Um balanço do estudioso italiano desaparecido em 16 de dezembro: A parábola do soberano pontífice

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22 Dezembro 2016

Historiador da idade moderna. Em 16 de dezembro morreu em Bolonha o historiador Paolo Prodi. Nascido a Scandiano, em 3 de outubro de 1932, formou-se na Universidade Católica do Sacro Cuore e completou seus estudos na Universidade de Bonn. Estudou principalmente a Igreja da idade moderna e participou da edição dos Conciliorum aecumenicorum decreta (1962) enquanto completava a monografia Il cardinale Gabriele Paleotti (1522-1597), I-II (1959-1967).

A reportagem foi publicada por L’Osservatore Romano, 17 e 18-12-2016. A tradução é de Luisa Rabolini.

Docente da Universidade de Trento, Roma e Bolonha, foi acadêmico dos Lincei. Em 1965 estava entre os fundadores da associação Il Mulino, e com a homônima editora publicou suas principais obras, entre as quais se destaca sem duvida Il sovrano pontefice (O soberano pontífice). Un corpo e due anime: la monarchia papale nella prima età moderna (1982); entre as outras obras, ressaltamos Il sacramento del potere. Il giuramento politico nella storia costituzionale dell’occidente (1992), Una storia della giustizia. Dal pluralismo dei fori al moderno dualismo tra coscienza e diritto (2000), Settimo non rubare. Furto e mercato nella storia dell’occidente (2009), Il paradigma tridentino, Un’epoca nella storia della Chiesa (Morcelliana, 2010), Università dentro e fuori (2013), Il tramonto della rivoluzione (2015), Giuseppe Dossetti e le officine bolognesi (2016). Dos trabalhos apresentados no seminário de comemoração do cinquentenário do Pontifício comitê de ciências históricas (Storia del cristianismo. Bilanci e questioni aperte, editado por Giovanni Maria Vian, Libreria editrice vaticana, 2007) publicamos a conclusão de sua participação.

Paolo Prodi – Deixei para o final uma reflexão sobre esse tema, sobre a figura do papa como soberano, porque é um tópico de meu interesse pessoal há tempo e, principalmente, porque nos últimos anos as pesquisas tiveram um desenvolvimento enorme tanto no plano do funcionamento das estruturas, como das relações de poder, da simbologia e do cerimonial: pode-se dizer que todo o panorama mudou graças à última geração de historiadores. O que desejo apenas enfatizar – em relação ao problema mais geral do poder do qual se falou anteriormente – é que por trás desse evento é importante notar o emergir da necessidade de avaliar a figura do “soberano pontífice” e de sua cúria como instrumento no quadro dos Estados europeus da idade moderna, para avaliar a função específica do papado na manutenção do Petrus Amt durante esse período e para impedir, consequentemente, que na Europa a idade do confessionalismo se traduzisse numa nova completa sacralização da política nas novas Igrejas estatais.

Nos séculos da idade moderna o esforço dos pontífices não está mais concentrado no aumento da soberania (não teremos mais pontífices guerreiros como Júlio II): o Estado papal não é mais visto como fim em si mesmo, mas é apenas considerado como instrumento para defender a própria independência do papado no sistema dos Estados europeus, na Europa já dividida pelos conflitos religiosos: a própria Itália, agora já não mais ao centro da política europeia após o final das Guerras da Itália, torna-se uma espécie de zona cinzenta aumentada, submetida à influência papal sem necessidade alguma de conquistas territoriais. Mas o estado continua a ter um peso relevante também no interior da própria estrutura da Igreja.

Um preço bem mais alto, velado e menos estudado, foi de fato pago dentro da própria Igreja nesse período pelo processo de imitação do Estado por parte da Igreja no seu interior: a pessoa do príncipe entrou em simbiose com aquela do chefe da Igreja deixando uma pegada cada vez mais marcada por um paralelismo entre as duas únicas societates perfectae, soberanas, existentes sobre a terra, especialmente na exaltação da centralização e da juridicialização, bem além do término cronológico do final do Estado pontifício. Quando os governos dos Estados liberais começaram a renunciar ao controle laico das nomeações episcopais – a quarta chaga da Igreja segundo a denúncia de Antonio Rosmini – não ocorre uma retomada, no sentido por ele preconizado, da tradição antiga: a participação do clero e do povo é excluída e as nomeações permanecem nas mãos do pontífice confirmando a centralização romana. No plano do direito, basta pensar à promulgação do Codex iuris canonici de 1917 que se insere no processo de codificação que caracterizava os Estados no século anterior.

Por este ponto de vista as beatificações conjuntas de Pio IX e de João XXIII representam certamente a síntese de um inteiro período histórico da história da Igreja e do papado: a última trajetória de uma parábola iniciada há muitos séculos. Uma trajetória que tem no seu centro a tragédia do último papa-rei, que justamente no momento da renúncia forçada ao Estado temporal e aos sonhos neoguelfos, exalta ao máximo, no concílio Vaticano I, a sua “soberania” sobre a Igreja com a proclamação do primado de jurisdição e da infalibilidade, e que se conclui com a renúncia por parte de Paulo VI aos últimos símbolos da soberania com o gesto simbólico da deposição da tiara sobre o altar. Apesar da afirmação da nova eclesiologia da comunhão no concílio Vaticano II não foi modificado o centralismo e a concentração do exercício do primado na figura jurídica única do pontífice romano como “bispo da Igreja universal” que caracterizou, ao longo dos séculos da idade moderna, o exercício do primado, seja dentro da Igreja ocidental como na relação com as Igrejas do oriente. Nos dois últimos séculos o cristianismo caminhou a duras penas na estrada que conduziu à reconciliação com o mundo moderno, à liberdade de consciência e a um novo regime para o cristão. Mas é apenas agora que essa época, esse ciclo histórico da modernidade, parece estar se encerrando: a própria expressão “Igreja livre em Estado livre”, ponto central para a vida religiosa e política dos nossos padres, parece pertencer a mundos longínquos. A época que agora se descortina impõe uma reconsideração do problema do exercício do primado num contexto histórico muito distante dos parâmetros que o caracterizaram durante os séculos da idade moderna.

Retornando às afirmações iniciais, é possível confirmar que a produção historiográfica sobre a história do cristianismo da idade moderna na segunda metade do século XX foi de uma riqueza extraordinária, tanto do ponto de vista das novas descobertas, como pela amplitude dos panoramas. Mesmo assim, nos últimos vinte anos parece ter surgido uma grande crise tanto no que diz respeito à pesquisa, como no se refere à divulgação dos resultados e do ensino nos seminários e nas faculdades de teologia. Isso corresponde, em minha opinião, à crise mais geral da cultura histórica na nova idade da informática “sem tempo”, mas encerra em si também alguns elementos peculiares que só podem despertar preocupação, especialmente quando consideramos a formação profissional do clero e sua projeção na pregação. Não é de fato possível misturar a história da Igreja com a crise do historicismo: as tradições quasi per mani traditae, segundo a definição tridentina, de geração a geração, são outra coisa, são um dos fundamentos da própria Igreja.

Quanto ao que se refere especificamente ao conhecimento do cristianismo moderno, esse parece essencial para evitar que o patrimônio espiritual no qual nós ainda vivemos, das igrejas catedrais aos conventos, à espiritualidade, etc., não se torne um peso esmagador, mas um húmus que permita o crescimentos de novas realidades. Fica a impressão que a sua historiografia tenha ficado esmagada, amassada, entre aqueles que consideram a experiência religiosa como um fato desconectado da história, reportado diretamente à revelação, e que desejam livrar-se do passado simplesmente esquecendo-o, e os conservadores que não desejam entrar em confronto com ele para evitar ter que encarar aquilo que aconteceu no seu tempo junto com a época moderna e que deve ser superado.

Ecclesia semper reformanda escrevia na esteira dos grandes espiritualistas do século XVI Hubert Jedin. Por esse ponto de vista, não creio tenha nenhuma utilidade o recurso ao perdonismo [1] histórico: é preciso compreender a humanidade da Igreja nas suas fraquezas concretas, nas diversas circunstâncias históricas para enfrentar os problemas e as fraquezas de hoje. Essa tomada de consciência parece necessária para enfrentar o problema da divisão das Igrejas, fruto da modernidade, e que hoje representa um escândalo intolerável. Basta pensar, para dar outro exemplo, à relação entre as grandes ordens religiosas e os “movimentos” nascidos e desenvolvidos nas últimas décadas e que adquiriram grande influxo na Igreja. Estamos diante de um desequilíbrio que não pode ser ignorado ou subestimado, reduzindo-o a um problema de hábito. O mesmo discurso pode e deve ser feito para a espiritualidade, as devoções, a arte, a música.

Apenas com essa plena consciência histórica da idade moderna que estamos deixando, será possível superar o contraste entre um “tradicionalismo” atemporal e uma inovação alvo dos modismos e dos espiritualismos da new age.

Nota:

[1] Atitude de indulgência, perdão.

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