Serviço de polinização para produção de alimentos equivale a 43 bilhões de reais. Entrevista especial com Kayna Agostini

Foto: Divulgação

Por: Patricia Fachin e Ricardo Machado | 28 Novembro 2019

O 1º Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, realizado a partir de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – BPBES e a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador – REBIPP, dá ênfase à importância da polinização para a produção de alimentos no Brasil. De acordo com Kayna Agostini, uma das coordenadoras do estudo, “a pesquisa descobriu que anualmente os serviços de polinização, relacionados somente à produção de alimentos, equivalem a 43 bilhões de reais”. Segundo ela, “se não existisse a polinização para a produção dessa quantidade de alimentos que é dependente desse processo, se gastariam 43 bilhões de reais. Esse é um dado significativo para mostrarmos a importância desse serviço”.

O Relatório também faz um levantamento sobre a produção científica brasileira acerca da correlação entre a produção de alimentos e os polinizadores. Apesar de terem aumentado os estudos sobre o tema na última década, Kayna informa que eles ainda estão concentrados na região Sudeste do Brasil, enquanto há um déficit de pesquisas no Norte e no Centro-Oeste do país. “A falta de estudos nessas regiões com certeza não está atrelada à falta de espécies de plantas que são produtoras de alimentos, muito pelo contrário, sabemos que as regiões Norte e Centro-Oeste são extremamente ricas em espécies nativas, ou mesmo cultivadas, que são importantes para a produção de alimentos”, assegura.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Kayna explica por que a polinização garante a segurança alimentar e assegura que sem o processo desenvolvido pelos polinizadores, entre eles as abelhas, o valor nutricional da dieta alimentar humana seria muito baixo. Ela também chama atenção para o déficit de polinizares nos últimos anos e diz que a mortalidade deles “ocorre não apenas por causa da utilização de agrotóxicos, mas pelo uso indevido do solo”.

kayna Agostini (Foto: Arquivo pessoal)

Kayna Agostini é graduada em Ciências Biológicas, mestre em Biologia Vegetal e doutora em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Atualmente é revisora de revistas nacionais e internacionais e professora da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line — Como foi produzido o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil?

Kayna Agostini — O relatório é uma parceria entre a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador - REBIPP e a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos - BPBES. Inicialmente, a Plataforma Brasileira estava fazendo um diagnóstico sobre os serviços ecossistêmicos no Brasil, que é um trabalho muito abrangente. Depois, ela começou a pensar em um relatório sistemático que envolvesse alguns serviços ecossistêmicos e entendeu que a polinização era um serviço muito importante dentro do cenário atual. Esse foi um dos serviços ecossistêmicos abordados também na plataforma internacional, então, a Plataforma Brasileira considerou importante fazer um diagnóstico sobre polinização no Brasil. Porém, um diagnóstico geral de polinização ficaria muito grande no pouco tempo que teríamos para desenvolver esse relatório. Dessa forma, a REBIPP resolveu fazer um recorte e analisar só a importância da polinização na produção de alimentos no Brasil.

Nós iniciamos o trabalho no final de 2017, entregamos o sumário no final de 2018 e o relatório final, que é o texto maior, foi entregue em fevereiro de 2019. É importante mencionar que o relatório é composto de dois produtos. O primeiro produto é o sumário, direcionado aos tomadores de decisão. Esse é um texto menor, mas não é um resumo do relatório, pois tem uma linguagem diferente e apresenta o assunto para que os tomadores de decisão possam considerá-lo como base para a criação de políticas públicas. O outro produto é o relatório em si, o qual é um texto maior, mais científico e acadêmico, com todas as referências bibliográficas da temática polinização,

polinizadores e produção de alimentos no Brasil.

IHU On-Line — O objetivo do relatório é mostrar o status sobre o conhecimento acerca da importância do serviço ecossistêmico de polinização e dos polinizadores para a produção de alimentos no país. Quais são as novidades do 1º Relatório Temático sobre Polinização em relação aos conhecimentos que se tinha sobre o tema até então?

Kayna Agostini — O grande chamariz do relatório foi a valoração dos serviços ecossistêmicos de polinização, porque sabíamos da sua importância, mas esse conhecimento ainda estava afastado da sociedade. As pessoas não conseguiam estabelecer uma relação entre a visitação de flores por animais e a produção de alimentos, nem sabiam a importância disso para os alimentos e frutos que elas consomem. Assim, estes foram os dois pontos principais do relatório: a divulgação desse tema por meio da linguagem mais acessível possível, tanto para tomadores de decisão quanto para a sociedade, mostrando qual é a relação desse processo de polinização e a comida que vai para a mesa das pessoas; e a valoração desse serviço ecossistêmico de polinização. A pesquisa descobriu que anualmente os serviços de polinização, relacionados somente à produção de alimentos, equivalem a 43 bilhões de reais. Ou seja, se não existisse a polinização para a produção dessa quantidade de alimentos que é dependente desse processo, se gastariam 43 bilhões de reais. Esse é um dado significativo para mostrarmos a importância desse serviço.

IHU On-Line — Até que ponto é verdadeira a afirmação de que “sem os serviços de polinização não há alimentos”?

Kayna Agostini — A polinização é extremamente importante para termos uma segurança alimentar. Existem muitos grãos que não dependem do processo de polinização propriamente dito — da transferência de grão de pólen que é feita por animais. São eles: milho, arroz, cana-de-açúcar (consumo de açúcar), entre outros que não dependem da polinização em si. Mas, se só consumíssemos esses alimentos que não dependem da polinização, a qualidade nutricional da nossa alimentação seria muito baixa. Então, em termos nutricionais, temos uma variedade de produtos e frutos que são consumidos e dependem da polinização. Portanto, teríamos comida? Sim. Mas o valor nutricional dessa comida seria muito baixo.

IHU On-Line — Que balanço a senhora faz dos estudos sobre polinizadores no país? Houve avanços significativos nos últimos anos?

Kayna Agostini — Em nosso relatório trazemos um mapa bem interessante da extensão desses estudos no Brasil. Vimos que a maior concentração de estudos de polinização relacionados à produção de alimentos está na região Sudeste; existem poucos estudos relacionados com essa temática no Norte e no Centro-Oeste do país. Percebemos também um crescimento na quantidade desses estudos nas duas últimas décadas.

A falta de estudos nessas regiões, com certeza, não está atrelada à falta de espécies de plantas que são produtoras de alimentos, muito pelo contrário, sabemos que as regiões Norte e Centro-Oeste são extremamente ricas em espécies nativas, ou mesmo cultivadas, que são importantes para a produção de alimentos. No entanto, a grande concentração de pesquisadores dessa temática está no Sul, Sudeste e um pouco no Nordeste do país; portanto, faltam especialistas, faltam estudos nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Na região Norte, há vários trabalhos sobre a polinização da castanha-do-Brasil, que é um produto que está sendo exportado. Atualmente, sabemos quem é o polinizador da castanha, mas faltam informações sobre como manejar esse polinizador. Esse é só um exemplo de uma planta do Norte, mas existem muitas outras plantas das quais nem sabemos quem é o polinizador. Então, falta realmente um incentivo a estudos de polinização nessas regiões do Brasil.

IHU On-Line — Qual é a importância dos polinizadores para a produção de alimentos? Além das abelhas, quais são os demais polinizadores representativos na polinização e produção de alimentos no Brasil?

Kayna Agostini — O Brasil é um país extremamente biodiverso e há uma série de animais que podem atuar como polinizadores. As abelhas, sem dúvida nenhuma, são a grande maioria entre as espécies polinizadoras, mas existem outros invertebrados que atuam como polinizadores na produção de alimentos. Um exemplo são os besouros, os quais são muito importantes para a polinização do dendê e do açaí, assim como algumas borboletas e mariposas. E há também os vertebrados, que são os animais maiores que atuam como polinizadores, como o beija-flor, que é bem importante na polinização do maracujá-poranga (ou maracujá-vermelho), e o morcego, que é muito importante na polinização do pequi, um fruto muito consumido em Minas Gerais e em Goiás. Há um leque de polinizadores interessantes no Brasil por conta dessa grande biodiversidade que existe no país.

 (Fonte: O Eco)

IHU On-Line — Nos últimos anos, os pesquisadores têm registrado a morte de muitas abelhas e associam esse fenômeno ao uso de agrotóxicos. Quais são as conclusões do relatório sobre a situação dos polinizadores no país? Ele traz alguma informação nesse sentido?

Kayna Agostini — Isso começa a ser relatado, mas ainda não temos uma rede de informações sobre como está ocorrendo essa mortandade tão grande de colmeias; isso precisaria ser melhor gerenciado no Brasil. E, para outros polinizadores, não temos nem ideia de como os agrotóxicos estão impactando esses animais. Mas o interessante é pensarmos que o agrotóxico não atua apenas na mortalidade de abelhas — na grande taxa de mortandade que está ocorrendo atualmente —, mas também pode atuar em alguns outros traços do comportamento das abelhas, como na desorientação de voo, repelindo-as da cultura agrícola. Quando é aplicado determinado agrotóxico, ele não está apenas repelindo a praga, está repelindo também um polinizador. Consequentemente, a taxa de produção de alimentos será menor, isto é, há uma série de impactos.

Obviamente, a mortandade é o fator mais impactante, o qual não conseguimos reverter de maneira nenhuma, mas existem outros graus de impacto, sobre os quais ainda estamos aprendendo, porque ainda não existem muitos estudos relacionados a eles.

Existem indicações da utilização de agrotóxicos — as taxas subletais de aplicação —, mas o que se vê atualmente é que mesmo as taxas subletais de agrotóxicos causam impactos no polinizador. Portanto, é preciso fazer uma discussão muito grande com o setor privado, com os acadêmicos e com o governo para elaborar políticas públicas importantes de defesa e de conservação dos polinizadores.

IHU On-Line — O relatório também trata sobre o déficit na polinização e os ganhos com manejo de polinizadores. Quando e por que o déficit na polinização ocorre, o que é a polinização suplementar e quais são os custos sociais, econômicos e ambientais dessa polinização?

Kayna Agostini — O déficit de polinizadores ocorre não apenas por causa da utilização de agrotóxicos, mas pelo uso indevido do solo, ou seja, a mudança na utilização do solo está afetando a polinização também. Estamos assistindo a um crescimento muito grande das áreas cultivadas, e isso faz com que ocorra desmatamento, retirada de vegetação nativa, o que impacta diretamente os polinizadores, porque esses fragmentos florestais que existem ao redor das produções são estoques de polinizadores. Os polinizadores se mantêm ali ao longo do ano e na hora que há a floração de uma produção agrícola, eles utilizam os recursos desse cultivo agrícola. É por isso que falamos que se trata de um serviço ecossistêmico: é preciso ter uma área onde os polinizadores vão morar permanentemente e, ao longo do ano, conforme ocorre a floração dos cultivos, esses polinizadores saem dessas áreas onde estão e vão procurar recursos nas áreas cultivadas. Assim, eles ajudam na produção de alimentos, mas tem que haver uma área onde eles permaneçam ao longo do ano, que são os fragmentos florestais.

Estamos vendo que esses fragmentos e as matas nativas estão sendo retirados, portanto, está se retirando o estoque de polinizadores. Isso gera um déficit de polinizadores para as culturas agrícolas. Há duas maneiras de resolver isso. Uma delas é colocar polinizadores manejados, com caixas de abelhas, por exemplo – porém, nem sempre aquela abelha é a espécie mais adequada para aquele tipo de cultura e para o ecossistema em si. Mas estamos falando de déficit de polinizadores, então, para a produção agrícola esse modelo é mais adequado. Muitos produtores utilizam a Apis mellifera, uma abelha exótica, que pode ser uma grande competidora das abelhas nativas se tiver alguma abelha nativa por perto, e muitas vezes ela não tem o comportamento adequado para aquela flora daquele cultivo agrícola; isso causa um déficit de polinização muito grande. A outra maneira de suprir esse déficit é fazer a polinização manual, o que é muito utilizado, por exemplo, na produção do maracujá. Para isso se contratam pessoas que ficam contactando os elementos masculinos de uma flor e colocando esse grão de pólen na parte feminina de outra flor, de outro indivíduo. Isso faz com que o produtor gaste dinheiro na contratação dessas pessoas e nem sempre se tem uma eficácia no resultado. A produção de maracujá provavelmente será menor do que se tivesse um polinizador nativo. Então, em linhas gerais, vemos que essa mudança no uso do solo por meio da retirada de vegetação nativa está impactando diretamente o serviço de polinização.

IHU On-Line — O relatório também aborda os conhecimentos tradicionais sobre os polinizadores. Como comunidades indígenas e povos tradicionais fazem o manejo de polinizadores e o que é possível aprender com eles sobre essa questão?

Kayna Agostini — Eles têm um conhecimento muito grande sobre o manejo de espécies nativas de abelhas, como abelhas sem ferrão, por exemplo. Como isso é manejado dentro de uma floresta, onde se tem a temperatura ideal para que aquela colmeia fique bem e não tenha patógenos, eles conseguem fazer isso de maneira muito adequada. Então, precisamos ter o contato com a cultura desses povos para conseguir mais informações para tentar fazer o manejo num ambiente antropizado. Os povos tradicionais são essenciais para que tenhamos informações do comportamento das espécies no seu habitat natural e de como podemos amenizar a falta dessas características num ambiente antropizado.

IHU On-Line — A partir dos dados científicos apresentados pelo relatório, que questões ligadas aos polinizadores ainda precisam ser mais estudadas no país?

Kayna Agostini — Em termos científicos e acadêmicos, precisamos estudar mais outros cultivos sobre os quais ainda não temos nenhuma informação de como funciona o sistema de polinização e qual é a eficiência dos polinizadores nessas culturas. Sem dúvida nenhuma, temos que entender mais sobre o manejo de polinizadores para tentar utilizar espécies nativas como polinizadores manejados, e não espécies exóticas.

O grande pedido do relatório, a necessidade urgente, é que os governantes comecem a se sensibilizar com essa causa e façam políticas públicas para a conservação dos polinizadores. Obviamente, a conservação dos polinizadores “pega carona” em outras leis brasileiras que dão importância para áreas reflorestadas e para a manutenção de fragmentos florestais de outras vegetações nativas também, porque se conseguirmos fazer uma lei de proteção à vegetação nativa, claro que estaremos protegendo os polinizadores também. Mas precisamos de uma política pública que vá um pouco além disso. Por exemplo: hoje em dia vemos muitas pessoas trocando colmeias, como as que são transportadas do Nordeste para o Rio Grande do Sul, e do Sul para o Norte do país. Isso muitas vezes é impactante para os polinizadores nativos daquela região, porque embora todas sejam espécies brasileiras, elas não estavam presentes nas regiões para as quais são transportadas. Então, temos que conversar muito não só com os agricultores, mas também com apicultores e meliponicultores para tentar criar uma lei mais adequada à preservação dos polinizadores no Brasil.

IHU On-Line — Como está ocorrendo o diálogo com as instâncias dos governos e com o governo federal?

Kayna Agostini — Vemos que existem algumas ações de governantes locais. Em termos de governança federal, vemos algumas preocupações no alto escalão e entre alguns senadores por meio dos seus assessores. A preocupação com os polinizadores é maior principalmente quando mostramos o impacto que o valor monetário da polinização tem na balança comercial brasileira de produtos agrícolas.

Um fato com o qual as pessoas ficam bastante abismadas, é que em algumas regiões o polinizador pode aumentar em até 30% a rentabilidade da soja, a produção de grãos. Para um grande produtor de soja, isso é muito bom. Então, essas pessoas começam, talvez, a criar uma consciência de manter áreas de espaço de polinizadores para que se tenha um aumento da produtividade. Acredito que agora as pessoas estão começando a enxergar mais os polinizadores, não só no Ministério do Meio Ambiente, mas também nos Ministérios da Agricultura e de Ciência e Tecnologia. Precisamos desses Ministérios conversando para que vejam a polinização não simplesmente como um “bicho interagindo como uma flor”, mas percebam a importância econômica desse serviço ecossistêmico para a economia. É apenas quando falamos em valor monetário que as pessoas começam a ficar atentas, infelizmente. Mas agora acredito que estamos no caminho, porque estamos mostrando a importância financeira dos polinizadores.

IHU On-Line — Como fazer para que a sociedade compreenda a importância da polinização na segurança alimentar e nutricional?

Kayna Agostini — Isso faz parte da falta de conhecimento que as pessoas adquirem na base, na própria escola, e as relações que elas fazem com esse conhecimento. Muitas vezes, o processo de polinização é ensinado, única e simplesmente, como a transferência de grão de pólen de uma flor para outra, mas não existe uma continuidade para ver ao que leva essa transferência de pólen. Meu maior impacto foi quando fui conversar com alunos e eles achavam que um fruto, por exemplo, o maracujá, nascia sozinho. Não. Só existe maracujá porque veio de um processo de polinização; se não há polinização, não existe maracujá. É difícil as pessoas fazerem essa relação. Nós também queremos mostrar isso no conhecimento de base, na escola, para que as pessoas criem a consciência desse processo; consciência não só financeira, mas também a consciência da importância nutricional disso na sua alimentação.

IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

Kayna Agostini — Seria importante que as pessoas visitassem o site da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Ali existem os dois produtos, o sumário para os tomadores de decisão e o relatório maior, com mais informações acadêmicas, para que as pessoas leiam e criem consciência da importância desse serviço ecossistêmico em nosso dia a dia.

 

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