Martini após a queda do muro: “A Igreja não deve se inspirar no passado”

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02 Dezembro 2019

O jornal italiano Corriere della Sera, 30-11-2019, publicou trechos do discurso de Carlo Maria Martini, cardeal-arcebispo de Milão, logo após a queda do Muro de Berlim, em 1989. O discurso é importante pois revela uma análise e perspectiva diferente de outros setores eclesiásticos então, hegemônicos.

A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

"No final de 1989 e nestes últimos meses, todos nós vimos - e alguns de vocês viveram diretamente e em primeira pessoa - mudanças profundas e extraordinárias, para muitos aspectos inesperados e imprevisíveis que, no espaço de alguns meses ou até poucas semanas, mudaram a cara da Europa Central e do Leste e trouxeram fatores que, inevitavelmente, exercem e exercerão sua influência em todo o continente. Essas grandes transformações, com sua irreprimível sede de liberdade, aceleraram as evoluções, fizeram cair os muros e abriram as portas e tudo assumiu o ritmo de uma autêntica revolução. Eles apresentam indubitáveis implicações econômicas, sociais e políticas, mas questionam certamente e profundamente as nossas Igrejas e todas as igrejas cristãs. Não apenas porque em todos esses acontecimentos ‘o ponto de partida ou ponto de encontro foi muitas vezes uma Igreja’ (João Paulo II, discurso ao corpo diplomático, 12 de janeiro de 1990); mas também porque às nossas Igrejas, através de uma renovada obra de evangelização, é solicitado ajudar a Europa a redescobrir suas raízes mais profundas, para que possa avançar mais rapidamente em direção a uma sólida integração a serviço do mundo inteiro.

Em outras palavras, com esses acontecimentos o imperativo de construir uma nova Europa se torna ainda mais urgente e inadiável. (...) A consciência de que esse apelo profundo diz respeito a todas as Igrejas cristãs também foi expressa na semana passada pelo metropolita Alexis de Leningrado, presidente da Conferência das Igrejas Europeias. (...) De nossa parte, o rico magistério europeu dos Papas e, em particular, de João Paulo II, certamente contribuiu para despertar e desenvolver a profunda consciência das nossas igrejas sobre sua responsabilidade pela construção de uma Europa, unida e inteira - do Atlântico aos Urais, do Mar do Norte ao Mar Mediterrâneo - que volte a respirar plenamente com os "dois pulmões" da tradição e da cultura tanto orientais como ocidentais. Também estamos convencidos de que tal unidade é e deve ser projetada para um horizonte planetário, a serviço de todos os países do mundo, começando pelos mais pobres: de fato, a unificação da Europa nos parece uma etapa fundamental e ineludível em direção ao objetivo final, que é a unificação e pacificação do mundo inteiro. (...) Estamos profundamente convencidos, como Igrejas e cristãos da Europa Ocidental, que temos muitas coisas a receber e a aprender das Igrejas da Europa Central e do Leste, que por tempo demais tivemos que chamar de “igrejas do silêncio”. (...)

Além do testemunho de uma fé corajosa e de uma fidelidade a Cristo, ao Espírito e à Igreja, vocês nos presenteiam de uma grande verdade demonstrada em atos antes mesmo que palavras. Em sociedades em que, por várias décadas, foi feita uma tentativa de estabelecer a convivência em um horizonte rígido e restrito de bem-estar apenas terrestre e todo discurso espiritual e religioso era demonizado, rejeitado e proibido, vocês demonstraram que não é possível sufocar as liberdades fundamentais que dão sentido à vida do homem e que a pessoa não pode se considerar feliz se for excluído qualquer relacionamento transcendente com Deus (...) Um desafio comum foi lançado a todos nós na Europa do Leste, Central e do Oeste: é viver o Evangelho em nossa sociedade contemporânea de maneira séria e autêntica, mesmo diante dos perigos de uma secularização que se manifesta de várias maneiras. De fato, a nova situação também envolve perigos que não devem ser subestimados. Entre eles, devemos lembrar a tentação de aceitar os modelos do capitalismo e da chamada civilização dos consumos ou de nos voltarmos para eles.

Como o Papa lembrava aos bispos da Tchecoslováquia, cabe às Igrejas dos países do Leste, em particular, “avaliar esses possíveis sinais negativos e preparar as oportunas defesas ‘imunológicas’ contra certos ‘vírus’, como o secularismo, a indiferença, o consumismo, o materialismo prático e também o ateísmo formal, agora amplamente difundidos”.

Por outro lado, cabe às Igrejas do Ocidente estar sempre na linha de frente na formação de consciências cristãs convictas e maduras comunidades eclesiais, caracterizadas por uma fé clara e profunda, capaz de se expressar e de se envolver mesmo nas mais delicadas fronteiras e na encruzilhada mais intrincada da história. Dessa forma, elas terão que mostrar que a fé pode ser vivida com seriedade e significativamente, mesmo em um mundo tecnicizado e complexo como o nosso.

Nestes dias, também sentimos crescer muito a nossa responsabilidade como pastores, talvez com medo de não termos sucesso, tão grandes são os problemas velhos e novos que surgiram diante de nossos olhos, embora ainda não tenhamos considerado todas as questões que estão aparecendo. Essa responsabilidade, superior às nossas forças como pastores e às de nossas igrejas, nos leva, antes de tudo, a confiar no Senhor e na intercessão a Nossa Senhora, à qual todos esses povos se entregam. Além disso, a mesma responsabilidade nos leva a ressaltar pelo menos três pontos:

a) a necessidade de crescer sempre na colegialidade episcopal. De fato, é somente nesse espírito de grande colaboração que seremos capazes de enfrentar tantos e tão sérios problemas sem sermos esmagados por eles;

b) a importância de um planejamento pastoral. Se não queremos ser aniquilados pela multiplicidade de exigências e demandas, devemos ter um plano pastoral diocesano global e, possivelmente, nacional, com clara indicação das prioridades. Assim, também será mais fácil recorrer à ajuda de outras Conferências Episcopais e outras dioceses ou instituições, e será feita uma tentativa de colocar ordem, na medida do possível, nos diferentes momentos do trabalho para a ‘reconstrução do templo’;

c) no entanto, a metáfora da ‘reconstrução do templo’ não deve ser enganosa. Após quarenta anos, as situações são irremediavelmente mudadas e mudarão ainda mais rapidamente no futuro. Portanto, não é possível pensar em refazer as estruturas da Igreja e das instituições de acordo com os modelos do passado, embora alguns possam considerar esses modelos os mais fáceis e evidentes. É necessário levar em conta a mudança da sociedade que ocorreu no Ocidente e que logo se tornará realidade também no Leste e, como Igreja, é necessário se colocar decisivamente no quadro dessa nova situação, para evitar perseguir ideais impossíveis ou reconstruir obras que não são mais atuais.

 

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