"O soft power de Bergoglio renovou a Igreja dos EUA." Entrevista com Joseph S. Nye

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26 Setembro 2015

Qual é o segredo do Papa Francisco? Como ele fez para conquistar a América em poucos dias? Como conseguiu falar a todo o país sorbe questões candentes como migrantes, pena de morte, mudanças climáticas e distorções do capitalismo, sem provocar defesas e oposições preconceituosas? Joseph S. Nye não tem dúvidas: "O papa demonstrou que tem um enorme soft power [poder suave] que lhe permite obter a atenção e os consensos até mesmo por parte daqueles que não são católicos ou não pensam como ele".

A reportagem é de Arturo Zampaglione, publicada no jornal La Repubblica, 25-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na teoria das relações internacionais, soft power indica a habilidade de persuadir e atrair através de recursos intangíveis como a cultura, os valores ou as instituições. O termo foi cunhado no início dos anos 1990, justamente por Nye. e agora entrou na linguagem cotidiana da diplomacia.

Com estudos em Princeton e Oxford, professor de Harvard desde 1964, ex-subsecretário e agora membro do conselho de política do Departamento de Estado, Joseph Nye é um dos mais influentes especialistas norte-americanos em relações internacionais.

Na sua visão, o soft power é "a outra face do poder", contraposta ao hard power, isto é, ao modo clássico de exercer o poder através da força militar, econômica ou demográfica.
 
Eis a entrevista.

O sucesso do soft power em um mundo globalizado depende principalmente das capacidades e da reputação dos atores na comunidade internacional, assim como do fluxo de informações entre os atores. Como se aplicam esses elementos ao Papa Bergoglio?

Partamos de um exemplo: a pobreza. No passado, muitos outros antecessores de Francisco ao Vaticano haviam denunciado a pobreza e apelado à responsabilidade dos países mais ricos, mas ele, Bergoglio, conseguiu transmitir uma mensagem clara, simples, que não pode ser confundida com outras problemáticas, e cujo apelo lhe permite construir pontes com outras realidades, ideologias ou religiões.
 
Pode nos dar um exemplo?

Vou parecer muito presunçoso se falar de mim mesmo? Eu sou protestante, mas, como muitos outros não católicos, sinto-me atraído pelas exortações do papa, estou em sintonia com ele e estou bem predisposto para ouvir aquilo que ele diz. E é exatamente, eu acho, o que está acontecendo nestas horas no resto dos Estados Unidos: Francisco consegue ter uma enorme influência e tocar a consciência de milhões de norte-americanos.
 
A Igreja Católica norte-americana será a primeira a se beneficiar disso?

O verdadeiro presente que o Papa Francisco fez aos católicos norte-americanos é o fato de tê-los puxado para fora da espiral destrutiva do escândalo dos padres pedófilos. Até pouco tempo atrás, parecia que a Igreja não seria capaz de se recuperar daquele episódio, sacudindo de cima de si a imagem de uma instituição corrupta, opaca, encastelada em posições conservadoras e distante da sensibilidade das pessoas. Ao contrário, agora, abriu-se um novo capítulo.
 
Mas não circula um grande mal-estar entre os católicos conservadores?

Os católicos não são um grupo monolítico, como lembrava John Kennedy com uma famosa piada: "Quem vota em mim são as freiras, não os cristãos". E não há dúvida de que muitas posições do Vaticano, por exemplo sobre as mudanças climáticas ou contra a onipotência dos mercados capitalistas, não agradam à direita religiosa. Mas mesmo nos Estados Unidos a Igreja está mudando, está se tornando mais progressista, até por motivos demográficos e migratórios, ligados à crescente presença dos católicos na América Latina.
 
Você vai concordar que continua havendo no mundo um excesso de hard power em relação ao soft power. Basta ver como se move a Rússia de Vladimir Putin na Ucrânia ou na Síria.

Sim, mas também vejo como esse revival militarista do Kremlin não faz prosélitos como Putin talvez esperasse. Por quê? Talvez porque haja um crescimento em todas as partes de forças de esquerda liberal, talvez por que o Papa Francisco e o próprio Barack Obama sejam dois gigantes do soft power. O que é certo é que um continente em crise, como a América do Sul, não olha para Moscou, mas no máximo para o Vaticano.

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