"Eu, diácono casado na Amazônia, sonho com o sacerdócio"

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27 Janeiro 2020

Os dias de Ademir da Silva são, em geral, intermináveis. Diácono há 25 anos da pastoral carcerária em Belém, capital do Pará, visita todos os dias uma das 20 penitenciárias da região, percorre os centros para menores, se encontra com as famílias dos detentos para ajudá-los nas questões práticas, burocráticas e legais. Uma missão nada fácil; Belém é uma das metrópoles mais violentas do Brasil e há alguns anos é "ocupada" por grandes organizações de narcotráfico importadas do Rio de Janeiro e São Paulo. Com as prisões superlotadas, a taxa de reincidência de ex-presos é muito alta, tanto que as penitenciárias são chamadas de "universidades do crime".

A reportagem é de Emiliano Guanella, publicada por La Stampa, 25-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Para todos o diácono Ademir é um "padre", um sacerdote e, no fundo, ele também se sente assim. “Parte do nosso tempo é dedicada à atividade socioassistenciais, mas a atividade pastoral anda de mãos dadas. Temos que cuidar de tantas pessoas e a comunidade de fiéis, dentro e fora das prisões, é enorme; os sacerdotes se viram como podem, mas sem a nossa ajuda não conseguiriam continuar”. A Amazônia não é mais a última fronteira, mas o coração pulsante da Igreja no país com o maior número de católicos do mundo e, ao mesmo tempo, aquele em que a erosão dos fiéis pelas novas igrejas evangélicas pentecostais é a mais sentida, distantes da liturgia protestante clássica e muito agressivas, especialmente nas periferias e áreas indígenas. "A nossa - admite Ademir - é uma luta desigual, mas fazemos o possível para transmitir a palavra do Senhor, sem ceder à filosofia do imediato divulgada pelos outros".

Os neopentecostais estão por toda parte, dezenas de novas igrejas nascem todos os dias, que não precisam de grandes estruturas e propagam a "teologia da prosperidade", prometendo o sucesso na terra em troca de doações e devoção ao pastor. Existe uma dessa igrejas para cada pessoa, desde as maiores, como a Igreja universal ou a Assembleia de Deus, até aquelas com nomes e ritos fantasiosos, como a "Comunidade do Coração Reciclado", a "Porta das Ovelhas" ou a "Igreja das Bonecas Sagradas". Segundo o último censo das cinco maxi-regiões brasileiras, os neopentecostais cresceram mais justamente na Amazônia, onde hoje são 39% da população contra 50% dos católicos. Dada a enorme extensão territorial (o Estado de Pará sozinho, é quatro vezes o tamanho da Itália) e a falta crônica de sacerdotes, os diáconos se tornam um baluarte do catolicismo. Só na região de Belém existem 215, cerca de trinta serão oficializados este ano. O impulso que veio do Sínodo de outubro no Vaticano emociona Ademir. “Temos uma preparação teológico-filosófica adequada e todos os dias, com nosso trabalho, demonstramos nossa devoção e dedicação. Se meus superiores me propusessem para me tornar sacerdote, aceitaria imediatamente; seria a coroação de tantos sacrifícios e paixão".

Ademir está casado há 40 anos com Sandra Maria e tem três filhos agora na casa dos trinta anos. “Minha esposa ajuda todos os dias em uma paróquia. Sempre foi um apoio a tudo o que faço, tê-la ao meu lado me ajudaria a ser um padre melhor”. Não é por acaso que vêm do Brasil as vozes com maior autoridade a favor da abertura, como o bispo de São Paulo Claudio Hummes ou o austríaco Erwin Krautler, que vive há 50 anos na Amazônia e foi presidente do conselho indigenista missionários - CIMI.

Krautler é um dos porta-vozes da ideia de uma ecologia integral que vê a Igreja engajada na fila da frente ao lado dos povos indígenas e em defesa da floresta hoje na mira dos grandes criadores e agricultores. Como ele, existem muitos outros prelados da América do Sul aliados de Bergoglio em uma disputa considerada histórica. Ademir da Silva está entusiasmado com Francisco. “Confesso que, quando vimos que ele era argentino, ficamos um pouco sentidos porque há certa rivalidade entre nós, principalmente por causa do futebol. Hoje posso dizer sem medo que temos o melhor pontífice para o nosso tempo. João Paulo II foi muito importante, mas Francisco é realmente único. Acredito que ele esteja incomodando alguém, porque ele é o verdadeiro pastor de que precisávamos. Como nós, ele também conheceu a marginalidade, as periferias, o drama das drogas: ele trabalhou para os últimos e não os esqueceu deles quando se tornou pontífice. É por isso que ele entende a importância do sacerdócio para os casados. Conhecê-lo seria um sonho: se eu o encontrasse, tenho certeza que apertaria a mão de um futuro santo”.

 

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