Ernesto Cardenal é enterrado na intimidade de Solentiname

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09 Março 2020

“Não fizemos cerimônia. Foi íntimo, sensivelmente íntimo, isso é tudo: os trabalhadores e nós”, disse Esperanza Guevara, uma das “filhas espirituais” do padre da ordem trapista.

A reportagem é publicada por Religión Digital, 07-03-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O poeta e padre trapista Ernesto Cardenal foi enterrado nesta sexta-feira em um ambiente íntimo, sem cerimônias, nem rituais, em sua amada Solentiname, um arquipélago paradisíaco no Grande Lago da Nicarágua, onde fundou uma comunidade de artistas, artesãos e religiosos.


Foto: Prensa Libre

As cinzas do autor de “Cântico Cósmico”, que afirmou que o Homem é “pó de estrelas”, repousam a partir de hoje ao “pé da pedra”, um monumento elaborado por Cardenal há três décadas, que simboliza seus “filhos espirituais” enterrados ao seu redor.

“Nada de pedra dura, se estás sentindo”, reclamou um dia, em honra do “filho” Laureano Mairena, em um verso que parecia enfrentá-lo a seu compatriota Rubén Darío.

“Não fizemos cerimônia. Foi íntimo, simplesmente íntimo, isso é tudo: os trabalhadores e nós”, disse Esperanza Guevara à EFE, uma das “filhas espirituais” do padre da ordem trapista, poucos minutos depois do enterro, do qual poucos foram testemunhas.

Padre Ernesto Cardenal já descansa em paz

Essa noite os moradores da ilha preparam uma velada artística em honra do sacerdote, que parece mais uma festa que um velório, talvez porque ninguém mais do que eles compreendem o que a morte significava para Cardenal.

“Morrer não é sair do universo, mas sim se aprofundar nele, e a morte é uma maior intimidade com ele”, escreveu o poeta em 06 de janeiro, em um papelzinho que Guevara guarda como o meio tesouro do cosmos.

Somente seus “filhos”

O enterro do padre no arquipélago, um dos lugares mais isolados e belos da Nicarágua, foi estrategicamente pensado para que estivessem somente Guevara e seu esposo, Juan Bosco Centeno, outro “filho” do poeta.

Na última terça-feira, agrupações sandinistas profanaram a missa de corpo presente em honra a Cardenal, que incluiu golpes e roubos de pertences a periodistas e assistentes, o que obrigou os familiares a tirar o caixão pela lateral da catedral de Manágua para evitar a agitação.

Depois da profanação, o corpo do padre foi cremado e imediatamente trasladado para Solentiname, costeando o norte de Cocibolca (Grande Lago da Nicarágua), até chegar ao nascimento do rio San Juan, para depois atravessar o espelho d’água, que esta semana estava especialmente agitado.


Foto: Religión Digital

Longe de lamentar a austeridade com a qual foi enterrado em Solentiname, o autor de “Hora Cero”, um dos poetas vivos mais prestigioso da América Latina até o momento da sua morte no último domingo, Guevara celebrou a sobriedade.

“A humildade dele e a simplicidade eram sua máxima, sua principal característica: sua humildade, sua simplicidade, sua humildade”, recordou.

A humildade de Cardenal ainda pode ser observada em sua pequena cabana de madeira junto a um enorme guanacaste, frente ao Grande Lago da Nicarágua: um quarto para escrever, um para dormir, o corredor, uma área sem teto para observar as estrelas e até quatro redes, a que dá ao Cocibolca era sua preferida.

“Não sinto que ele tenha ido”

Essa simplicidade, longe de criar um vazio, ressalta a presença de Cardenal, com o som que emite o suave balanço das ondas, o vento entre as árvores e o som do motor de uma lancha distante.

“Não sinto que tenha ido”, disse Guevara, apoiada na rede preferida do padre que uma vez elevou a “Oración por Marilyn Monroe”.

Justo nesse momento entra Centeno, aponta o “observatório astronômico” de Cardenal, e entre risadas comenta que “ali se deitava para ver as estrelas para escrever loucurinhas”, como se o poeta estive rindo com ele em alguma galáxia.

Vigília artística em sua honra

Nesta mesma sexta-feira, os ilhéus esperam uma atmosfera mais festiva, durante a noite que prepararam em sua homenagem, no templo religioso que ainda expõe os desenhos criados por um grupo de crianças há mais de 40 anos, quando o padre lhes ensinou que Deus também pensava nos pequenos.

Guevara não descartou que a Misa Campesina seja cantada, criada pelo cantor e compositor nicaraguense Carlos Mejía Godoy, inspirada na obra religiosa de Cardenal, da chamada "teologia da libertação".

A poucos metros do templo está o monumento ao lado do qual repousa o poeta, ou melhor, seus restos mortais, porque ele já dizia isso em seus versos: “Nossa carne e nossos ossos vêm de outras estrelas e talvez de outras galáxias, somos universais e após a morte, contribuiremos para formar outras estrelas e outras galáxias. "

"Das estrelas somos, e a elas retornaremos", acrescentou.

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