O perfil do pastor segundo Francisco

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Por: Caroline | 25 Novembro 2013

Homilia após homilia, catequese após catequese, durante os últimos oito meses o Papa Francisco (foto) tem traçado o perfil do verdadeiro pastor das almas. Durante a audiência geral de ontem, na Praça São Pedro, falou do sacramento da confissão, recordando que Jesus deu aos apóstolos “o poder de perdoar os pecados”. A Igreja, acrescentou o Papa, “não é dona do poder das chaves, mas serva do ministério da misericórdia e se alegra toda vez que pode oferecer este dom divino”. Sente-se, aqui, um eco do convite feito no último dia 21 de abril, quando Francisco falou com os sacerdotes da diocese de Roma, antes de ordená-los: “Sejam pastores e não funcionários. Mediadores e não intermediários”.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 21-11-2013. A tradução é do Cepat.

Fonte:http://goo.gl/A6QsL3

Ao refletir sobre a figura do confessor, Bergoglio acrescentou em sua catequese: “O perdão de Deus que nos é dado na Igreja, é transmitido através do ministério de um irmão nosso, o sacerdote; que também é um homem que, como nós, necessita da misericórdia, e que se torna realmente instrumento da misericórdia, oferecendo-nos o amor sem limites de Deus Pai. Os sacerdotes também devem se confessar, inclusive, os bispos: todos somos pecadores. Inclusive, o Papa que se confessa a cada quinze dias, por que o Papa também é um pecador!”.

“O serviço que o sacerdote presta como ministro, por parte de Deus, para perdoar os pecados, é muito delicado – continuou Francisco –, é um serviço muito delicado e requer que seu coração esteja em paz, que o sacerdote tenha o coração em paz, que não maltrate os fiéis, mas que seja manso, benevolente e misericordioso; que saiba semear esperança nos corações e, sobretudo, que seja consciente de que o irmão ou a irmã que se aproxima do sacramento da Reconciliação busca o perdão, e o faz da mesma maneira que tantas pessoas se aproximavam de Jesus, para que as curasse. O sacerdote que não tem esta disposição de ânimo, é melhor que, até para Jesus, não administre este Sacramento. Os fiéis penitentes têm o dever, não? Têm o direito. Nós temos o direito, todos os fiéis, de encontrar nos sacerdotes os servidores do perdão de Deus”.

 “Um sacerdote apaixonado – disse Francisco no último dia 16 de setembro, durante o encontro com o clero romano – deve sempre se lembrar do primeiro amor, o de Jesus, voltar a esta fidelidade que permanece sempre e que nos espera. Para mim, este é o ponto-chave de um sacerdote apaixonado: que tenha a capacidade de voltar para a memória do primeiro amor. Uma Igreja que perde a memória é uma Igreja eletrônica: não tem vida. Há que ter cuidado com os sacerdotes “rigorosos” e “laxistas”. O sacerdote misericordioso – afirmou – é o que diz a verdade, mas acrescenta: ‘Não fique espantado, o Deus bom nos espera. Caminhemos juntos’. E devemos ter isto sempre presente: acompanhar. Ser companheiros do caminho. A conversão sempre se faz assim, pelo caminho, não no laboratório”.

Durante a recente visita a Assis, ao dirigir-se ao clero, Francisco pediu aos párocos que memorizassem não apenas os nomes de seus paroquianos, mas “inclusive os de seus cachorros”, dos animais domésticos. Uma maneira para dizer que o pastor deve estar perto de seu rebanho.

“Isto é o que os peço: que sejam pastores com ‘o cheiro das ovelhas’, pastores em meio ao próprio rebanho, e pescadores de homens”, disse Francisco, em 28 de março, durante a homilia da missa crismal: “Nossa gente agradece o evangelho pregado com unção, agradece quando o evangelho que pregamos chega à sua vida cotidiana, quando desce como o óleo de Aaron até as bordas da realidade, quando ilumina as situações limites, ‘as periferias’ onde o povo fiel está mais exposto à invasão dos que quererem roubar a sua fé. Agradecem-nos porque sentem que rezamos com as coisas da sua vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas, com suas angústias e suas esperanças. E quando sente o perfume do Ungido, de Cristo, que chega através de nós, animam-se em confiar a nós tudo o que desejam que chegue ao Senhor: ‘Reze por mim, padre, que tenho este problema...’. ‘Abençoa-me, padre’ e ‘reze por mim’ são os sinais de que a unção chegou à margem do manto, porque converte-se em súplica”.

Os sacerdotes, ainda que celibatários, devem ser pais. O “desejo de paternidade” está inscrito nas fibras mais profundas de um homem, explicou o Papa na homilia de Santa Marta, do último dia 26 de junho. “Quando um homem não tem este desejo, algo falta neste homem. Algo não funciona. Todos nós, para ser, para nos tornarmos plenos, para sermos maduros, devemos sentir a alegria da paternidade: inclusive os celibatários. A paternidade é dar vida aos demais, dar vida, dar vida, ... Para nós será a paternidade pastoral, a paternidade espiritual: mas é dar vida, tornarmo-nos pais”. “Um pai – continuou – que sabe o que significa defender os filhos. E esta é uma graça que nós – os sacerdotes – devemos pedir: sermos pais, sermos pais. A graça da paternidade, da paternidade sacerdotal, da paternidade espiritual”.

Falando sobre as dificuldades do sacerdote, durante o encontro com o clero romano de setembro, o Papa explicou: “Quando um sacerdote está em contato com o povo, cansa-se. Quando um sacerdote não está em contato com seu povo, cansa-se, mas de forma negativa e para poder dormir deve tomar uns comprimidos, não é? Ao contrário, aquele que está em contato com seu povo (porque o povo verdadeiramente tem muitas exigências de Deus, não?), esse se cansa de verdade, não é? E não necessita de comprimidos”.

A proposta de um modelo de pastor que não crie nenhuma distância, que não viva separado, que não se considere o “administrador” dos bens da graça, que não tenha a preocupação de “regular” a fé das pessoas, mas sim de facilitá-la, que não se ocupe excessivamente das questões de “moda eclesiástica” e não se preocupe demasiadamente com sua imagem. Vive unido com Deus e, por este motivo, completamente dedicado aos serviços que foram encomendados pelos fiéis. Deriva desta proximidade, deste compartilhar, a indicação sobre a sobriedade que o Papa pronunciou para os jovens seminaristas e religiosos, no dia 6 de julho deste ano: “Me dói quando vejo uma freira ou um sacerdote com um carro do último modelo. Não se pode ir com carros caros. O carro é necessário para fazer muitos trabalhos, mas queiram um simples. Se querem um bonito, pensem nas crianças que morrem de fome”.

As características do sacerdote apontadas por Francisco também aparecem no perfil do bispo que foi traçado nestes meses. No vídeo-mensagem enviada à Cidade do México, para o Congresso sobre a Evangelização na América, o Papa falou do bispo como “pastor que conhece suas ovelhas pelo nome, guia-as com proximidade, com ternura, com paciência, manifestando efetivamente a maternidade da Igreja e a misericórdia de Deus”. É o verdadeiro pastor, explicou, não tem a atitude “do príncipe ou do mero funcionário” que se preocupa principalmente pela disciplina, pelas regras, pelos mecanismos organizacionais; “e isto sempre leva a uma pastoral distante das pessoas, incapaz de favorecer e de obter o encontro com Cristo e o encontro com os irmãos”.

“O povo de Deus que lhe foi confiado – continuou – necessita que o bispo vele por ele cuidando, sobretudo, para que o mantenha unido e promova a esperança nos corações”. Francisco também falou sobre a importância para os bispos da formação de sacerdotes que sejam capazes de estar próximos, “que saibam transformar os corações das pessoas, que possam caminhar com eles, entrarem em diálogo com suas esperanças e com seus temores”.

Em diferentes ocasiões, Bergoglio fez alusão à doença do carreirismo: “Nós, os pastores – disse no dia 19 de setembro aos novos bispos – não sejamos homens com a “psicologia de príncipe”, homens ambiciosos, que são maridos de uma Igreja, enquanto esperam outra mais bonita, mais importante ou mais rica. Estejam muito atentos para não cair no espírito do carreirismo!”. “Evitem o escândalo - acrescentou - de ser ‘bispo de aeroporto!’ Sejam pastores acolhedores, que caminham com seu povo”.

Outro dos males que afligem a Igreja, e que às vezes vai ao encontro do carreirismo, é o clericalismo, uma “tentação”, como foi definido por Francisco na vídeo-mensagem enviada ao México, que causa muitos danos à Igreja. “A doença típica da Igreja volta-se contra si mesma – escreveu o Papa para os bispos argentinos, no último dia 18 de abril – é a uma autorreferência: olhar-se no espelho, curvar-se sobre si mesma - como aquela mulher do Evangelho. É uma espécie de narcisismo que nos conduz ao mundanismo espiritual e ao clericalismo sofisticado”. Carreirismo e clericalismo, enfermidade que às vezes se transmite, inclusive, aos fiéis leigos, que podem chegar a desejar ser “clericalizados”, são cadeias que impedem de sair, enfrentar os desafios da evangelização no mar aberto, para a qual o Papa chamou. 

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