Igreja da Europa Oriental promove a Humanae Vitae

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27 Julho 2018

No 50º aniversário da famosa Encíclica do Papa Paulo VI, Humanae Vitae, neste mês de julho, julgamento dos analistas católicos dos EUA e da Europa Ocidental foi bastante crítico. No entanto, vozes poderosas defenderam o documento, particularmente entre as lideranças conservadoras da Igreja da Europa Oriental.

A reportagem é de Jonathan Luxmoore, publicada por National Catholic Reporter, 26-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

"Devemos lembrar que o contexto era muito diferente no Ocidente e na nossa região, onde tudo que era contra a vida humana e a família estava sendo atribuído ao comunismo", explicou pe. Piotr Mazurkiewicz, ex-secretário geral da COMECE, a Comissão em Bruxelas que representa os bispos católicos da Europa. "Humanae Vitae foi vista como um contrapeso às políticas comunistas, um passo em direção à defesa por parte da Igreja de princípios como liberdade e dignidade, então não houve muita resistência.”

Na Polônia, tem havido também outra razão ao apego à Humanae Vitae, que reiterou a doutrina católica ortodoxa sobre o casamento e rejeitou a contracepção artificial, insistindo que sexo deveria ser intrinsecamente ligado à procriação.

A Igreja polonesa, estritamente regulada e disciplinada, permanece comprometida com os ensinos do reverenciado São João Paulo II, cuja influência filosófica sobre a Encíclica, a sétima e última de Paulo VI, está bem documentada.

Não surpreendentemente, Humanae Vitae tem sido vigorosamente defendida em conferências e seminários da Igreja polonesa como uma expressão de lealdade pessoal ao Papa conterrâneo, que proclamou enfaticamente sua mensagem pró-vida durante nove visitas à sua terra natal antes de sua morte em 2005.

Falando na Conferência Episcopal polonesa em Varsóvia em junho, Henryk Hoser, arcebispo aposentado de Varsóvia-Praga e ex-presidente das Pontifícias Obras Missionárias do Vaticano, disse que Paulo VI tinha corretamente previsto, durante o turbulento 1968, como a contracepção "abriria um fácil caminho para a infidelidade conjugal e um colapso geral das normas."

Hoser, médico que dirige a Comissão de Bioética da Igreja polonesa, observou que a Igreja daquela época tinha enfrentado os desafios de um rápido crescimento demográfico, bem como uma mudança social e cultural, e a preocupação sobre o mundo natural, que tinha estimulado demandas de controle de natalidade universal.

Mas Humanae Vitae identificou como estes pontos corromperiam jovens e deteriorariam o respeito pelas mulheres. De seu modo, ela ofereceu uma "visão integral" da pessoa e de um amor conjugal de auto doação, eterno e frutífero, que se justificava ainda levando em consideração as injustiças e desigualdades destacadas hoje em dia por movimentos contemporâneos, tais como o "#MeToo."

Pe. Pawel Galuszka, teólogo moral da arquidiocese de Cracóvia, cujo livro Karol Wojtyla and Humanae Vitae, estudou a correspondência entre Paulo VI e o seu sucessor, acha que a confiança do então cardeal no personalismo católico era uma novidade antes do Concílio Vaticano II.

Mas o futuro Papa também se baseou fortemente em sua experiência empírica como capelão da juventude, o que deu peso e profundidade ao "memorando de Cracóvia", que posteriormente foi compilado com teólogos locais e enviado a Paulo VI.

Uma vez que se tornou Papa em 1978, Wojtyla ficou determinado a "preencher as lacunas" com uma visão mais abrangente e antropológica, diz Galuszka, o que foi desenvolvido em sua própria Exortação Apostólica, Familiaris Consortio (1981) e nas encíclicas Veritatis Splendor (1993) e Evangelium Vitae (1995).

Galuszka acredita que a "oposição barulhenta" a esta visão por alguns católicos ocidentais tem ofuscado e abafado o amplo apoio que recebeu a partir de 1968.

Isto marcou especialmente numa Europa Oriental sob domínio comunista, onde o aborto era livremente disponível e os direitos parentais e da família eram restritos, e onde Humanae Vitae, embora atacada como "reacionária" na União Soviética, contribuiu aos católicos com uma mobilização pró-vida contra as injustiças comunistas.

Malgorzata Glabisz-Pniewska, católica e locutora sênior na Polish Radio, acha que o apoio apaixonado de João Paulo II à Humanae Vitae estava profundamente enraizado nos sofrimentos durante a guerra da Polônia, onde uma de suas colaboradoras mais próximos, Wanda Poltawska, havia testemunhado recém-nascidos intoxicados por gás no campo de concentração nazista, sob direção feminina, em Ravensbrück, na Alemanha.

“Quando Humanae Vitae foi lançada, quase duas décadas tinham passado desde a Segunda Guerra Mundial, em que milhões de poloneses morreram, de modo que a defesa da vida em todas as formas parecia absolutamente um imperativo", disse Glabisz-Pniewska ao NCR. "Como toda a questão da ética sexual foi quase inexplorada na Polônia, esta postura pró-vida poderia às vezes parecer extrema, especialmente em outras partes do mundo que tinham escapado de tais sofrimentos e viam o aborto e a contracepção como expressões de liberdade. Muitas pessoas rejeitaram Humanae Vitae sem realmente a ler. Não conseguiam entender as questões que a Igreja estava apresentando, e muito menos as respostas que estava oferecendo."

Perspectivas polonesas influenciaram a Igreja Católica em toda a Europa Oriental, onde o clero exercia uma presença poderosa e onde muitos líderes católicos preferem os firmes ensinamentos de João Paulo II às abordagens de pastoral reformista defendidas pelo Papa Francisco.

Vários líderes da Igreja elogiaram Humanae Vitae por abarcar profeticamente dilemas morais e sociais do mundo.

Em uma carta pastoral de maio, bispos do Cazaquistão recordaram as "verdades contidas na Encíclica de 1968", insistindo que toda a história humana forneceu evidências de que o "verdadeiro progresso da sociedade depende, em grande medida, de grandes famílias."

Todo mandamento divino, apontaram eles, também trouxe o "dom da graça que orienta a liberdade humana a cumpri-la" que poderia ser obtida "através de oração constante e dos sacramentos."

Na Bielorrússia, o líder da Igreja, arcebispo Tadeusz Kondrusiewicz de Minsk-Mohilev, acredita que o ensino católico sobre os males contemporâneos, apesar de todas as controvérsias, manteve-se, consistente.

"Meio século atrás, a reboque do que se chamou de revolução sexual, foi feita uma tentativa de rejeitar o Evangelho como o fundamento da cultura europeia", disse Kondrusiewicz aos católicos em Budslau em julho. "Humanae Vitae ofereceu uma resposta para esta patologia moral e, simultaneamente, fez uma chamada à conversão permanente. Ela mostrou como, para construir uma ordem civil, a vida humana deve ser acolhida à luz do plano de Deus e da eterna ordem sobrenatural."

Na vizinha Eslováquia, uma conferência em junho na Fundação do Cristianismo explorou as implicações da "rejeição pelo mundo" de Humanae Vitae, enquanto que, na Croácia, a Federação Internacional de Associações Médicas Católicas se reuniu em maio com o arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, para apresentar "uma resposta à relativização da sacralidade e dignidade da vida humana e sua procriação, causada por movimentos sociais desde a década de 1960."

Na década de 1970, o líder da Igreja polonesa, cardeal Stefan Wyszynski, tentou de sua maneira persuadir o regime comunista do seu país sobre os perigos sociais e demográficos do aborto, e induzir alguns membros do partido comunista a apoiarem a postura pró-família.

Meio século depois, Mazurkiewicz insiste sobre o documento que, na perspectiva do leste europeu, advertiu contra a objetificação das mulheres e contra a pressão das Nações Unidas e de outras organizações em frear drasticamente o aumento populacional nas regiões mais pobres do mundo.

"Se a Igreja tivesse aprovado a contracepção, isso teria sido usado por líderes políticos e organizações internacionais para promover desumanas restrições ao crescimento populacional — a 'nova forma de colonização ideológica', que os bispos africanos advertiram contra no último Sínodo de Roma", disse ele. "Na cultura ocidental, a visão da humanidade talvez já não seja predominantemente cristã. Noções ateístas e anti-cristãs entraram até mesmo na comunidade católica. Mas a Igreja tem hoje a consciência tranquila pois se opôs a essas coisas desde o início com Humanae Vitae."

Mesmo na tradicionalmente católica Polônia, pressões secularizantes são sentidas como nunca, com pesquisas confirmando a oposição generalizada a aspectos da doutrina da Igreja em um contexto de queda de vocações e de presença na missa.

Um em três poloneses manifestaram total apoio aos ensinamentos morais católicos em áreas como sexo e contracepção. E enquanto a oposição ao aborto continua sendo forte, 90% dos jovens que frequentam cursos pré-matrimoniais já vivem juntos, de acordo com o pe. Wojciech Sadlon, diretor do Instituto de Estatísticas da Igreja polonesa.

Em maio, o primaz católico da Polônia, arcebispo Wojciech Polak de Gniezno, alertou que muitas paróquias arriscam se transformar em "guetos", cheias de "pessoas vaidosas que se isolam uma das outras."

Enquanto isso, o arcebispo Grzegorz Rys de Lodz convocou a Igreja a rever sua abordagem pastoral e começar a levar muito mais em conta as necessidades individuais.

Apesar de 94% dos jovens questionados citarem a família como seu "maior valor", Rys assinalou que somente 38% citou a fé cristã, enquanto apenas 6% era contrário à contracepção e apenas 10% alegou algum envolvimento "forte" na vida da Igreja.

"Tornamos Deus numa coleção de conceitos, abstrações e definições", disse ele aos jornalistas em maio. "Todo mundo está encantado com declarações de que a família é o valor chave aos jovens. Mas eles não estão expressando esse valor de maneira religiosa. ... Estamos claramente perdendo alguma coisa aqui, com graves implicações."

Críticas à Humanae Vitae têm aparecido na mídia secular da Polônia, com alguns comentaristas ecoando visões ocidentais de que a Encíclica impediu a luta contra a AIDS, nunca foi aceita como parte de um sensus fidelium entre os católicos, e de que as ideais apresentadas não passavam de atraentes, mas impraticáveis.

Mazurkiewicz rejeita tais críticas.

Mesmo na Polônia conservadora, o ensinamento da Igreja evoluiu no meio século desde Humanae Vitae, diz Mazurkiewicz, longe do foco social e demográfico de Wyszynski e seus contemporâneos, no sentido de um maior engajamento com o conhecimento médico e científico, e uma abordagem mais holística e pastoral.

"Mas quando falamos de ideais, temos que distinguir entre aqueles inerentemente irrealizáveis, os quais a Igreja nunca pregou, e aqueles que refletem algo fundamental para as intenções de Deus", disse ele ao NCR.

"Sabemos que existe o pecado e o mundo não pode ser perfeito. Mas isto não é um argumento contra o cristianismo — exatamente o oposto, é uma parte fundamental do ensino cristão. Alguns críticos afirmam que as pessoas devem poder exercer sua vontade sobre tudo, incluindo sua própria fertilidade. O que Paulo VI nos recordou foi que existem algumas áreas importantes onde Deus está no controle e a vontade humana não é suficiente."

Alguns bispos da Europa Oriental pensam que sua Igreja tem a missão de mostrar o caminho aos confusos e desmoralizados católicos do Ocidente.

Na pregação durante as celebrações do 1050º aniversário do primeiro bispado católico de seu país no final de junho, o presidente da Conferência dos Bispos, arcebispo Stanislaw Gadecki de Poznan, disse que a Europa estava olhando a robusta fé católica da Polônia para salvá-la do "totalitarismo flácido".

A sociedade de consumo compartilhou os mesmos objetivos do comunismo, insistiu Gadecki, procurando manipular os seres humanos através de um "sistema poderoso de burocracia e meios de comunicação, e uma linguagem modificada pela propaganda."

O sistema europeu de democracia parlamentar já não se baseia na violência, mas em "uma ditadura do materialismo", que procurou, como o comunismo, "privar a pessoa da identidade e da responsabilidade."

"A revolução europeia começou com uma mudança de cultura, que foi transformada numa ferramenta ideológica, cuja energia é totalmente dedicada a destruir as estruturas tradicionais", disse ele aos católicos. "Nessas novas condições, devemos difundir no mundo um exemplo de vida do Evangelho e externar nossa fé num novo compromisso missionário. Este é o primeiro e fundamental serviço que nossa Igreja deve fazer para toda a humanidade."

Arcebispo Marek Jedraszewski da Cracóvia disse em missa comemorativa da Humanae Vitae que os mesmos desafios enfrentados por Paulo VI agora estão sendo colocados por uma manipulação deliberada de pensamento e linguagem, que promoveu a "ideologia de gênero, reduziu a vida conjugal ao mero prazer e substituiu a ideia de procriação com a de reprodução"— ajudada por um coquetel onipresente de álcool e narcóticos.

Ele atribuiu o declínio da Igreja em países como Alemanha, Bélgica e Holanda a oposição local à Humanae Vitae e ensinamentos derivados por volta da década de 1960.

A posição de Glabisz-Pniewska, a apresentadora da Polish Radio, é imperturbável.

Em algumas áreas, pelo menos, a Igreja sempre enfrentará os desafios do avanço médico e de novidades científicas, disse ela. Mas existe uma consciência muito maior entre os seus líderes hoje das complexidades em torno de questões sociais e morais.

E enquanto alguns bispos não queiram admitir, existe também uma completa disponibilidade para seguir Francisco no distanciamento de frias e burocráticas regras, para uma consideração mais terna das necessidades pastorais.

"Mesmo em países como o nosso, a Igreja sabe que há áreas de intimidade que tem que ser deixadas para as consciências particulares, e onde o circunstâncias individuais devem ser consideradas sobre meras generalidades", disse ela ao NCR.

"Aqui, como em outros lugares, o problema real que enfrenta a Igreja não é a falta de qualquer voz articulada na doutrina, mas o simples fato de que a maioria das pessoas já não entende e nem aceitam essa doutrina — e já não veem nada de errado na maneira como vivem e se comportam."

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