Jubileu e indulgência

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08 Fevereiro 2016

"Não tem mais sentido falar da punição do pecado no mesmo instante em que se fala da misericórdia divina que “acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido”. As consequências do pecado, como todos os processos vitais, requerem tempo para ser superadas. Dedicar-se às práticas jubilares significa multiplicar as ocasiões para acolher e exprimir a oferta de graça que cura e desenvolve capacidades novas de vida através do seu exercício", escreve Carlo Molari, teólogo italiano, em artigo publicado por Rocca, 15-01-2016.

Eis o artigo.

As modalidades escolhidas pelo Papa Francisco para realizar o Ano santo da misericórdia ainda é motivo de discussão não só em âmbito católico. Alguns censuram ao Papa Francisco uma linguagem inédita em ordem à prática das indulgências. Sandro Magister, por exemplo, no seu blog Chiesaexpresso.it de 19 de dezembro escreveu: “o Jubileu é por sua natureza tempo de ‘indulgências’. No entanto, o Papa Francisco evitou acuradamente, até aqui, de pronunciar esta palavra. Não a pronunciou nem quando abriu a primeira porta santa de Bangui, na República Centro-africana, nem quando abriu a porta santa da Basílica de São Pedro, no dia 8 de dezembro, dia do início oficial do jubileu, nem quando a abriu em São João de Latrão, a catedral de Roma. E sequer a pronunciou nas duas catequeses de quarta-feira que até agora dedicou a explicar este ano santo... A novidade do ano santo proclamado pelo Papa Bergoglio é que este é o primeiro jubileu da história que não considera tal doutrina e disciplina, para não projetar a mínima sombra sobre a verdade prioritária da misericórdia”. 

Na realidade, nos documentos publicados, o Papa Francisco jamais utilizou o termo indulgência no sentido de “remissão das penas temporais do pecado”, que ainda se encontra no Catecismo da Igreja Católica (1992) e que reassume a doutrina sobre as indulgências reformulada por Paulo VI na Indulgentiarum doctrina (1º de janeiro de 1967) e que foi reproposta pela Penitenciaria Apostólica também no Jubileu de 2000. Creio que isto seja um título de mérito para o Papa Francisco, que de tal modo solicita à teologia e toda a Igreja a renovar a linguagem. Ele não se refere mais à penas do pecado, e sim às suas consequências vitais e deseja que “o Jubileu seja esperança viva da proximidade do Pai, quase a querer tocar com a mão a sua ternura, para que a fé de todo o que crê se revigore e assim o testemunho se torne sempre mais eficaz”, desejando que “a indulgência jubilar chegue para cada um como genuína experiência da misericórdia de Deus, a qual a qual vai ao encontro de todos com a fisionomia do Pai que acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido” (Carta a Mons. Rino Fisichella sobre as práticas jubilares de 1° de setembro de 2015). 

Infelizmente, neste último documento o Papa é constrangido a retomar algumas fórmulas que refletem o uso jurídico do termo e que não se harmonizam facilmente com o modelo escolhido. Como quando fala das práticas (passar pela porta santa, formular algumas preces) necessárias para “obter a indulgência jubilar” ou quando apresenta “a indulgência jubilar plena” como “fruto do próprio evento que é celebrado e vivido com fé, esperança e caridade”. Sobretudo, quando depois afirma que “a indulgência jubilar... pode ser obtida também por quantos são defuntos”, enquanto é a tempo que os teólogos consideram sem certo fundamento esta extensão do poder eclesial. 

Não faltaram, por isso, algumas críticas também do lado protestante. Aos 14 de dezembro passado, por exemplo, o pastor valdense Claudio Pasquet, membro do comitê para a evangelização, constituída pelo recente Sínodo Valdense-Metodista, na  revista Reforma pôs em luz a ambiguidade teológica da prática jubilar. Ele iniciou a partir de um inserto de muitas páginas da Imprensa de Turim que, aos oito de dezembro, relatou de modo detalhado as instruções para “obter a indulgência”.

Num artiguinho de título “1517” o cotidiano turinense também recordava a ira de Lutero “porque as indulgências eram vendidas por dinheiro” e com complacência acrescentava que este aspecto é hoje superado porque não é requerido dinheiro.

O pastor Pasquet recordou que a oposição de Lutero à prática das indulgências não considerava tanto o aspecto econômico, quanto a presunção da estrutura eclesial de gerir a graça. Ele escreveu: “não é questão de dinheiro, mas de fé! A Reforma, referindo-se ao tema da salvação divina gratuita, ousou afirmar, e o faz ainda hoje, que a igreja só tem uma função: anunciar a misericórdia de Deus em Cristo. Anunciar e não gerir, pregar e não mediar, dizer que Cristo é a porta santa e não há outras e que a única peregrinação que nos é requerida é aquela de ir a Cristo com o coração e com a mente. Numa palavra, ter confiança Nele e a Ele confiar-se: esta é a fé, a qual nos permitirá também de realizar tantas obras boas”. 

“Ministros de reconciliação” – novos modelos

Sobre este ponto ainda há alguns aspectos a aprofundar. Em particular, é preciso ter presente a nova interpretação teológica das dinâmicas redentoras.

No tempo de Lutero e até o século passado, tanto em âmbito católico como no protestante, a redenção era interpretada como a oferta feita por Cristo a Deus em reparação e satisfação de todos os pecados humanos (de Cristo a Deus). A teologia falava dos méritos de Cristo, ou seja, do direito à glória, adquirido através do sofrimento. A estes se acrescentavam também os méritos dos santos, acumulados ao longo dos séculos da história cristã, os quais eram considerados como um depósito a utilizar em benefício de todos os fiéis.

Agora, ao invés, a teologia cristã desenvolve a reflexão soteriológica no sentido descendente, isto é, como a ação com a qual Deus em Cristo revela o seu amor misericordioso e comunica o seu Espírito. Em sua morte Jesus não ofereceu reparações ao Pai, mas continuou a amar ‘até o fim’ invocando o perdão por quem o matava. De tal modo, Jesus revelou o amor misericordioso do Pai, tornou eficaz na história a sua Palavra libertadora e infundiu o seu Espírito, dando início à nova fase da aliança, na qual se realizava a antiga profecia: “perdoarei a sua iniquidade e não recordarei mais o seu pecado” (Jeremias 31, 34). 

Na perspectiva vital e histórica o pecado é “uma diminuição para o próprio homem, impedindo o de conseguir a própria plenitude” (GSP 13, EV 1, 1361). Os processos redentores se desenvolvem no tempo e requerem tempo para serem realizados. As novas qualidades humanas que florescem na história têm um fundamento na ação divina que alimenta o processo da criação e, em particular, o desenvolvimento da espécie humana. A criatura humana, atuando, permite à ação criadora de exprimir-se como força renovadora. A ação do Espírito se põe em continuação com a ação criadora.

Criação e salvação são dois atos de um mesmo processo: a plenitude de vida é o resultado de um devir contínuo. Não é um ato novo, a redenção é o ato divino da criação que se desenvolve no tempo. O dom (a graça, a força criadora) deve, todavia, ser acolhido pela criatura e assim se torna atividade e perfeição humana, tornando eficaz a história.

As obras de misericórdia sugeridas pelo Papa não são ocasião para merecer (adquirir o direito a) a graça, e, por conseguinte, não são sequer a remissão das penas temporais devidas aos pecados, mas são expressão concreta da graça acolhida, tradução humana da energia criadora acolhida. Elas representam os gestos com os quais aquele que crê faz florescer a ação de Deus e põe em circulação as suas dinâmicas na história humana. 

Nesta perspectiva, anunciar um dom divino já é transmiti-lo. Não é possível: “pregar e não mediar”, anunciar de modo eficaz sem se tornarem mediadores. Acolher a misericórdia de Deus nos torna misericordiosos, isto é, capazes de oferecer perdão aos irmãos. Neste sentido, Paulo podia dizer aos fiéis de Corinto: “tudo isto no entanto vem de Deus, que nos reconciliou consigo mediante Cristo e confiou a nós o ministério da reconciliação. Era Deus, de fato, que reconciliava  consigo o mundo em Cristo, não imputando aos homens as suas culpas e confiando a nós a palavra de reconciliação” (2 Cor. 5,18-19). 

Não tem mais sentido falar da punição do pecado no mesmo instante em que se fala da misericórdia divina que “acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido”. As consequências do pecado, como todos os processos vitais, requerem tempo para ser superadas. Dedicar-se às práticas jubilares significa multiplicar as ocasiões para acolher e exprimir a oferta de graça que cura e desenvolve capacidades novas de vida através do seu exercício. 

A modificação que a teologia operou não chegou, todavia, ao desenvolvimento completo nas suas aplicações concretas, porque muitas fórmulas permaneceram em uso pelo peso da tradição. O ano jubilar pode, pois, ser também a ocasião para reformular a doutrina relativa ao pecado enquanto impedimento à plenitude de vida (GSp 13) e à reconciliação como acolhida atual dos dons de vida transcurados ou recusados no passado. 

Jubileu e indulgência

de Carlo Molari

in “Rocca” n. 2 de 15 de janeiro de 2016.

 

As modalidades escolhidas pelo Papa Francisco para realizar o ano santo da misericórdia ainda é motivo de discussão não só em âmbito católico. Alguns censuram ao Papa Francisco uma linguagem inédita em ordem à prática das indulgências. Sandro Magister, por exemplo, no seu blog Chiesaexpresso.it de 19 de dezembro escreveu: “o jubileu é por sua natureza tempo de ‘indulgências’. No entanto, o Papa Francisco evitou acuradamente, até aqui, de pronunciar esta palavra. Não a pronunciou nem quando abriu a primeira porta santa de Bangui, na República Centro-africana, nem quando abriu a porta santa de São Pedro, aos 8 de dezembro, dia do início oficial do jubileu, nem quando a abriu em São João de Latrão, a catedral de Roma. E sequer a pronunciou nas duas catequeses de quarta-feira que até agora dedicou a explicar este ano santo... A novidade do ano santo proclamado pelo Papa Bergoglio é que este é o primeiro jubileu da história que não considera tal doutrina e disciplina, para não projetar a mínima sombra sobre a verdade prioritária da misericórdia”.

Na realidade, nos documentos publicados, o Papa Francisco jamais utilizou o termo indulgência no sentido de “remissão das penas temporais do pecado”, que ainda se encontra n Catecismo da Igreja católica (1992) e que reassume a doutrina sobre as indulgências reformulada por Paulo VI na Indulgentiarum doctrina (1º de janeiro de 1967) e que foi reproposta pela Penitenciaria Apostólica também no jubileu de 2000. Creio que isto seja um título de mérito para o Papa Francisco, que de tal modo solicita a teologia e toda a Igreja a renovar a linguagem. Ele não se refere mais à penas do pecado, e sim às suas consequências vitais e deseja que “o Jubileu seja esperança viva da proximidade do Pai, quase a querer tocar com a mão a sua ternura, para que a fé de todo o que crê se revigore e assim o testemunho se torne sempre mais eficaz”, desejando que “a indulgência jubilar chegue para cada um como genuína experiência da misericórdia de Deus, a qual a qual vai ao encontro de todos com a fisionomia do Pai que acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido” (Carta a Mons. Rino Fisichella sobre as práticas jubilares de 1° de setembro de 2015).

Infelizmente, neste último documento o Papa é constrangido a retomar algumas fórmulas que refletem o uso jurídico do termo e que não se harmonizam facilmente com o modelo escolhido. Como quando fala das práticas (passar pela porta santa, formular algumas preces) necessárias para “obter a indulgência jubilar” ou quando apresenta “a indulgência jubilar plena” como “fruto do próprio evento que é celebrado e vivido com fé, esperança e caridade”. Sobretudo, quando depois afirma que “a indulgência jubilar... pode ser obtida também por quantos são defuntos”, enquanto é a tempo que os teólogos consideram sem certo fundamento esta extensão do poder eclesial.

Não faltaram, por isso, algumas críticas também do lado protestante. Aos 14 de dezembro passado, por exemplo, o pastor valdense Claudio Pasquet, membro do comitê para a evangelização, constituída pelo recente Sínodo Valdense-metodista, sobre a revista Reforma pôs em luz a ambiguidade teológica da prática jubilar. Ele iniciou a partir de um inserto de muitas páginas da Imprensa de Turim que, aos oito de dezembro, relatou de modo detalhado as instruções para “obter a indulgência”. Num artiguinho de título “1517” o cotidiano turinense também recordava a ira de Lutero “porque as indulgências eram vendidas por dinheiro” e com complacência acrescentava que este aspecto é hoje superado porque não é requerido dinheiro. O Pastor Pasquet recordou que a oposição de Lutero à prática das indulgências não considerava tanto o aspecto econômico, quanto a presunção da estrutura eclesial de gerir a graça. Ele escreveu: “não é questão de dinheiro, mas de fé! A Reforma, referindo-se ao tema da salvação divina gratuita, ousou afirmar, e o faz ainda hoje, que a igreja só tem uma função: anunciar a misericórdia de Deus em Cristo. Anunciar e não gerir, pregar e não mediar, dizer que Cristo é a porta santa e não há outras e que a única peregrinação que nos é requerida é aquela de ir a Cristo com o coração e com a mente. Numa palavra, ter confiança Nele e a Ele confiar-se: esta é a fé, a qual nos permitirá também de realizar tantas obras boas”.

“Ministros de reconciliação” – novos modelos

Sobre este ponto ainda há alguns aspectos a aprofundar. Em particular, é preciso ter presente a nova interpretação teológica das dinâmicas redentoras. No tempo de Lutero e até o século passado, tanto em âmbito católico como no protestante, a redenção era interpretada como a oferta feita por Cristo a Deus em reparação e satisfação de todos os pecados humanos (de Cristo a Deus). A teologia falava dos méritos de Cristo, ou seja, do direito à glória, adquirido através do sofrimento. A estes se acrescentavam também os méritos dos santos, acumulados ao longo dos séculos da história cristã, os quais eram considerados como um depósito a utilizar em benefício de todos os fiéis. Agora, ao invés, a teologia cristã desenvolve a reflexão soteriológica no sentido descendente, isto é, como a ação com a qual Deus em Cristo revela o seu amor misericordioso e comunica o seu Espírito. Em sua morte Jesus não ofereceu reparações ao Pai, mas continuou a amar ‘até o fim’ invocando o perdão por quem o matava. De tal modo, Jesus revelou o amor misericordioso do Pai, tornou eficaz na história a sua Palavra libertadora e infundiu o seu Espírito, dando início à nova fase da aliança, na qual se realizava a antiga profecia: “perdoarei a sua iniquidade e não recordarei mais o seu pecado” (Ger. 31, 34).

Na perspectiva vital e histórica o pecado é “uma diminuição para o próprio homem, impedindo o de conseguir a própria plenitude” (GSP 13, EV 1, 1361). Os processos redentores se desenvolvem no tempo e requerem tempo para serem realizados. As novas qualidades humanas que florescem na história têm um fundamento na ação divina que alimenta o processo da criação e, em particular, o desenvolvimento da espécie humana. A criatura humana, atuando, permite à ação criadora de exprimir-se como força renovadora. A ação do Espírito se põe em continuação com a ação criadora. Criação e salvação são dois atos de um mesmo processo: a plenitude de vida é o resultado de um devir contínuo. Não é um ato novo, a redenção é o ato divino da criação que se desenvolve no tempo. O dom (a graça, a força criadora) deve, todavia, ser acolhido pela criatura e assim se torna atividade e perfeição humana, tornando eficaz a história. As obras de misericórdia sugeridas pelo Papa não são ocasião para merecer (adquirir o direito a) a graça, e, por conseguinte, não são sequer a remissão das penas temporais devidas aos pecados, mas são expressão concreta da graça acolhida, tradução humana da energia criadora acolhida. Elas representam os gestos com os quais aquele que crê faz florescer a ação de Deus e põe em circulação as suas dinâmicas na história humana.

Nesta perspectiva, anunciar um dom divino já é transmiti-lo. Não é possível: “pregar e não mediar”, anunciar de modo eficaz sem se tornarem mediadores. Acolher a misericórdia de Deus nos torna misericordiosos, isto é, capazes de oferecer perdão aos irmãos. Neste sentido, Paulo podia dizer aos fiéis de Corinto: “tudo isto no entanto vem de Deus, que nos reconciliou consigo mediante Cristo e confiou a nós o ministério da reconciliação. Era Deus, de fato, que reconciliava  consigo o mundo em Cristo, não imputando aos homens as suas culpas e confiando a nós a palavra de reconciliação” (2 Cor. 5,18-19).

Não tem mais sentido falar da punição do pecado no mesmo instante em que se fala da misericórdia divina que “acolhe e perdoa, esquecendo completamente o pecado cometido”. As consequências do pecado, como todos os processos vitais, requerem tempo para ser superadas. Dedicar-se às práticas jubilares significa multiplicar as ocasiões para acolher e exprimir a oferta de graça que cura e desenvolve capacidades novas de vida através do seu exercício.

A modificação que a teologia operou não chegou, todavia, ao desenvolvimento completo nas suas aplicações concretas, porque muitas fórmulas permaneceram em uso pelo peso da tradição. O ano jubilar pode, pois, ser também a ocasião para reformular a doutrina relativa ao pecado enquanto impedimento à plenitude de vida (GSp 13) e à reconciliação como acolhida atual dos dons de vida transcurados ou recusados no passado.

 

[Traduziu do italiano Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.]

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