''Polêmicas sobre Martini? Querem torná-lo um ídolo para calá-lo''. Entrevista com Antonio Spadaro

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07 Setembro 2012

O jesuíta Antonio Spadaro, diretor da revista Civiltà Cattolica, fala sobre o debate e as emoções provocadas pela morte do grande cardeal jesuíta Martini.

A reportagem é de Alessandro Speciale, publicada no sítio Vatican Insider, 06-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dentro e fora das redes sociais, a morte do cardeal Carlo Maria Martini desencadeou um debate acalorado. A sua escolha de recusar a obstinação terapêutica, a homenagem de seculares e não crentes, os seus posicionamentos sobre temas controversos como o celibato, os casais homossexuais, a estrutura de poder na Igreja, assim como a sua profunda cultura bíblica e a sua capacidade de se pôr em diálogo com as instâncias mais complexas do mundo contemporâneo puseram em movimento uma discussão sobre o papel da Igreja e sobre a sua relação com a sociedade de hoje.

Para fazer um balanço do debate – incluindo as acusações de instrumentalização da figura do cardeal biblista e os rótulos que foram costurados sobre ele – o Vatican Insider falou com o padre Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica e jesuíta como Martini.

Eis a entrevista.

Martini foi saudado como o último dos "liberais" dentro da Igreja – ou ao menos dos seus planos mais altos. É uma caracterização adequada?


A categoria hermenêutica do "liberalismo" atribuída ao cardeal Martini tem, a meu ver, a desvantagem de pulverizar a força da sua presença "profética", isto é, capaz de falar de Deus a todos, na Igreja italiana e universal, tornando-a facciosa, partidária, não "católica" no sentido universal. O melhor modo de calar a força de um "profeta" é, de fato, transformá-lo em um ídolo. É um vício antigo: até na Igreja das origens, em Corinto, alguns diziam: "Eu sou de Paulo", e outros: "Eu sou de Apolo", provocando a irritação de Paulo por causa da facciosidade inconclusiva.

Quem foi Martini, então, realmente, para a Igreja?

Carlo Maria Martini foi um "incansável servidor do Evangelho e da Igreja", como o papa o definiu. De toda a Igreja. E ele fez isso com a sua sensibilidade importantíssima para a Igreja dos nossos tempos, de figura imponente. Martini soube interpretar o mundo para a Igreja e a Igreja para o mundo. Com linguagem simples e direta, soube comunicar a fé como potência que ajuda o ser humano a se comprometer com o mundo.

No entanto, Martini expressou muitas vezes posições diferentes das do Magistério oficial da Igreja...

Como verdadeiro jesuíta, ele viveu intensamente a sua fé, tentando também entender as razões de quem não tem fé. Ele sempre tentou abraçar todo o ser humano e todos os seres humanos, como disse o cardeal Scola na sua homilia no funeral. Alguns, captando nele uma dimensão de tormento e de dúvida, o interpretaram de forma cética ou polêmica. Ao contrário, estamos falando de um homem que soube atravessar as dúvidas e as incertezas do ser humano do nosso tempo para poder viver em primeira pessoa e comunicar como pastor da Igreja uma fé grande, cheia de confiança, mas encarnada e consciente. Afinal de contas, o coração da mensagem de Martini está ligado à centralidade não da dúvida, mas da Palavra de Deus na vida pessoal e da Igreja.

De que modo?

Eu acredito que a interpretação mais profunda do magistério e da vida de Martini está justamente na Bíblia, no sentido que ele encarnou e assumiu a linguagem, os gêneros e as figuras tão diversas presentes no seu interior. Reconhecemos nele ora os traços do salmista que louva, ora as características de Jó que lamenta, ora os traços do Eclesiastes que se interroga e pondera sobre a vaidade, ora as características de Jeremias que se sente chamado com paixão irrefreável... Evidenciar um aspecto para calar os outros é enganador.

Então, para o senhor, quem faz dele um ícone partidário não presta um bom serviço à sua memória e à sua mensagem?

É preciso entender que o vínculo com a Palavra de Deus e não somente a sua inteligência lhe permitiu ser um espírito não "liberal", mas sim "livre", autenticamente livre. E Martini lamentou muitas vezes em contextos privados do fato de ter sido agarrado pelo paletó e interpretado com clichês. Portanto, não acredito nos dualismos e acredito que toda a Igreja goza da herança martiniana, não somente uma parte. Obviamente, na Igreja, estão presentes diversas almas, não há nenhuma dúvida sobre isso. Mas na Igreja as sensibilidades diferentes, como as diferentes leituras das urgências do tempo, expressam a sua vocação que é a unidade e não a monoliticidade. Enfim, encerrar Martini na categoria "liberal" significa matar o porte da sua mensagem.

No entanto, provavelmente, também é porque ele é percebido como "diferente" pelo resto da Igreja que centenas de milhares de pessoas se sentiram tocadas pela sua morte e fizeram fila para prestar-lhe homenagem...

É preciso considerar o rio humano que quis prestar homenagem ao cardeal Martini e entender o que significa acompanhar o ser humano de hoje que se interroga ou, ao contrário, parece segura demais diante de questões nunca apresentadas antes e tão urgentes quanto agora. É preciso romper a tranquilizante contraposição clara entre liberais e conservadores para discernir (verbo caro ao cardeal e à tradição jesuítica) na Igreja o que é vital e o que marca uma involução.