A verdade e os dois rostos da liberdade. Artigo de Giulio Giorello

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28 Setembro 2013

É preciso que nos contentemos com verdades modestas, porque a Verdade pode bloquear a pesquisa. A liberdade é evolutiva.

A opinião é do filósofo, matemático e epistemólogo italiano Giulio Giorello, professor da Università degli Studi di Milano, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 25-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Odifreddi ignora o conceito de "liberdade", como diz Ratzinger? Digamos que ambos, a partir de um certo ponto de vista, se equivocam. A questão metafísica levantada pelo papa emérito sobre o livre-arbítrio – que se refere à "ficção científica" de Odifreddi e que se lança contra a predestinação de João Calvino – não é tão significativa.

A verdadeira questão é a ausência de restrição externa que permite que os indivíduos se tornem sujeitos responsáveis e portadores de mudanças, para retomar Spinoza ou John Stuart Mill (é seu, de 1859, o fundamental Sobre a  liberdade).

No entanto, parece-me pouco interessante também a posição do matemático Odifreddi, por estar viciada pelo engessamento da ciência em uma espécie de religião. Segundo Georg Cantor, a essência da matemática é a sua liberdade. Em matemática e outras ciências, a liberdade criativa se demonstra capaz de remover vínculos externos, sem romper o rigor do raciocínio formal.

Assim, corre-se o risco de perseguir uma Verdade com "v" maiúscula, enquanto, ao invés, como no Galileu de Bertolt Brecht, "o que hoje escrevermos no quadro, amanhã o apagaremos".

É preciso que nos contentemos com verdades modestas, porque a Verdade pode bloquear a pesquisa. A liberdade é evolutiva, como escreveu Daniel Dennett. E um grande matemático ateu como William Kingdon Clifford dizia que a ciência é um modo de agir sem medo.

O debate, como o entre Ratzinger e Odifreddi, embora com métodos e linguagens diferentes, é sempre muito frutuoso quando se está disposto a se arriscar pelas próprias convicções. E isso honra a ambos.