para o que fazer depois, quando haverá um verdadeiro Papa. O jornalista alemão Peter Seewald, se baseia em três pontos. O primeiro é uma explicação das verdadeiras intenções de Deus, quando ele teria escolhido os judeus como o povo eleito, e a antiga questão da relação entre Deus e os judeus, uma relação de privilégio ("o povo escolhido") que teria cabido aos cristãos. Mas o estranho é que a questão seja levantada agora, em pleno furor pelo rosário (pureza da raça) e contra o estrangeiro (que recomendam de não salvar, de não acolher), argumento ignorado pelo ex-Papa. O seu verdadeiro inimigo, o anticristo, de quem Ratzinger nos fala e nos falará ao longo das páginas, tem bem mais a fazer.

Mas há um ponto ainda mais delicado, mais antigo, que marcou os momentos trágicos da Igreja. É o tema da evangelização dos judeus. Depois de tê-lo dito e escrito, aquele compromisso programático, dadas as objeções, foi retirado, substituindo-o pela palavra "diálogo". Mas o argumento está muito ligado aos piores momentos da história cristã, para deixá-lo "benevolentemente" em suspenso.

O segundo ponto é que o Papa em repouso percebeu uma frenética atividade, dentro e ao redor da igreja, de um anticristo tão poderoso que impõe a todas as sociedades que desejam se sentir modernas o casamento entre homossexuais, o aborto e a criação da vida humana em laboratório. Uma ideia digna de ficção científica e do mundo orwelliano transparece das palavras, frases, pensamentos e conceitos que Seewald coletou (alemão com alemão, em língua alemã, portanto, sem equívocos) do teólogo Ratzinger. O teólogo Ratzinger também quer informar que, neste mundo sem Deus e com um Papa que agora tratou a rendição em troca de boas entrevistas e afetuosos aprofundamentos, com a sociedade moderna está prestes a formular um credo anticristão e, se alguém se opõe é atingido pela excomunhão. “O medo desse poder espiritual do anticristo é até demasiado natural e é realmente necessária a ajuda da oração da Igreja universal para resistir”.

As frases que vocês leram foram retiradas da longa entrevista que o jornalista Seewald teve com o ex-Papa no final do livro. Nela, Ratzinger nos explica que ele não falará deste pontificado, e Seewald poderia tê-lo avisado com benevolência que ele já o fez de maneira repetida e claríssima. Mas o Papa- não Papa quis acrescentar: "A suspeita de que eu me envolva regularmente em debates públicos é uma distorção maligna".

O maligno, como vocês podem ver, tem muito trabalho no mundo de Ratzinger. “Grande é o poder espiritual do anticristo. Isso é confirmado pelo site estadunidense LifeSiteNews, lado a lado com as réplicas dos violentos ataques ao Papa Bergoglio por Monsenhor Viganò (ex-Núncio Apostólico nos Estados Unidos) e porta-voz do cisma estadunidense que parece estar em preparação e que busca um Deus implacável e intransigente (nada de judeus, nada de nômades, nada de estrangeiros com religiões a serem rejeitadas) e seu Papa. Isso deve valer para os vários defensores e amigos: os rosários de Salvini, as cruzes plantadas em todos os lugares pelos poloneses, as Nossas senhoras que aparecem com hora marcada da antiga Iugoslávia. “É isso que o Papa deve ter diante de seus olhos: a ditadura mundial de ideologias aparentemente humanistas, contradizendo as quais se fica excluídos do consenso social básico. O engano religioso supremo é aquele do anticristo, um pseudo-messianismo mediante o qual o homem se glorifica no lugar de Deus e de seu Messias”. É compreensível que, em seu livro e em sua entrevista, o não Papa tenha preferido não falar do Papa.

 

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