20 de dezembro: “Ó chave de Davi”

Foto: Pixabay

20 Dezembro 2019

 

Jesus, invocado como "chave de Davi", pode abrir as algemas e as portas do nosso coração para nos devolver a vontade e a coragem de fazer o bem.

 

O comentário é de Nico Guerini, padre italiano, estudioso de literatura e especialista em textos de mística, em artigo publicado por Settimana News, 19-12-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O Natal assumiu tantas e tais características que corre o risco de que o evento que está em sua origem, Deus que se torna homem na pessoa de Jesus, seja enterrado e sufocado pelos tantos elementos que são marginais, quando não estranhos.

 

A Fé

 

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam — isto proclamamos a respeito da Palavra da vida. A vida se manifestou; nós a vimos e dela testemunhamos, e proclamamos a vocês a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada. Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa.” (1 João 1: 1-4).

 

Ouvir, ver, contemplas, tocar, anunciar, criar comunhão, para um objetivo de plena alegria. Verbos dos sentidos, que falam de uma experiência de vida, que deve ser contada com o objetivo de criar uma relação-comunhão com Deus e entre nós, que possa nos dar plena alegria.

Isso é fé. Estamos falando de Jesus, de quem estamos nos preparando para entender o que significa o "nascimento", seu aparecer como homem. O texto de João nos diz que o Natal coloca Deus em nossas mãos. Essa é a nossa maneira de acreditar? Se Jesus não "nasce" em nosso coração, a festa perde todo o sentido.

 

A chave e a casa

 

Para que isso aconteça, nos preparamos para a festa com um caminho de cinco etapas, no qual seremos guiados por orações antigas, produzidas no início da Idade Média, cantadas e recitadas ainda hoje.

 

Poderíamos viver esta semana como um período de "incubação", que faz com que o conhecimento e o amor por Jesus cresçam dentro de nós, para que possamos ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo. Aqui está a primeira:

 

" Ó Chave de Davi, Cetro da casa de Israel
que abris e ninguém fecha, que fechais e ninguém abre:
Vinde logo e libertai o homem prisioneiro
Que nas trevas e na sombra da morte está sentado!”.

 

 

Ao contrário do que possa parecer, não é a oração de um prisioneiro, pelo menos não em primeira instância. A imagem da chave é encontrada em Isaías 22, 22, onde é aplicada a um oficial real encarregado de administrar uma "casa" que aqui indica a corte do rei.

 

A imagem do cetro alude inequivocamente a um "poder", que aparece como absoluto: o que está fechado permanece fechado, o que está aberto permanece aberto! Esse é o ponto de partida, mas o discurso toma uma direção que muda completamente a ideia de "poder" quando essa palavra é aplicada a Deus, àquele Deus que no Natal se torna "carne" na fragilidade do menino Jesus. Porque aqui se fala apenas de "abrir" e, além disso, de uma porta que não é mais da casa real, mas a prisão, de onde todos esperam sair, se não escapar!

 

Eu disse que não é a oração de um prisioneiro, ou talvez seja, porque essa oração foi colocada nos lábios de todos desde que foi composta. Eles a rezaram e a rezam padres e freiras, ricos e pobres, pessoas cultas e não cultas, professores e pedreiros. Porque o que a oração implica é que a vida, toda vida, às vezes pode parecer uma prisão para qualquer um.

 

A interioridade

 

A imagem adquire uma força extraordinária, mas não esqueçamos que ela, além de indicar uma condição real cheia de muitas limitações, também alude a uma condição interior comum e que a oração expressa em três situações: estamos "na prisão", que nós mesmos construímos quando estamos "amarrados", "sentados", "no escuro e na sombra da morte".

Não acho que seja difícil traduzir essas três imagens em situações práticas. E em consequências levantar algumas perguntas.

 

a) Estamos amarrados quando algo nos impede de fazer o bem: o egoísmo, o medo, algo a que estamos exageradamente apegados, a prevalência de nosso interesse pessoal, o ódio ou a indiferença ... Com essas atitudes construímos a partir de nós mesmos nossa prisão, nos algemamos: somente o olhar voltado para Jesus, invocado como Jesus, "chave de Davi", pode abrir as algemas e as portas do nosso coração para nos devolver a vontade e a coragem de fazer o bem.

 

b) Ficamos sentados quando a inércia, a preguiça, a soma das decepções que recebemos nos fazem perder a confiança no bem, nos faz fechar os olhos e nos dobrar sobre nós mesmos. Vamos pensar na figura de Bartimeu (Mc 10: 46-52), que "era cego, sentava-se na estrada mendigando". É a figura da nossa condição humana. Mas o encontro com Jesus, que o chama, o dinamiza: "tendo jogado fora sua capa, ele se levantou e foi até Jesus". E, depois que Jesus lhe abriu os olhos, "o seguia pelo caminho”. Libertar as pernas da inércia para “correr no caminho que os teus mandamentos apontam" (Sal 119,32): isso é sair da prisão. Jesus-chave abre a porta: não vamos nos esconder lá dentro!

 

c) Estamos sentados na escuridão que é a sombra da morte. Sabemos que não há cego pior do que aquele que não quer ver. O batismo no início dos séculos cristãos era chamado de iluminação, e ainda é hoje. O evangelho está cheio de histórias de cegos sendo curados.

 

O evangelho é o anúncio de uma boa notícia: Deus veio para nos curar! De fato, viemos ao mundo "cegos", como ensina a cura do cego de nascença no cap. 9 do Evangelho de João. A fé é, como vimos, é ver e ouvir, mas, para que isso seja possível, precisamos continuamente nos fazer curar olhos e ouvidos, para que por essas "portas" o anúncio do Evangelho possa entrar.

 

Somente se houver essa premissa também se abrirão as nossas bocas, permitindo-nos dizer aos outros "o que vimos e ouvimos"!

 

E esse relato nos fará, como indivíduos separados e isolados, virar uma "comunhão" de corações, um "corpo", aquele corpo que é a Igreja, que tem como cabeça Jesus. E é o que estamos fazendo!

 

Cuidar

 

Marquei o poder benéfico de uma chave que abre. Mas não se deve esquecer que esta chave de Davi, Jesus, também serve para fechar, não para aprisionar, mas para cuidar aquele tesouro que cada um de nós é aos olhos de Deus.

 

Foi Jesus quem disse: "Eu sou a porta das ovelhas; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem." (Jo 10,7-9). Entrar e sair é uma experiência de liberdade. A liberdade é frágil e deve ser protegida, "fechada". Jesus é "quem tem a chave de Davi: quando ele abre ninguém fecha e quando ele fecha ninguém abre" (Ap 3,7).

 

Mas a liberdade deve acima de tudo ser "estimulada": "Eu abri diante de ti uma porta que ninguém pode fechar" (Ap 3,8). Esta é a "porta da fé" (Atos 14,28).

 

Vamos nos acostumar a pensar na fé, não como uma série de coisas incompreensíveis, mal chamadas de "mistérios", que temos que engolir a todo custo! A fé é a alegre relação com uma pessoa, Jesus, que, apesar dos nossos erros e fracassos, continua a abrir espaços de liberdade e de crescimento.

 

Vamos voltar ao começo. Assim, o círculo se fecha, um círculo que não acorrenta, mas desenha a trajetória de um movimento livre e sem fim.

 

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