Embora com menos poderes, Sarah não recua na defesa da tradição

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19 Setembro 2017

Embora o cardeal Robert Sarah, da Guiné, possivelmente tenha tido as suas asas cortadas, já que o Papa Francisco recentemente transferiu aos bispos locais uma parte do controle do seu dicastério vaticano sobre a tradução dos textos litúrgicos, o discurso principal que ele pronunciou na quinta-feira passada sugere que, se alguém espera que Sarah fique quieto, pode esquecer isso – e, igualmente, se alguém espera que ele vai entrar em guerra contra o chefe, pode esquecer isso também.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 15-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De um certo ponto de vista, o cardeal Robert Sarah, da Guiné, acaba de ter as suas asas cortadas. O Papa Francisco, no sábado passado, tirou uma parte considerável do controle sobre as traduções de textos para uso no culto católico da sua Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, do Vaticano, e atribuiu-o às conferências episcopais locais.

Em parte por essa razão, a primeira aparição pública de Sarah em Roma, na quinta-feira passada, em um congresso na universidade Angelicum, gerida pelos dominicanos, no 10º aniversário do Summorum Pontificum, um documento do Papa Emérito Bento XVI que ampliou a permissão para a celebração da antiga missa em latim, adquiriu o status de um evento midiático.

Sarah, agora com 72 anos, falou por quase uma hora, e aqui está aquela que parece ser a linha de fundo de onde ele se encontra: se alguém espera que Sarah agora vai ficar mais tranquilo, silenciando a sua vigorosa defesa da tradição litúrgica, pode esquecer isso.

Na quinta-feira, Sarah saiu atirando com todas as armas, insistindo que o culto católico não é o lugar da “criatividade e adaptação”, porque ele “já foi adaptado”, tornando-o o lugar onde “passado, presente e futuro se encontram em um instante”. Ele defendeu a postura ad orientem na missa e emitiu uma defesa agitada aos jovens adeptos da missa em latim, assim como um forte apelo aos irmãos bispos a “darem espaço” para eles.

Igualmente, se alguém esperava que Sarah entraria em guerra com o seu chefe, sugerindo sutilmente ou não que Francisco é o problema – assim como alguns da multidão reunida na quinta-feira disseram publicamente –, pode esquecer isso também.

Em vários pontos durante o seu discurso, Sarah descreveu explicitamente o Summorum Pontificum como algo que Bento XVI iniciou e que “o Papa Francisco continuou”. Sem nunca se referir ao novo motu proprio sobre a tradução, Sarah certamente não chegou nem perto de criticá-lo.

Em outras palavras, parece que Sarah planeja continuar sendo precisamente aquilo que ele tem sido até aqui – um herói, de certa forma, para a ala mais tradicionalista da Igreja, que lhe deu altos e contínuos aplausos na quinta-feira, mas não o líder da oposição interna.

(Como nota de rodapé, uma figura que alguns elevaram a esse papel, o cardeal estadunidense Raymond Burke, um dos quatro cardeais que submeteram uma lista de perguntas, ou dubia, a Francisco sobre o seu documento Amoris laetitia, estava na primeira fila no evento de quinta-feira.)

Sarah começou elogiando o Summorum Pontificum como um “sinal de reconciliação na Igreja” por parte de Bento XVI e disse que ele trouxe “muito fruto”. Ele lembrou a todos que Bento XVI havia afirmado explicitamente que o documento “nunca foi revogado”.

Ele argumentou que uma forma de liturgia mais reverente e sóbria que põe a ênfase no “primado de Deus” nunca foi tão importante quanto agora, perante um mundo marcado por “um secularismo cada vez mais agressivo, consumismo, terrorismo sem Deus e uma cultura da morte que põe em risco os nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis “.

Sarah sugeriu que, se a Igreja hoje não se vê sempre suficientemente “zelosa” em relação à sua missão, a liturgia excessivamente moldada pelos gostos e modas modernos poderia ser uma das causas. Ele também afirmou que “ainda há muito a se fazer para uma aplicação completa e correta” da visão do Concílio Vaticano II (1962-1965) sobre a sagrada liturgia.

Como costuma fazer, Sarah ofereceu uma forte indicação para a celebração da missa ad orientem, ou seja, com o padre e o povo voltados para o Oriente, em direção ao altar, e, em última instância, em direção a Deus. Ele chamou isso de um gesto que era “quase universalmente presumido nas formas antigas do Rito Romano, tornado acessível gratuitamente por Bento XVI para aqueles que desejam usá-lo”.

No entanto, Sarah disse: “Essa bela prática antiga, tão eloquente sobre o primado do Deus todo-poderoso, não é restrita apenas ao rito antigo. Ela é permitida e encorajada, e, eu insistiria, pastoralmente vantajosa na forma mais moderna do Rito Romano”.

Sobre a importância das pequenas coisas, como os objetos usados durante a missa católica, Sarah citou o exemplo de dois seminaristas estadunidenses que, uma vez, levaram até ele, antes da missa, o cálice que ele deveria usar e pediram que ele o abençoasse antes de colocá-lo perto do altar, chamando isso de um gesto “muito comovente”.

Abordando o tema do seu último livro, Sarah fez um forte apelo por um maior silêncio no culto, chamando-o de “o primeiro ato de serviço sagrado”.

Sarah também ressaltou aquilo que ele descreveu como “muitos jovens que estão descobrindo essa forma litúrgica, que se sentem atraídos por ela e consideram-na uma forma particularmente apropriada para eles”.

“Eles encontram o mistério da Sagrada Eucaristia”, disse Sarah, “que é cada vez mais uma virtude-chave para eles no mundo moderno.”

Sarah admitiu que “muitos da minha geração lutam para entender isso”, mas insistiu que “eu posso dar um testemunho pessoal da sinceridade e da dedicação dessa geração mais jovem de padres e leigos. E, assim, muitas boas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada nascem em comunidades que usam o rito antigo”.

Se alguém duvida disso, Sarah pediu que “visitem essas comunidades, conheçam-nas, especialmente os jovens que fazem parte delas. Abram os seus corações e mentes a esses jovens irmãos e irmãs, e vejam o bem que eles fazem”, disse. “Eles não são nostálgicos nem estão oprimidos pelas batalhas eclesiásticas das últimas décadas. Eles estão cheios de alegria para viver a vida com Cristo em meio aos desafios do mundo moderno.”

Sarah fez um apelo direto aos seus coirmãos bispos para que sejam abertos às pessoas apegadas à missa antiga e a costumes e observâncias mais tradicionais.

“Essas comunidades precisam de um cuidado paterno”, disse, “e não devemos permitir que preferências pessoais ou mal-entendidos mantenham afastados os fiéis que aderem à forma extraordinária do Rito Romano. Nós, bispos e padres, somos chamados a ser instrumentos de reconciliação e de comunhão na Igreja para todos os fiéis cristãos, e eu humildemente peço a vocês, na única fé que temos em comum e de acordo com as palavras de Bento XVI e do Papa Francisco, para que abram generosamente os seus corações para dar espaço para tudo o que a fé oferece”.

Estatisticamente, admitiu o cardeal, essas pessoas podem continuar sendo “uma pequena parte da vida da Igreja”, mas isso, disse, “não as torna inferiores ou de segunda classe”.

Sarah usou a controversa expressão “reforma da reforma”, usada às vezes para descrever a decisão de Bento XVI de normalizar o acesso à antiga missa em latim e associada pelos críticos a um esforço para reverter as reformas lançadas pelo Vaticano II.

Sarah disse que prefere falar de um “positivo enriquecimento” de ambas as formas mediante um contato mais amplo entre as duas, sugerindo que um maior espaço para o silêncio é algo que a nova missa poderia aprender com a antiga – acrescentando, ao mesmo tempo, que ele estava apenas falando de possibilidades, e que as mudanças litúrgicas não devem ser “forçadas sem estudo ou preparação e formação adequadas”.

O cardeal da Guiné também se referiu a uma entrevista que ele concedeu em julho, especulando sobre uma possível reconciliação futura entre as duas formas. “Alguns entenderam que o seu objetivo é impor uma forma para todos”, disse ele, mas insistiu que isso é “absolutamente alheio às minhas intenções”.

Por fim, Sarah lançou um desafio para o público, pedindo que eles parem de se chamar de “tradicionalistas” e parem de permitir que outros se refiram a eles dessa maneira.

“Vocês não estão fechados em uma caixa, nem em uma biblioteca ou em um museu de curiosidades”, disse. “Vocês não são ‘tradicionalistas’. Vocês são católicos do Rito Romano, como eu, como o Santo Padre, e não cidadãos de segunda classe na Igreja Católica por causa do seu culto e das suas práticas espirituais.”

Essas práticas, apontou, também foram as de “inúmeros santos”.

Ele disse ao grupo que não deveria se “fechar ou se retirar em um gueto, porque uma atitude defensiva domina e sufoca o testemunho de vocês ao mundo de hoje, ao qual vocês são enviados”.

“Dez anos depois”, disse ele, referindo-se ao aniversário do Summorum Pontificum, “se ainda não quebramos as correntes do gueto tradicionalista, façamos isso hoje!”

O discurso de Sarah fez parte de um congresso e peregrinação organizados por um grupo chamado Cœtus Internationalis Summorum Pontificum, dedicado a estudar e promover o documento de Bento XVI de 2007.

Na manhã de quinta-feira, o cardeal alemão Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, falou ao grupo, dizendo que “a liturgia antiga continuará rejuvenescendo a Igreja”.

Müller também não tocou no recente motu proprio sobre a tradução litúrgica, mas disse que as decisões sobre a liturgia são tão importantes que “não podemos cometer erros” e observou que, mesmo na formação do cânone bíblico pela Igreja primitiva, um dos principais testes foi o uso de textos no culto nas Igrejas locais mais importantes – incluindo, disse ele, “a Igreja de Roma”.

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