Miriam de Magdala, a amante

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01 Março 2018

"Muito caminho precisou percorrer Miriam: de incredulidade à fé, do tédio ao puro desejo, do isolamento à amizade, da dureza às lágrimas, da Galileia até Jerusalém. E, como narra João Evangelista, estava presente embaixo da cruz de Yehoshua, ao lado de sua mãe, chorando sua tristeza, ao vê-lo morrer", escreve Gianluca De Candia, professor de teologia na Universidade de Münster e colaborador do Departamento prof. Klaus Müller, em artigo publicado por Settimana News, 23-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Miriam de Magdala não fazia segredo de amar a boa vida. Uma fortaleza atarracada e maciça, cor de terra, entre enseadas escondidas do lago de Genesaré era seu pequeno universo paralelo, onde todas as leis do judaísmo haviam sido abolidas. Uma atmosfera exótica flutuava dentro daqueles muros: o interior decorado com sedas suntuosas, pilhas de almofadas coloridas, vasos da Grécia, tapetes finos, móveis de cedro e marfim adornados por refinados enfeites.

No átrio, enfeitado por cascatas de flores e plantas mediterrâneas, reinava uma piscina octogonal, digna de um vizir do Egito, onde a sua nudez parecia voltar para o gáudio primordial do Éden.

Naquele reino, extravagante e nobre, uma única legislação vigente: o desejo e o desperdício. Que culpa poderia ter Miriam se seu pai e sua mãe, morrendo sem outros parentes, tinham deixado para ela todas as suas posses? Porém o extremo conforto daquela vida a tinha levado ao pecado. A cada amanhecer a única coisa em sua mente era superar o tédio diário. Então reunia todas as suas forças, lideradas por uma transbordante imaginação, para que se unissem contra a monotonia dos dias. E assim quebrou todos os tabus, amava sem se preocupar em escolher e baniu de sua terra todo pesar e escrúpulo.

Soberana na sedução, logo ganhou um ascendente sensual e uma hegemonia tão grandes quanto a sua crueldade. Não havia ninguém que, seduzido, se mostrasse livre da suave tirania de seu palácio. Muitos braços a havia tomado, os mesmos que um dia iriam levantar pedras contra ela. Uma vida assim, naquele tempo e naquelas terras, era praticamente impossível.

Na enésima troca amorosa entre um fariseu e outro, os odres da condescendência estouraram. Com a ferocidade da masculinidade humilhada, homens contrataram reforços e foram ao amanhecer até o castelo, arrebentaram os portões, arrancando-a à força do último amante e a arrastaram até o templo, sozinha. Não quiseram tocá-la, eles, os fariseus, para não se contaminar, conspurcando sua vil pureza.

Naquela manhã, sentado em um canto do pórtico de Salomão, Yehoshua pregava aos seus discípulos. O silêncio à sua volta e o timbre de sua voz traziam paz para a agitação humana. Um empurrão e aos seus pés foi jogada uma mulher, com os longos cabelos despenteados e encharcados de lágrimas, apanhada em flagrante adultério.

"Então, o que você diz?" exigiram os fariseus vibrantes de euforia.

"Moisés, na lei, mandou apedrejar mulheres como esta!" avisavam os escribas. Para qualquer um, situação embaraçosa, mas não para eles, estufados de negra pureza.

Miriam enquanto isso, cabeça baixa e mãos cerradas em punhos, parecia suspirar pelo machado que cortaria logo o fio daquele eterno instante.

Yehoshua, abaixando-se, escreveu com o dedo no chão. E o segredo daqueles sinais foi rapidamente roubado pelo primeiro sopro de vento, que, passando, acariciou o rosto da mulher e correu para o alto.

Que o silêncio gritasse tão alto, nunca o tinham aprendido antes daquele momento aqueles catedráticos: "Então, Rabi?"- insistiam irritados.

Levantando apenas a cabeça, segurando estático e firme o corpo viril: "Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra contra ela".

E, abaixando-se novamente escrevia no chão.

Rápida a brisa passou, e agora um beijo deu nas pálidas folhagens.

Ao ouvir tais palavras caíram véus das ébrias pupilas. Como humildes fios de grama curvados pelo vento, com a cabeça abaixada foram saindo, começando pelos mais idosos até os últimos, os que mais carregados traziam os alforjes vergonhosos.

Dispersado o bando, permaneceu apenas Jesus com a mulher lá no centro. A Misericórdia, caindo a seus pés, amavelmente disse:

"Mulher, onde estão? Ninguém te condenou?”.

E ela encantada: "Ninguém, Senhor".

"Nem eu te condeno; vá e não peques mais..."

Sete - relata o Evangelho - foram os demônios que saíram da pecadora: não havia vício que ela não conhecesse.

Levantou-se rapidamente, tentando cobrir-se com os farrapos de suas vestes e fugiu para longe. E quanto mais corria, mais entendia as palavras daquele jovem Rabi. O vento frio sobre o corpo e a terra úmida sob seus pés, mostravam que era real aquele pesadelo que se transformava em um sonho.

E voltou para casa.

Tudo estranho. A superficialidade de seu ambiente doméstico, de repente, pareceu-lhe pesada. Intolerável a vista do tálamo, de tudo... Um choro incontrolável a invadiu: lacrimae lavant.

Não sabemos o que aconteceu logo depois disso.

Os Evangelhos nos contam sobre uma mulher, que um dia, na hora do almoço, entrou escondida na casa de um fariseu, onde estava Yehoshua. Da porta, rastejando, chegou até o Mestre e chorou. Com lágrimas banhava os seus pés viris e os enxugava com seus próprios cabelos. Acariciava-os delicadamente, apoiando seus lábios para beijá-los.

Em seguida, quebrando um frasco de nardo precioso - subtraído talvez de seus pertences antigos - começou a espargi-los com aquele óleo perfumado.

O fariseu, diante daquela feminina sensualidade, pensou consigo mesmo: "Se este homem fosse realmente um profeta, saberia que pecadora o está tocando!».

E Yehoshua, dirigindo-se a Kefa que estava com ele: "Simão...."

E ele respondeu: "Dize, Rabi".

"Ouça-me. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e outro cinquenta. Nenhum dos dois tinha como pagá-lo, então ele perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?».

E ele respondeu: "Certamente, aquele a quem foi perdoada a maior dívida".

"É isso mesmo, Simão", disse Yehoshua.

E apontando para a mulher benevolente ajoelhada a seus pés: "Vê esta mulher? ... Os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama".

Dali em diante Miriam não se separou mais de Yehoshua. Ela livrou-se de todas as suas posses e juntou o que conseguiu ao de outras mulheres, que seguiram o grupo dos discípulos.

O encontro com aquele Rabi itinerante havia restituído a inocência sempre procurada. Em torno dela as amizades floresceram: Susana, Joana, mulher de Cuza, Miriam de Cléofas e as outras, com os doze e os tantos que seguiam Yehoshua. E também com eles estava a Mãe, mulher de inigualável humanidade.

Muito caminho precisou percorrer Miriam: de incredulidade à fé, do tédio ao puro desejo, do isolamento à amizade, da dureza às lágrimas, da Galileia até Jerusalém. E, como narra João Evangelista, estava presente embaixo da cruz de Yehoshua, ao lado de sua mãe, chorando sua tristeza, ao vê-lo morrer.

Ela não dormiu naquela noite. Haviam lhe tirado seu amado, tudo, deixando apenas desespero e desolação. Vagou sem rumo pelas ruas e praças. Sozinha, atordoada pela dor. E voltou para casa, por pouco.

Já não era mais noite, mas ainda não amanhecia, quando ela percebeu que não mais encontraria ali o amor de seu coração, agora já trancado no sepulcro. Foi até lá.

O sol estava começando a despontar no horizonte, quando ela chegou ao cemitério. Arregalou os olhos de espanto: a grossa pedra arredondada, no dia anterior colocada na entrada da tumba havia sido removida!

Rápida como sempre, deixando cair os unguentos, correu para avisar Kefa: "Levaram o Senhor! Eles o levaram para longe, e não sabemos onde o colocaram!".

Kefa e João, então, correram até o local e viram o que havia dito a eles a mulher. E enquanto eles voltavam para casa, ela, perturbada, voltava sobre os seus passos, impelida por uma força indescritível, como muitas vezes acontece com aqueles que sofrem de uma dor extrema.

Ela parou diante da gruta escura, sentindo a grande ausência do Senhor. Caindo sobre seus joelhos, Miriam chorava: as lágrimas eram a última certeza que ainda lhe restava.

"Mulher, por que choras?"- suavemente alguém perguntou lá da cripta. Eram duas figuras jovens, sentadas lado a lado aos pés da laje.

Miriam quase sem perceber, ofuscada pelo longo lamento, respondeu: "Levaram o meu Senhor, e eu não sei onde o puseram".
Um farfalhar de grama ouviu-se atrás dela. Ela virou-se.

"Mulher, por que choras? A quem procuras?”- um homem falou para ela. E com os olhos ainda enevoados de lágrimas, pensando que era um guardião, Miriam respondeu: "Oh senhor, se o levaste, dize-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo".

E ele :"Miriam!”.

Um despertar: "Rabuni”. E ela atirou-se imediatamente em seus braços, e o abraçou com força contra o peito: "Yehoshua!”. E continuava a beijá-lo.

Ele disse a ela: "Miriam, não me segures, eu ainda não subi junto do Pai. Mas vá até os meus irmãos e dize-lhes, que eu subo junto do meu Pai e vosso Pai".

Miriam de Magdala, então fez o que lhe foi dito pelo Senhor. Ela, a primeira a ver o Ressuscitado. E mais uma vez se cumpriam as palavras do Rabi: “As prostitutas vos precederão".

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