Previdência, a pauta oculta dos manifestantes de domingo

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27 Março 2017

Os grupos que convocaram as manifestações deste domingo tinham um foco claro sobre quais temas seriam alvos no protesto – lista fechada, anistia ao caixa 2, foro privilegiado e financiamento público de campanha. Mas alguns deixaram de seguir a própria recomendação – "ouvir a voz das ruas" –, e incluir também um assunto sensível aos participantes que estavam na avenida Paulista: as críticas ao projeto da Reforma da Previdência do Governo Michel Temer.

Diversas pessoas que conversaram com o EL PAÍS durante as manifestações do Rio e de São Paulo mostraram sua insatisfação com a falta de oposição às mudanças na Previdência, que estão sendo propostas no Congresso. "Acho os outros temas muito importantes, todos têm como foco melhorar o Brasil. Mas temos que protestar contra a Reforma da Previdência", disse Naoko Teramoto, que compareceu ao protesto na Avenida Paulista, em São Paulo, acompanhada do marido e dos filhos. Ela defende que há outras formas de equilibrar as contas do Estado, e resolver o rombo da Previdência, sem ter que mexer no modelo vigente. "Não temos que mexer nisso [Previdência]. Temos que fazer como o João Doria [prefeito de São Paulo]: reduzir o custo do Estado e fazer parcerias com a iniciativa privada", afirmou Naoko.

A reportagem é de Regiane Oliveira e María Martín, publicada por El País, 26-03-2017.

Considerada uma bandeira contemplada mais por militantes de esquerda, e prestes a ser votada no Congresso, a reforma não foi questionada pelo Vem pra Rua e nem pelo Nas Ruas. O Movimento Brasil Livre (MBL) é o único que trabalha abertamente o tema Reforma da Previdência em sua agenda. Inclusive, propôs uma emenda ao texto no Congresso, por meio do deputado Pauderney Avelino (DEM), utilizando sua própria versão da reforma. Chamada de Previdência Livre, o texto idealizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) é baseado em quatro pilares: Renda Básica do Idoso (mesmo que não tenha contribuído), Beneficio Contributivo por Repartição (semelhante ao modelo atual, em que o trabalhador recebe de acordo com o tempo de contribuição), Novo FGTS (que seria fundido com o Seguro Desemprego) e Benefício Contributivo Voluntário por Capitalização (plano de aposentadoria complementar). “Queremos uma Previdência sustentável e criar um fundo privado em que o usuário possa gerenciar seu próprio recurso”, defendeu Ronald Tanimoto, coordenador do MBL no Estado de São Paulo.

Ao longo da Avenida Paulista, muitos cartazes abordaram o tema e, independentemente da posição ideológica dos manifestantes, a indignação quanto ao modelo de reforma proposto pelo governo parecia ser dominante. É como explica a artista plástica Dalva Leite, 68 anos. Assumidamente intervencionista, ela acredita que apenas os militares podem sanar as mazelas provocadas pelos políticos brasileiros. "Não tem outra saída, ou o Brasil vai ser um país de escravos. Olha o que querem fazer com a Previdência?! Muita gente vai morrer antes de se aposentar. É o que chamo de aposentadoria pé na cova", disse Dalva.

Um carro de som do Movimento Acorda Brasil e da Associação dos Médicos Brasileiros, na contramão das demais participantes, tratava do tema da Reforma. Um ativista da organização criticou do alto do carro de som a proposta do governo. "A reforma está feita para o mercado financeiro", disse ele. Outro, do movimento Quero Um Brasil Ético, fundado há um ano, se posicionava contra a Reforma da Previdência, e da Trabalhista também. A saída de Temer, o fim do foro e a defesa da Lava Jato também estavam entre suas pautas.

No Rio de Janeiro, a reforma da Previdência chegou a ser elogiada pelos manifestantes cariocas como "uma mudança necessária", mas também foi criticada por alguns dos presentes, que assim como os próprios organizadores, mostraram falta de consenso geral sobre a reforma proposta. "Essa reforma é uma indecência", manteve a professora de Educação Física Ester Bustamante, de 55 anos. Após 33 anos trabalhados, ela antecipou sua aposentadoria para evitar entrar na reforma e ter que trabalhar "mais uma década" para receber o benefício. "É humanamente impossível trabalhar até os 70 anos. Por que não começamos as reformas pelos salários, assessores e benefícios dos deputados?", questionou.

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