“Na Ucrânia se vive a maior catástrofe depois da guerra”, afirma dom Shevchuk

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Por: Jonas | 25 Fevereiro 2015

O Papa poderia realizar “uma ação concreta” em relação ao conflito que a Ucrânia está vivendo; uma iniciativa internacional para fazer calar as armas. É o que disse Sua Beatitude Svjatoslav, arcebispo da Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Os bispos greco-católicos e de rito latino do país da Europa do leste visitaram o Vaticano, na semana passada, no marco de sua visita “ad limina”. Dom Shevchuk também se reuniu com a imprensa e respondeu as perguntas dos jornalistas. Entre outras coisas, enfatizou a situação humanitária que se vive no país em razão da guerra. Insistiu em que na Ucrânia “não está em curso um conflito local, mas, sim, uma agressão do estrangeiro”. Explicou que falou ao Papa que a expressão que havia utilizado para se referir ao conflito (“guerra fratricida”) havia “ferido a sensibilidade dos ucranianos”, pois parecia em sintonia com o que afirmavam os russos, ou seja, que se tratava de um conflito interno.

O arcebispo Shevchuk também mencionou o que o Papa disse aos bispos ucranianos: “Estou do seu lado e ao seu serviço”, e lembrou que o Papa teve um papel importante em relação à crise na Ucrânia, como se pode constatar no recente encontro com a chanceler alemã Angela Merkel. O arcebispo greco-católico disse que pediu ajuda ao Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos em favor da paz, e elogiou a iniciativa do Conselho mundial das Igrejas. E dedicou palavras duras à propaganda russa e ao primeiro-ministro Vladimir Putin: “É preciso romper as cadeias da mentira”. Na Rússia, acrescentou, “não estão dizendo que milhares de soldados perderam a vida na Ucrânia”.

A entrevista é de Francesco Pedroso, publicada por Vatican Insider, 23-02-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Dom Sviatchuk, o que está ocorrendo na Ucrânia?

Na Ucrânia há uma guerra. Trata-se de uma invasão estrangeira, uma guerra imposta de fora. Não se trata de um conflito civil, de uma discórdia entre cidadãos ucranianos; o que está ocorrendo é que temos uma guerra não declarada. Em cada uma de nossas dioceses e eparquias há milhares de refugiados, sendo que 6.000 pessoas perderam a vida nos enfrentamentos e há mais de 12.000 feridos, muitíssimos deles sofrem do que os especialistas chamam de desordem pós-traumática.

O que vocês pediram ao Papa na “visita ad limina”?

Pedimos para que ele fosse à Ucrânia. Sabemos que isto é muito, mas seria verdadeiramente um gesto profético. O Santo Padre nos escutou com muita atenção. Pediu imediatamente que os bispos de Donetsk e da Crimeia falassem sobre a situação em que vivem. Os bispos se sentiram acolhidos pelo Papa, animados e confirmados em relação ao fato de que tomamos a decisão correta: estar ao lado de nosso povo, escutar atentamente a voz de nosso povo.

O Papa falou sobre o respeito à legitimidade internacional, mas também pediu aos bispos que não fizessem política e denunciou os que se enriquecem com a crise. Qual a sua opinião a respeito desses apontamentos?

A Santa Sé defende a soberania e a integridade da Ucrânia, o direito internacional. Se um país anexa a Crimeia, está violando o direito internacional. Não se pode falar de um conflito interno. No mais, não viemos representar partidos políticos; somos a voz da sociedade civil. Não estamos dizendo ao presidente o que deve fazer. Além disso, pedimos justiça social, o povo ucraniano exige reformas, como a da justiça porque temos juízes injustos. Ainda se fala de oligarcas e explodiu contra eles a revolução da dignidade. Este sistema oligárquico levou a Ucrânia ao desastre.

Na Ucrânia há uma guerra, mas quais são as consequências em nível humanitário?

A guerra sempre provoca destruição e miséria. A economia ucraniana verdadeiramente está caindo: está em crise. A ONU declarou oficialmente que na Ucrânia temos um milhão de deslocados, mas os organismos eclesiais nos dizem que, na realidade, que são o dobro. Além disso, quase 600.000 pessoas se viram obrigadas a fugir para outros países. Nesta situação, o governo ucraniano não consegue se ocupar das coisas. Eu defini a situação como uma catástrofe humanitária nunca antes vista, desde a Segunda Guerra Mundial no leste europeu. Por este motivo, pedi ao Santo Padre e aos diferentes organismos da Cúria romana para que lançassem um chamado a uma ação de ajuda humanitária em nível internacional. Todos os dias, em nossos centros da Cáritas Ucrânia, acolhemos 40.000 pessoas. Para salvar verdadeiramente vidas humanas são necessárias a ajuda e a solidariedade internacional.

Como Igrejas, como cristãos, o que concretamente estão fazendo?

Até mesmo nestas condições tão duras de guerra devemos ser cristãos. Um cristão é aquele que se encomenda a Deus, porque a esperança não vem dos políticos, mas, sim, do Senhor. Porém, ao mesmo tempo, devemos transformar nossa fé em ação. Eu contei ao Papa que agora na Ucrânia temos um tesouro imenso que deve ser defendido: a paz religiosa. Nestas condições dramáticas entre as diferentes confissões (ortodoxas, católicas e protestantes), na Ucrânia temos uma solidariedade, um ecumenismo prático, porque todos nós estamos fazendo o mesmo: estamos salvando vidas humanas. Ninguém pergunta aos necessitados: “Vocês são católicos, ortodoxos ou muçulmanos?”. Não, não estamos fazendo isto, estamos unidos para servir.

Como assumem o convite do Papa para uma paz possível?

Como um grande desafio, mas também com confiança. Porque o que estamos fazendo é trabalhar verdadeiramente pela paz, para deter a guerra. Certamente devemos usar todos os meios para deter a guerra. Esperamos que em nível internacional se possa chegar a um acordo diplomático. Acreditamos que o acordo de Minsk não teve êxito porque não houve um cessar-fogo. Esperamos que este chamado do Santo Padre seja escutado por todos, não apenas pelas vítimas na Ucrânia, mas, sim, também pelos potentes do mundo.

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