"O que mantém de pé um bispo é o povo." Entrevista com Jacques Gaillot

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17 Mai 2016

Há uma imagem de Cristo que o Papa Francisco gosta muito: a de Cristo que bate à porta da Igreja. Sempre se pensa que Cristo vem de fora, mas não, Ele está dentro e bate na porta da Igreja para poder sair e chegar às periferias do mundo. Essa imagem foi confiada pelo Santo Padre a Dom Jacques Gaillot durante o seu encontro privado na Casa Santa Marta, no Vaticano, em setembro passado.

A reportagem é de Silvana Bassetti, publicada no jornal Courrier Pastoral, da diocese de Genebra, na Suíça, n. 9, maio de 2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O bispo francês Jacques Gaillot, convidado pela Universidade Pastoral do Jura, na Suíça, durante o tríduo pascal, mostrou essa imagem no início de um bonito encontro com cerca de 60 pessoas que vieram para ouvi-lo no dia 25 de março, Sexta-Feira Santa, na Igreja de Saint-Loup, em Versoix, por ocasião de um "café-croissant": "Tomei a liberdade de acrescentar às palavras do papa: 'Não tranquemos Aquele que veio para nos libertar'". Os presentes na sala escutavam, fascinados.

Quando lhe foi retirado o encargo de bispo de Evreux, Dom Jacques Gaillot foi nomeado bispo da diocese de Partênia (Argélia), que desapareceu no século V. Ele não perdeu nada da sua verve, do seu humor e das suas convicções. Sobre os seus 80 anos, ele confidencia: "O que me interessa, é acrescentar vida aos anos". Ele afirma que as provas "nos ajudam a compreender melhor aqueles que são provados. Cada um de nós se revela nas dificuldades", disse ele, insistindo na escolha de Jesus de se dirigir, acima de tudo, aos pobres.

"Deus começa pelos pobres, para depois se abrir a todos, sem exceção", exclamou. Com serenidade e generosidade, ele responde às perguntas, numerosas, das pessoas presentes na sala, contando episódios, anedotas e parábolas.

Como o senhor conseguiu se manter de pé?

"Um dia, no metrô, na hora do pico, eu estava de pé e não conseguia encontrar onde me apoiar. Dependendo das sacudidas do metrô, eu me apoiava em uns ou em outros. Um viajante tinha me identificado e sorria com a minha situação precária. Descendo juntos na mesma estação, eu não pude deixar de lhe dizer: 'O que mantém de pé um bispo são as pessoas!'. Mas há também a oração, 'que é uma respiração, um 'coração a coração' com Deus. A oração nos torna solidários. Quando eu pego o metrô de manhã cedo, especialmente às segundas-feiras, eu olho para os rostos de todas aquelas pessoas que vão recomeçar o seu trabalho. Rostos cansados, ou adormecidos, ou preocupados, ou atentos à música... Eu começo a oração do Pai Nosso. Ele é pai de todos nós, um pai que ama todas aquelas pessoas do metrô. Eu permaneço naquelas palavras, sem ir além na oração. É o amor que nos torna mais humanos, que nos permite dar o melhor de nós mesmos."

"Há pessoas que são capazes de fazer gestos de generosidade incríveis", disse o bispo, contando o episódio de um educador ateu que não dormiu a noite toda para poder lhe acompanhar até Paris. Depois, a extraordinária confiança em Deus de um homem acusado de homicídio e, depois, absolvido.

"No Evangelho, há muitos desses gestos de superabundância feitos por Jesus, mas nenhum homem os fez, somente mulheres! A de Betânia, ou a pobre viúva que dá tudo o que possui. Desejo que vocês cresçam em humanidade."

E o que o senhor pensa sobre o lugar dos leigos na nossa Igreja?

"Há muitos recursos no povo cristão: o dom do Espírito Santo, a Palavra de Deus, a Eucaristia, a presença de Deus em nós, a oração de Jesus, de Maria, dos santos... Estamos repletos de dons. Talvez, somos nós que acolhemos suficientemente os dons de Deus (...). Os dons são muitos, diversos. É preciso que essa riqueza sirva à Igreja."

Mas é preciso permitir que os leigos façam a homilia?, insiste alguém.

"Eu sei que, em certas ocasiões, os leigos fazem a homilia. Na minha opinião, não é só uma questão de permissão, mas, acima de tudo, de formação e de aptidão a dizer a fé em relação com a vida. Com palavras simples."

Os leigos, as mulheres, têm um papel próprio a desempenhar?

"O futuro está em aberto", disse Dom Gaillot, citando o título de um seminário. "Comecemos a partir dos recursos do povo cristão. Avancemos juntos. Tomemos a iniciativa (...) Não nos esqueçamos de que o padre é um batizado em meio a batizados."

Outra pergunta, outro tema: a tradição da acolhida da Igreja e a situação do asilo no Ocidente. Trata-se de uma tradição "viva e positiva que continua. Depois do apelo do papa, muitos se mostraram sensíveis à acolhida. Na nossa comunidade (a Congregação do Espírito Santo em Paris), acolhemos diversos migrantes. Dois afegãos e um curdo iraquiano de Mosul. Todos os três muçulmanos. A acolhida aos estrangeiros é uma bênção para aqueles que os recebem. A comunidade onde eu vivo se transformou com a presença desses migrantes: a sua humanidade, a sua disponibilidade, o seu sentido do serviço e também a sua coragem! O que me entristece é ver que hoje, na União Europeia, temos mais respeito pelas fronteiras do que pelos estrangeiros. Levantam-se muros, arames farpados, mas não é verdade que estamos sendo invadidos", observou o participante, expressando a sua admiração pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo que os gregos estão fazendo.

Interrogado sobre a misericórdia, ele respondeu com uma imagem: "Se eu tivesse que desenhar a misericórdia, eu desenharia alguém com os braços escancarados que se aproxima do outro para acolhê-lo. A misericórdia expressa um excesso, a gratuidade do amor, o perdão. É uma provocação, nos faz sair da lógica do 'do ut des'. O 'depois de tudo o que fiz por eles, veja que pobre recompensa' não tem nada a ver com a misericórdia, que não conhece essa decepção, que precede o pedido. Mas é uma graça a ser pedida. Hoje, então, para ficar na esperança, semeemos a solidariedade, a fraternidade, a paz, a misericórdia... 'Não deixem que roubem a esperança', disse o Papa Francisco."

Ele dirigiu a mesma mensagem aos pais: "O importante para os filhos é o modo de viver dos pais, a sua escolha de vida, o seu compromisso para com os migrantes. Na sua vida, Jesus vai até o fim. Até o fim no serviço, até o fim no amor. Às vezes, dizem-nos: 'Eu já dei o suficiente, agora chega'."

Ele conta a história de uma mulher que ia regularmente à missa e que, um dia, no fim da celebração, vai à sacristia para fazer uma pergunta ao padre: "Padre – diz –, no fim da missa você sempre diz 'Ide em paz', mas nunca diz para onde ir!' Um pouco surpreso, o padre refletiu por alguns instantes e lhe disse de maneira um pouco solene: 'Senhora, vá até o fim!'. É uma resposta para se refletir".

Falando mais tarde ao Courrier Pastoral, Dom Gaillot disse sobre si mesmo: "Eu sou um homem a caminho e em busca. É um caminho que eu não tinha previsto. Ainda hoje, eu não sei o que me espera. Dou graças por aquilo que eu vivo e que me é dado todos os dias".

Depois da sua escolha de se tornar padre, que amadureceu nele pelo fascínio exercido sobre ele pela beleza da liturgia e pelo respeito da Eucaristia, ele viajou muito e desempenhou muito cargos. Na Argélia, acima de tudo, durante a guerra.

"Depois da guerra da Argélia, eu me tornei não violento e me fiz a pergunta: por que os religiosos não fazem voto de não violência?"

Diante dos terrorismos que acreditam agir em nome de Deus, o bispo considera que, acima de tudo, é preciso evitar "responder com ódio, a violência, o racismo. A violência sempre traz consigo mais violência". Se os jovens escolhem o caminho do terrorismo, "ele fazem isso porque lhes falta a aventura, um sentido, um ideal... São jovens que gostariam de se doar, de fazer algo com a sua vida, mas não têm horizontes nem aventura. A sociedade lhes parece chata".

Dom Gaillot continua sendo muito ativo, especialmente com as pessoas mais marginalizadas. Ele é presidente da associação Droit Devant! para as pessoas sem permissão de residência, presidente de honra da Relais Logement para os sem-teto e continua visitando os presos: "Para testemunhar o Evangelho, precisamos que o outro nos reconheça como um irmão para ele. A Igreja é uma esperança para os pobres?".

No passado, observa, "a Igreja na França teve uma posição forte, próxima do poder. Habitávamos em um castelo e agora vivemos em uma casa popular. Perdemos o pedestal que tínhamos, e, com a globalização, há outras religiões presentes. Ficamos mais humildes, aceitando ser ajudados pelas outras religiões, pelos não crentes. O papel da Igreja não é dominar, mas estar humildemente a serviço dos mais pobres".

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