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10 Novembro 2014

Pelo fato de o Papa Francisco ser percebido como um inconformista, quase tudo o que ele diz ou faz é lido como uma ruptura com o passado, mesmo quando claramente não é. A sua retórica sobre a economia, por exemplo, ou os seus recentes comentários sobre a evolução são, ambos, totalmente consistentes com o ensinamento papal estabelecido, mas, mesmo assim, foram alardeados como coisas inovadoras.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 06-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Porém, há pelo menos um caso em que o exato oposto é verdadeiro – algo revolucionário realmente está acontecendo, mas raramente é percebido como o completo terremoto que isso, de fato, representa.

Trata-se da reforma financeira do Vaticano, lançada por Francisco e liderada pelo cardeal australiano George Pell, cujo audacioso objetivo é converter o Vaticano de um caso de advertência quando se trata da gestão do dinheiro em um modelo de boas práticas.

Essa campanha deu mais um passo nessa quarta-feira, 5 de novembro, com o lançamento de um novo manual para todos os departamentos vaticanos, preparado pela Secretaria da Economia de Pell e aprovado in forma especifica pelo papa no dia 24 de outubro, o que significa que ele traz a sua bênção pessoal.

O manual descreve os novos procedimentos a serem seguidos por todos os departamentos vaticanos a partir do dia 1º de janeiro de 2015, destinados a colocá-los em conformidade com os padrões internacionais de contabilidade e de gestão do dinheiro. Dentre outras coisas, cada escritório terá que ter um orçamento anual honesto, fornecendo um quadro confiável dos seus ativos e das suas despesas.

O manual também promete que a declaração financeira anual consolidada do Vaticano será analisada por uma grande empresa internacional de auditoria.

Embora uma carta anexa de Pell e do cardeal alemão Reinhard Marx, presidente do Conselho para a Economia do papa, garanta a formação e o apoio para ajudar as pessoas a cumprirem o manual, essa oferta vem com um adendo. A mensagem implícita é que uma nova era está chegando, e as opções são subir a bordo ou ser atropelado.

Para os anglo-saxões, em particular, para os quais a transparência e a responsabilidade são bens inquestionáveis, a tentação é de ver tudo isso como algo evidente, na melhor das hipóteses como uma espécie de reforma muito atrasada e incrivelmente óbvia.

Essa reação, no entanto, subestima gravemente o drama real do que está acontecendo.

De um lado, é quase impossível exagerar a ruptura que isso representa com o passado dentro do Vaticano, onde a gestão do dinheiro sempre teve mais a ver com personalidade e padroado do que com boas práticas de contabilidade.

Na verdade, a história de escândalo financeiro do Vaticano está relacionada apenas de forma limitada a atos ocasionais de corrupção descarada. Mais frequentemente, é um produto de uma cultura em que todos os tipos de comportamentos objetivamente suspeitos nem sequer são vistos como problemáticos – direcionamento de contratos a amigos ou parentes, em vez de realizar um processo de licitação competitivo, por exemplo, ou não perguntar a um monsenhor de onde vêm os maços de dinheiro que ele quer depositar em sua conta no banco vaticano.

Para muitos empregados do Vaticano, especialmente de uma certa idade, esses atalhos são simplesmente "bons modos". Eles são o significado de manter as coisas nella famiglia, ou seja, "em família".

A nova abordagem com Francisco, portanto, é o tipo mais difícil de reforma, projetada não apenas a mudar a lei ou a política, mas também a remodelar uma cultura inteira. A ideia não é abandonar o senso de intimidade e de espírito de família que sempre fez parte do charme do Vaticano, mas agitá-lo com uma dose saudável de "confie, mas verifique".

Em segundo lugar, uma dinâmica organizacional básica é que, se você quer romper a força de uma velha guarda em qualquer burocracia, a única maneira de fazer isso é tirar o poder da bolsa.

Tradicionalmente, os empregados de departamentos "pesos-pesados" no Vaticano, como a Secretaria de Estado ou a Congregação para a Evangelização dos Povos (mais conhecida como Propaganda Fidei), têm sido capazes de exercer influência e padroado através do arbítrio de que eles gozam sobre quantidades substanciais de dinheiro essencialmente não monitorados, e eles raramente eram obrigados a prestar contas do que estavam fazendo.

Teoricamente, esses fundos serão agora colocados sob controles muito mais estritos, o que deve significar que as personalidades da velha guarda serão privadas de uma das suas armas mais poderosas nas batalhas internas do Vaticano.

Em outras palavras, o impulso à transparência por parte do papa é uma pré-condição necessária para qualquer outra reforma que ele, eventualmente possa querer lançar, porque, se isso funcionar, aquelas pessoas inclinadas a ficar no meio do caminho em qualquer outra frente deverão ter sua capacidade reduzida para mobilizar uma resistência.

Por último, a reforma financeira também ilustra que, na era Francisco, as linhas de falha que importam nem sempre rompem entre a esquerda e a direita, mas entre aqueles que defendem e os que são contra a boa governança.

Os dois prelados que assinaram a carta para o manual nessa semana, Marx e Pell, formariam um casal estranho política ou teologicamente. Marx foi um dos líderes da facção progressista no recente Sínodo dos bispos sobre a família, enquanto Pell foi um leão conservador que alertou contra os perigos das "cambalhotas doutrinais".

No entanto, quando se trata da necessidade de limpar os estábulos no Vaticano e de construir sistemas mais responsáveis, transparentes e eficientes, Marx e Pell colocam-se completamente de acordo. Eles também estão em sincronia com Francisco, que percebe que foi eleito sobre uma plataforma de bom governo e se sente compelido a corresponder.

O júri ainda está decidindo se essa reforma terá sucesso. Nesse meio tempo, no entanto, se você quiser ver o Papa Francisco em sua máxima inconformidade, a frente financeira é um ótimo lugar para olhar.

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